Tempo precioso

Uma grande amiga minha certa vez descobriu que havia levado chifre do namorado e ficou possessa, de um ódio descomunal – quem nunca?

Ela havia decidido ir à casa do cara destruir tudo o que fosse valioso, porém, precisava de um apoio moral, alguém que a levasse, pois estava sem condições de dirigir.

Ligou pro seu melhor amigo e disse “vamos ali comigo que eu preciso resolver uma coisa, de uma vez por todas”.

O camarada, todo aperreado, cheio de compromissos, respondeu “meu amor, se for bem rapidinho, eu vou contigo, porque estou a caminho do banco, que logo mais fecha”.

Ela respondeu “vai ser muito rápido, tu vais ver”.

Ele passou na casa da moça, ela embarcou e foram juntos ao apartamento do homem.

Chegando lá, ela desceu com o carro ainda em movimento, bufando de ira, puxou do sutiã a sua cópia da chave, abriu a porta e já foi pulando com um cangapé na geladeira, se abraçou com um micro-ondas e o jogou no chão, apanhou umas camisas caras e foi rasgando e, nisso, o amigo-motorista-cúmplice disse, num tom desesperado “o que tu tá fazendo, mulher? Pelo amor de Deus!”, e ela, com o semblante de uma fera raivosa, gritou “eu vou destruir este apartamento todinho porque ele me botou chifre e…”.

Antes de ela terminar a sentença, o amigo estava com uma TV de plasma, tentando rachá-la ao meio nos joelhos, como uma criança quebrando um graveto. Ela, sem entender, perguntou “minino, o que tu tá fazendo? Deixa que esse problema eu assumo”.

Ele, todo apressado, suando, disse “meu anjo, eu vou te ajudar, porque eu to morrendo de pressa, o banco vai já fechar”.

Juntos terminaram de causar o prejuízo e, antes de deixar o apartamento, ele pegou uma sacola de supermercado, depois recolheu uns desodorantes que estavam sobre a pia do banheiro e disse “isso aqui eu vou levar porque tá caro demais”.

Diego Lourenço Gurgel é publicitário, jornalista e repórter fotográfico; trabalhou a maior parte do tempo retratando o cotidiano do povo acreano, sobretudo os ribeirinhos, os indígenas e o modo de vida do amazônida, daqueles que vivem na cidade e dos que vivem em cada pedacinho da Floresta Amazônica. Gosta de comer bodó quando chove