O seringal dos seringueiros – artigo de Elson Martins

(Foto: Pedro Devani)
O projeto Florestas Plantadas já cobre 3.200 hectares de áreas degradadas (Foto: Pedro Devani/Secom)

A Agência Notícias do Acre, do governo do Estado, publica interessante matéria sobre Florestas Plantadas, um projeto que já cobre 3.200 hectares de áreas degradadas com seringueiras (Hevea brasiliensis) de cultivo. Boa parte desses novos seringais crescem no Cachoeira, um projeto de assentamento conquistado a suor e sangue por Chico Mendes, sua tia Cecília e seus primos Duda, Sebastião e Nilson, com outros tantos bravos trabalhadores da floresta.

A matéria está assinada pelo jornalista Arison Jardim, neto de um ícone do jornalismo combativo do passado, Foch Jardim, que segue célere a inspiração do avô. Arison escreve, fotografa, filma, edita, sempre com boa qualidade. Melhor: enxerga a realidade acreana com o coração.

Na citada reportagem, o jornalista entrevista Duda Mendes, o mais parecido primo de Chico Mendes (no físico, no andar, no tom da fala e na alma) que tem três hectares plantados com seringueiras com mais de 800 árvores. Daqui a poucos anos elas vão produzir mais de dois mil quilos de látex por ano, o dobro do resultado obtido pelos mais exitosos seringueiros dos tempos áureos da borracha, os que a despeito de tudo obtinham saldo no final do ano.

Duda Mendes festeja o avanço: “Essas árvores plantadas assim, tu corta em uma manhã. Tu olha esse meu plantio com 610 árvores (em 1 hectare): vou poder cortar sozinho, mesmo na minha idade. Vou vir de madrugada, com a lanterninha na cabeça, risco e quando for 8 horas estou tranquilo em casa. A diferença está na produção, cada árvore pode me dar 250 gramas. Se for isso mesmo, sei que estou ganhando dinheiro”.

(Foto: Arison Jardim)
Duda Mendes, sobre o seringal plantado: “Venho de madrugada, quando for 8 horas estou tranquilo em casa” (Foto: Arison Jardim/Secom)

Nos anos 70 e 80, esse sonho nem de longe poderia ser alimentado, exceto pelos chamados empresários que chegavam à região financiados pela ditadura civil e militar de 64 através do Probor. Esse programa executado pela antiga Sudhevea derramou dinheiro na Amazônia em mãos erradas, as mesmas que utilizavam armas para expulsar famílias extrativistas da floresta. Com a grana, muitos empresários, em vez de plantar seringueiras, compraram seringais falidos e abriram enormes fazendas, explicando mal o desvio do dinheiro: “Diziam que os seringais não vingavam devido ao mal das folhas”.

Mentira! Na mesma época, seringueiros autônomos do Vale do Juruá e de alguma região do Alto Acre plantaram por conta próprio a Hevea brasiliensis em suas colocações, sem Sudhevea e sem nada, e hoje exibem belo patrimônio florestal. Já os pecuaristas ficaram mais ricos e poderosos com a verba pública do Probor.

No atual projeto, as seringueiras são plantadas em consórcio com mudas frutíferas como acerola, graviola e açaí. As frutíferas vão dar lucro antes, o que dá folga para o momento do lucro maior e mais estável. De 2011 para cá, o governo do Estado investiu 500 milhões na formação dos seringais de cultivo, um feito inédito na economia extrativista regional, e fez o Acre lembrar a “belle époque” da borracha.

Segundo levantamento feito pelo Arison Jardim,  em 2015 foram produzidas 44 toneladas de látex nativo e 196 toneladas de látex de cultivo para a fábrica de preservativos de Xapuri. Por isso Duda se mostra tão confiante e otimista a ponto de afirmar: “Toda madrugada, acordo e me benzo, dando graças a Deus por esse movimento que nós tivemos no Brasil”.