Mário, Heitor e Teseu

Nos anos 90 a onda dos videogames foi uma febre sem precedentes, e eu, que entrava na minha pré-adolescência, não podia ficar de fora de tudo o que aconteceria naquele período; tipo um menino magrelo que nunca curtiu esportes individuais ou coletivos, com estrutura lamentavelmente desfavorável às atividades ao ar livre, encantado pela cultura eletrônica que então se iniciava, circunstâncias que iriam deixar meus pais loucos quanto à divisão entre escola e novidades tecnológicas.

Agora, imagine você na quinta série, fazendo amizade com um cara megaintelectual, com interesses semelhantes, com exceção de MPB, ditadura militar, Tropicália, canções de Toquinho e acordes “sinistros” no violão, temas que só foram despertar minha atenção quase na época de ter minha primeira filha… Esse cara era o Heitor.

Naquele tempo era comum pedirmos aos nossos pais pra passar o fim de semana na casa dos colegas, como se fosse uma aventura sem fim em que brincávamos de tudo, comíamos coisas que só rolavam no Natal ou Páscoa, dormíamos bem depois das galinhas, ou seja, era a revolta da molecada contra tudo o que era lei durante a semana!

O fim de semana na casa do Heitor significava que iríamos, antes da maioria da criançada da época, desvendar todos os mistérios do recém-lançado Mario World do Nintendo 16 bits. Coisa fina! Caso ficasse chato, havia jogos de PC mais exóticos. E se a gente ficasse ainda mais entediado, ia fazer ovos à la Smurf, ou seja, ovos mexidos em fogo lento até começar a fazer pelotas, que indicavam a hora exata de acrescentar farinha de Cruzeiro do Sul, o que tornava o prato digno de prêmio gastronômico. Recomendo até hoje, é um espetáculo!

Mas a vida pra mim girava em torno do videogame. Enquanto fazíamos tudo que não fosse jogar, minha cabeça estava fixada na hora de voltar à fase onde paramos no Mario World.

Durante um tiro na pistola de ar comprimido, eu perguntava “e a fase da lava, Heitor?”, me referindo à missão que não havíamos concluído. Sempre preocupado com o objetivo principal do lançamento mundial da Nintendo.

Até que, numa dessas escapadas do quarto onde jogávamos, ele disse “vamos lá, vamos voltar!”.

Aquilo me enchia de alegria, pois voltaríamos a cutucar aquele pequeno controle que era o auge da inovação, uma pecinha de plástico cinza claro com botõezinhos lilases e roxos, cujo toque era acompanhado de explosões gráficas na tela da televisão de tubo, da qual às vezes abaixávamos o volume, quando ouvíamos o ranger da madeira dos corredores da casa, onde algum adulto caminhava rumo à cozinha ou banheiro, supondo que era “ilegal” estarmos jogando àquela hora da noite.

Mas antes de colocar o dedo indicador no botão de ligar do console, momento de êxtase de minha parte, olhando para aquele quadrado de entretenimento audiovisual, esperando o feedback do dispositivo, veio aquela vozinha do Heitor, enquanto segurava um violão clássico com seus dedos suados, que pareciam miniatura nas casas do instrumento, dizendo “escuta essa música do Hélio Contreiras, gravada por Xangai, que eu aprendi!”.

Era “Estampas Eucalol”, canção baseada em histórias contidas em cartões que vinham em sabonetes de eucalipto entre 1930 e 1960, que traziam contos, curiosidades e episódios históricos.

Do nada as mãos do menino pareciam que tomavam vida própria, e eu com aquela cara de abestado segurando o controle do Nintendo, olhando a mão direita dele passear pelas cordas de maneira hipnotizante, e sua voz tomou o silêncio do quarto cantando “Montado no meu cavalo, libertava Prometeu, toureava o Minotauro, era amigo de Teseu…”

Eu fiquei chocado enquanto ele ia despejando versos sobre mitologias, São Jorge lutando contra o dragão, o sequestro de uma professora das mãos de um Rei e tudo mais. Fiquei passado… Quando ele terminou a canção com a frase que encerrava num tom quase infinito “montado no meu cavaluuuuu…”.

Heitor terminou aquele dedilhado, faceiro, abriu os olhos com um sorriso maroto de orgulho por ter terminado a complexa música e olhou pra mim.

Minha única reação foi dizer: “Bora zerar Mario Brothers agora?”

Ele escorou seu Giannini, pegou o controle e ligou o diabo do videogame pra gente terminar a principal missão da noite.

Diego Lourenço Gurgel é publicitário, jornalista e repórter fotográfico; trabalhou a maior parte do tempo retratando o cotidiano do povo acreano, sobretudo os ribeirinhos, os indígenas e o modo de vida do amazônida, daqueles que vivem na cidade e dos que vivem em cada pedacinho da Floresta Amazônica. Gosta de comer bodó quando chove