A voz das mulheres do campo

Por Maciely Moura*

Os números do agronegócio nem sempre revelam as histórias de quem faz o setor responder por mais de 23% do PIB brasileiro. A intensa transformação pela qual as propriedades rurais passaram nos últimos anos aumentou a complexidade dos negócios e colocou o agro em uma rota inevitável de profissionalização.

A presença feminina no campo está cada vez mais forte, particularmente em postos de gestão e em determinadas atividades produtivas, e foi reforçada pela 8ª Pesquisa ABMRA Hábitos do Produtor Rural, divulgada no fim de maio deste ano. Segundo os dados, a força feminina representa, hoje, 26% dos cargos de decisão e comando das propriedades rurais. Para 94% dos produtores consultados, a mulher é vital ou muito importante no negócio rural.

Mariane e Sara são duas jovens mulheres que, assim como muitas outras espalhadas pelo Brasil, escolheram seguir os passos de seus pais e seus avós dentro do agro.

Mariane, técnica em agropecuária e estudante de Zootecnia, encontra na formação profissional o respaldo e a capacitação que precisa para tornar mais rentável a atividade leiteira, que sempre foi a fonte de renda da família.

Já Sara sentiu que a experiência de seu pai, somada aos conhecimentos técnicos dela, tinham tudo para gerar resultados satisfatórios na fazenda da família, que trabalha com pecuária, mais precisamente com a fase de cria.

Essas mulheres são o retrato de uma realidade que até pouco tempo não era comum de ser vista no agro. Mas o cenário tem mudado. Cada vez mais mulheres têm conquistado a confiança de seus pais para gerenciar seus negócios. Com muita força e resiliência, elas têm mostrado sua capacitação, potencial e habilidades, demonstrando segurança, para que seus pais também fiquem seguros em deixar os negócios sob a responsabilidade de suas filhas. E essa sucessão familiar envolve mais que a continuidade das propriedades, envolve o destino de várias regiões, devido ao forte papel social e cultural que o desempenho agropecuário exerce na economia de muitas regiões.

É muito comum que os jovens que estão sendo preparados e inseridos nos negócios da família queiram implementar novas ideias, traçar novas estratégias imediatas, investir em novas tecnologias e mudar tudo drasticamente, mas o caminho deve ser um pouco mais cauteloso. Foi o que aconteceu com Sara Lima e seu pai. “No começo a ideia de novas tecnologias assustou meu pai e eu percebi que eu tinha que ter calma, afinal, foram anos tocando o negócio sozinho e, de repente, chega alguém querendo mudar tudo? Percebi que esse não era o caminho. O diálogo é fundamental e mostrar resultados é ‘chave do negócio’”, relata ela.

A irmã do meio de uma família de três irmãos tem em mente a necessidade desse trabalho em equipe. Ela e sua irmã seguem juntas o propósito da sucessão em áreas distintas da produção rural. Mas, como em tantas outras propriedades que vivem a sucessão familiar, muitos são os desafios.

“Só quem vive a sucessão familiar sabe dos desafios que enfrentamos, mas a vontade de fazer acontecer e dar certo é maior do que qualquer dificuldade. Trabalhamos com pecuária de cria e estamos no primeiro período de nascimentos de bezerros após o início da minha participação nos trabalhos na fazenda e não consigo encontrar palavras para demonstrar a minha felicidade de estar colhendo resultados aqui, na terra da minha vó”.

Uma das grandes contribuições da nova geração é o fato de ser mais conectada e dominar tecnologias, softwares e aplicativos. As filhas dos produtores, que são amplamente conectadas, podem contribuir muito para o aumento da produtividade, aplicando essa tecnologia aos manejos já executados pelos pais experientes. As mulheres sucessoras podem ainda contribuir com diferenciais competitivos, alinhando os manejos de produção de forma a buscar um produto com valor agregado, com a aplicação de técnicas sustentáveis e evolução da propriedade e da atividade em diversos aspectos.

É o que aponta Mariane Lins, jovem sucessora da pecuária leiteira. “A importância do jovem no campo vem pela oportunidade de gerar um conteúdo novo, com novos resultados e novas técnicas. Renovar a mão de obra e oferecer uma maneira mais eficiente de produzir. Acredito que a forma que mais contribuímos com os negócios dos nossos pais é oferecendo a eles a tecnologia para aumentar sua produtividade e o lucro da atividade”.

Além do cuidado e zelo pelos detalhes, a mulher também incentiva outras mulheres quando toma posse do seu espaço. E dessa forma, mesmo com todos os desafios, as mulheres vão também ocupando seu espaço como filhas, gerentes, gestoras e empreendedoras dos negócios da família. Assim como Mariane e Sara, muitas outras lutam diariamente para conquistar seu espaço no agro. E a cada dia mostram como podem fazer a diferença, onde quer que estejam.

Maciely Moura é formada em administração, especialista em agronegócio e gerência de fazendas.
Desafiou-se a um novo propósito, que é formar-se em medicina veterinária