Feminismo

União Brasileira de Mulheres debate políticas públicas em encontro estadual

Em curso da campanha mundial “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher”, a União Brasileira de Mulheres (UBM) promoveu nesta sexta-feira, 8, em Rio Branco, o encontro estadual para debater políticas públicas e ações de enfrentamento à violência de gênero.

O evento, que reuniu lideranças femininas dos inúmeros municípios acreanos, contou com o apoio da Procuradoria Especial da Mulher do Senado Federal. Emocionadas, em clima de união e resistência às propostas federais que anulam direitos conquistados ao longo dos anos, elas abriram o encontro homenageando uma das fundadoras do Movimento de Mulheres do Acre, Rita Batista.

O evento reuniu lideranças femininas de diversos municípios acreanos (Foto: Luciano Pontes/SEPMulheres)

“A gente sabe que em época de crise, os direitos das mulheres tendem a ser suprimidos e não deixaremos que isso aconteça, nem no Acre e nem no Brasil. É necessário que estejamos unidas, lutando pelo feminismo, pela não violência e mau atendimento às vítimas”, salientou a coordenadora da UBM, no Acre, Maísa Naluy Moreira.

A palestra sobre “Violência Doméstica e Familiar” foi ministrada pela desembargadora do Tribunal de Justiça do Acre, Eva Evangelista. Rita Polli, coordenadora da Procuradoria da Mulher no Senado, abordou a importância da instituição no empoderamento feminino e apresentou a oficina “Saúde da Mulher: Autonomia no Corpo e na Vida”.

Rita Polli observa que a UBM tem papel importante na consolidação da Rede de Atendimento à Mulher. “O nosso convite é para que a União Brasileira de Mulheres seja mais um reforço, uma entidade dos movimentos sociais de grande importância e que terá um papel de influenciar para que nos estados sejam criados as estruturas de Procuradorias da Mulher”.

A presidente de honra da UBM e ex-deputada federal, Perpétua Almeida, destacou a importância da união feminina em prol da conquista de direitos. “É preciso com que nós mulheres, independente de qualquer partido político, ou que não goste de política, ou que não esteja em nenhum partido, que esteja nos governos municipal e estadual, ou que não esteja em governo nenhum, é importante a gente se engajar nas entidades para promover a paz na sociedade”, enfatizou.

Confira na integra a homenagem feita à Rita Batista – ilustre figura do cenário acreano, feminista, fundadora do Movimento de Mulheres do Acre e militante dos direitos humanos e justiça social, falecida no último 18 novembro.

Rita Batista (Foto: Arquivo Pessoal)

“O legado de luta de Rita Batista

Rita Batista nasceu em julho de 1945, com um espírito corajoso e inquietante. Desde muito cedo sonhava em buscar dignidade em prol dos que sofriam com injustiças.

Antes disso, Rita iniciou sua atuação política na União dos Professores Primários do Acre (UPEA) e mais tarde ajudaria a fundar a combativa Associação dos Professores do Acre (ASPAC).

No início da década de 80, com Iza Costa, Teotista, Alia Bimbi, Maria Lúcia, Concita Maia, Maria Lúcia (do MoHan), Maria José Pires e dona Raimunda do Bairro Triangulo Novo, Rita ajudou a fundar o Movimento das Mulheres do Acre (MMA) – primeira organização de mulheres do Acre, que nasce a partir das vivências políticas nas greves das mulheres quebradeiras de concreto para a construção civil, que no início dos anos 80, lutavam pela equiparação do preço do metro cúbico de concreto quebrado por elas ao valor pago aos homens.

O MMA organizou heroicas e memoráveis batalhas, como a ocupação do Seringal Catuaba, episódio em que as mulheres de armas em punho enfrentaram o latifúndio que ameaçava expulsa-las, juntamente a suas famílias, de suas terras. Época em que se tornaram recorrentes os “Empates” sob lideranças masculinas, mas no caso do Catuaba as mulheres foram as protagonistas, e lá estava a Rita Batista, responsável por distribuir para as mulheres as armas e o Jornal Tribuna da Luta Operária.

Sob a direção do MMA foi fundado, em Rio Branco, o Sindicato das Lavadeiras e, com ele, as primeiras lavanderias comunitárias no Palheiral e na Cidade Nova. Também é fruto da luta do MMA e de Rita Batista a criação, na capital, da primeira Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher de todo o Brasil, que em pouco tempo se tornou referência nacional de políticas de proteção às mulheres.

Durante as eleições constituintes de 1986, Rita Batista foi candidata ao Senado Federal pelo PCdoB, fato inédito para uma mulher, depois de 21 anos de ditadura militar. Nos anos de 1990, com a extinção do MMA, dedicou-se ao trabalho de organização e fundação no Acre da União Brasileira de Mulheres (UBM).

Rita enfrentou a ditadura militar, lutou pela igualdade de gênero e pela emancipação das mulheres, participou ativamente nas organizações de base de movimentos sociais, combateu preconceitos e discriminações sem nunca recuar diante das dificuldades, ao contrário, encontrava nessas lutas muita força pra prosseguir. Tinha convicção de que só através da luta organizada conseguiríamos alcançar a realização do nosso sonho de um país justo e igualitário.

Foi a primeira mulher radialista da Rádio Difusora Acreana, esteve a frente da UBM do Acre, do Conselho Estadual de Mulheres, atuou na Secretaria de Estado de Mulheres de Políticas para as Mulheres, ajudou a fundar vários sindicatos, tais como o das garotas de programa, das lavadeiras, o Agá & Vida e, durante os últimos anos de sua vida, dedicava-se a coordenação do Educandário Santa Margarida.

Rita tinha a firmeza do ferro fundido e a leveza dos jardins. Cumpriu a sua missão de mãe, de companheira e de mulher nas lutas do povo acreano”.