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Polícia Militar incentiva acompanhamento psicológico de profissionais da corporação

Estudo de psicóloga acreana revela que 70% dos policiais militares do Acre não procuraram ajuda psicológica, mesmo tendo consciência do próprio estado mental

Em todo o Acre, há cerca de 2,5 mil policiais militares no serviço ativo, entre homens e mulheres, responsáveis pelo policiamento ostensivo, estando portanto diretamente envolvidos no combate à violência nas ruas. Além dos riscos inerentes à profissão, esses profissionais convivem diariamente com o desafio de equilibrar a vida pessoal com o peso de uma atividade laboral estressante, que os coloca na difícil posição de lidar com altas cargas emocionais, e separá-las da vida privada. Apesar disso, 70% dos policiais militares acreanos nunca procuraram ajuda psicológica. É o que aponta um estudo realizado de forma independente pela psicóloga clínica Édila Aguiar, especializada em psicologia jurídica.

Participaram do estudo 212 policiais militares de quatro batalhões da PMAC, entre oficiais e praças de ambos os sexos Foto: Arquivo.

Com o tema “Psicologia e Polícia Militar: Um Estudo sobre a mente policial no Estado do Acre”, a pesquisa, realizada com a anuência e incentivo do comando da Polícia Militar do Acre (PMAC), foi publicada na Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. O objetivo foi mostrar o impacto que a atividade policial tem no estado mental e na vida pessoal dos policiais, e revelou como eles se sentem em relação à sua atuação profissional, elencando as inquietações que os afligem e as consequências da pressão a que são submetidos.

Para isso, a pesquisa tomou como principais eixos de estudo questões como relacionamento familiar, estresse ocasionado pela atividade laboral, agressividade, ansiedade e insônia, suicídio, necessidade de acompanhamento psicológico e valorização profissional. Participaram do estudo 212 policiais militares de quatro batalhões da PMAC, entre oficiais e praças de ambos os sexos, todos do serviço ativo. O método utilizado foi quali-quantitativo, por meio da aplicação de questionário individual em uma escala de 20 questões objetivas fechadas, respondido anonimamente por cada policial voluntário.

Segundo a pesquisadora, o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal do Acre (CEP-Ufac), seguindo todos os critérios éticos exigidos para um estudo dessa natureza. Autodeclarada admiradora da Polícia Militar, a psicóloga acreana destaca que buscou compreender a realidade profissional dos policiais militares do Estado, e então descobriu que no Acre ainda não havia estudos sobre o assunto.

Psicóloga Édila Aguiar e o comandante-geral, coronel Paulo César Foto: Cedida.

“Eu acredito que quando você tem interesse em conhecer uma realidade, você deve fazer. Foi quando decidi buscar o comandante-geral e ele prontamente aceitou esse projeto”, afirmou a psicóloga, destacando que as más condutas dos policiais militares são muito criticadas, mas pouco se fala sobre como a atividade policial pode afetar seus aspectos mentais.

Entre os dados obtidos no estudo, Édila levantou que mais de 60% dos militares consideram que, de algum modo, o trabalho já interferiu no relacionamento familiar. Cerca de 76%, em alguns momentos, se sentem estressados pela atividade que desempenham, e mais de 50% consideram que a atividade policial interfere no emocional. Ainda assim, quase 54% se disseram felizes com o cargo exercido. O mais intrigante, segundo a psicóloga, é que apesar de 60% considerarem que o acompanhamento psicológico é importante para a profissão, 70% dos policiais não chegaram de fato a procurar por ajuda especializada.

Várias frentes

O coronel Paulo César Gomes da Silva, comandante-geral da PMAC, deu anuência à realização do estudo, uma vez que entende ser importante compreender e discutir o assunto, ainda um tabu em alguns setores da sociedade. “É necessário acabar com o estigma que envolve a ajuda psicológica. À medida que nossos policiais são mais bem assistidos, a instituição tem melhores condições de prestar um apoio eficaz, voltado especificamente às suas necessidades e demandas, sejam elas físicas ou emocionais. Quem ganha com isso é a sociedade”, pontua.

A tenente-coronel Marcilene Alexandrina Chaves, chefe da Sessão de Atendimento Biopsicossocial da Diretoria de Saúde da PMAC, explica que a corporação disponibiliza atendimento psicológico e terapêutico a todos os policiais militares e seus dependentes, por meio do serviço de saúde da instituição. “Atualmente temos três psicólogos, do quadro da própria Polícia Militar, que prestam esse atendimento, além dos profissionais conveniados, que realizam atendimentos externos”, destacou a oficial.

A Diretoria de Saúde da PMAC também começou a trabalhar com três grupos terapêuticos, voltados a crianças, adolescentes e casais (militares ou dependentes). Com participantes voluntários, os grupos são desenvolvidos pela instituição em parceria com o curso de psicologia de uma universidade particular do Estado, e são supervisionados pelos psicólogos militares da PMAC. Em breve um novo grupo, voltado à temática da agressividade, será iniciado para pessoas a partir de 18 anos e para policiais encaminhados por suas respectivas unidades.

Crianças dependentes de polícias também são alvo dos grupos terapêuticos Foto: Cedida.

Recentemente, a PMAC iniciou um programa de preparação para policiais militares em fase de transição para a reserva remunerada, que pretende prestar assistência em diversas áreas aos militares que têm o tempo restante de, aproximadamente, dois anos para estarem aptos a ingressar na reserva remunerada, a “aposentadoria” dos militares estaduais. O objetivo é proporcionar conhecimento, compreensão e otimizar o processo de ingresso nessa nova etapa de suas vidas, favorecendo uma transição mais saudável, inclusive emocionalmente.

Em outra frente, a Divisão de Recursos Humanos Militar da PMAC (DRHM) deu início ao Programa de Prevenção e Tratamento do Superendividamento, e oferece palestras de educação financeira, inclusão do tema como disciplina na grade curricular dos cursos de formação da instituição, além de atendimento personalizado e consultoria aos militares com problemas financeiros graves. O objetivo é possibilitar melhor qualidade de vida aos militares, minimizando os problemas psicológicos oriundos de preocupações com dívidas.

O estudo sobre a “mente policial” servirá ainda de base para ações internas da instituição, segundo o comandante-geral, e deve entrar na grade curricular dos cursos de formação da Polícia Militar, como uma forma de esclarecer e diminuir a resistência dos profissionais à busca por ajuda psicológica.