Música, repetição e Woody Allen

Dia desses eu estava ouvindo o disco “Dark Side of the Moon”, do grupo de rock psicodélico Pink Floyd. Apesar de lançado em 1974, a música presente no álbum parece ser atemporal, não importa o ano em que se escute. Uma verdadeira obra prima de pouco mais de 40 minutos, capaz de levar o ouvinte para uma outra dimensão, um universo paralelo de sonoridade.

As dez faixas, muito bem letradas e orquestradas por Roger Waters e cantadas por David Guilmour, funcionam como uma música só, com vários compassos e ritmos variados e tão bem feitos que só podem ter sido produzidos por verdadeiros gênios.

Comecei a ouvir o disco por um acaso há anos atrás, por ter lido alguma personalidade da música dizer que “Dark Side” era “o melhor da história”. Desde então, não parei mais, e pelo menos uma vez por mês eu o escuto, seja na caminhada com o cachorro, na academia ou no carro.

Mas não é apenas a banda britânica que tem esse poder de transcendência musical, de mexer com o sentido dos ouvintes, de estimular a criatividade, desenvolver o campo das ideias em nosso cérebro ou até mesmo potencializar o treino na academia ou corrida – dica:  pesquise sobre isso no google.

Determinadas músicas, dos mais variados estilos, podem também nos “transportar” para períodos importantes em nossas vidas, onde é possível imaginarmos situações marcantes com detalhes minuciosos. Até o cheiro pode ser simulado por nossas mentes, tudo em alguns segundos e, muitas vezes, involuntariamente.

No meu caso, gosto muito de uma banda chamada MGMT, uma espécie de Pink Floyd da atualidade. Com sonoridade profunda e carregado de sentimento e letras inteligentes, o conjunto sempre está entre os mais ouvidos no meu celular. Outras bandas, como Raimundos e Los Hermanos, parecem ter criado um estilo próprio e impossível de ser imitado, tamanha a profundidade de suas criações.

Eu poderia citar mais 50 outros bons exemplos, mas não vem ao caso, até porque cada um tem seu estilo de preferência. Mas o impacto é semelhante em cada um de nós. Uma música pode melhorar nosso ânimo ou nos jogar na desgraça completa, como ocorre nas músicas da Marília Mendonça, no gênero da “sofrência”.

Meu questionamento sobre as músicas atuais, a maioria delas, é como elas estão ficando cada vez mais pobres de criatividade, seja nas letras, arranjos e musicalidade em geral. Tudo isso deve-se, em grande parte, à repetição, que eu chamarei de “repetição bovina”. Assim como sempre ocorreu, as músicas do momento se tornam tendência, e grande parte das pessoas, como gados no curral, seguem o fluxo e repetem o que a maioria faz.

A diferença é que nos anos 60 e 70, os artistas escolhidos pelas grandes gravadoras tinham talento para dar e vender, como Beatles, Led Zeppelin e o próprio Pink Floyd. Em 80 e 90, tínhamos Nirvana, Red Hot Chilli Peppers, Madona no auge e uma quantidade praticamente infinita de grandes grupos de vários estilos.

Hoje as gravadoras focam em vendas rápidas e instantâneas de artistas com muito pouco talento e primorosas edições musicais eletrônicas, em que a voz do artista é quase 100% alterada por recursos técnicos. Um estudo feito recentemente constatou que, entre as 10 mais ouvidas da Bilboard, apenas 4 pessoas as tinham escrito. E, pasmem, nenhuma era dos próprios artistas!

São músicas feitas sob encomenda, por compositores pagos e focados em estudos para determinar o que as pessoas irão gostar instantaneamente, o famoso hit chiclete. É só abrir qualquer lista de mais ouvidas do Brasil e do mundo e notar a segmentação de sons muito parecidos, de acordo com determinada categoria. Por exemplo, desafio qualquer um a adivinhar, só pela voz, quem é o (a) cantor (a) desses últimos hits lançados da música pop. Digo com segurança que ninguém vai acertar!

São vozes muito parecidas, batidas semelhantes e letras feitas para crianças de 10 anos. No funk, a sexualidade atinge níveis pornográficos, e no sertanejo, faço outro desafio: encontrar uma única música que não fale de álcool, balada ou traição.

Resumindo: acredito que todos os estilos musicais são válidos e cada um deve ter o seu, não há problema nisso, mas a atual forma como esse segmento está sendo gerido está extinguindo alguns ritmos importantes, como por exemplo o rock.

Bandas das quais sempre fui fã e tem uma legião grande de admiradores, como Arctic Monkeys e The Killers, mudaram completamente suas respectivas sonoridades, abusando de sintetizadores e abandonando as guitarras. Resultado: perderam boa parte de seu público.

Ou seja, público para músicas que estimulam o trabalho autoral dos artistas, os solos de guitarra, letras marcantes etc existem aos montes, e a prova disso é o movimento cada vez mais frequente de pessoas voltando a ouvir grandes hits do passado. Mesmo assim, quem realmente manda no negócio parece se fazer de cego em não acompanhar as tendências.

Talvez porque seja mais cômodo ter artistas limitados para exercer o controle sobre eles de forma mais efetiva, vide os problemas causados pelas grandes estrelas do passado.

No fim das contas, eu me vejo nessa situação exatamente como Woody Allen se sente em seus filmes, achando as músicas atuais ridículas e sem alma, me atendo aos clássicos com devoção. O cineasta americano tinha fixação com a Paris dos anos 20, sempre a descrevendo como o paraíso na terra.

Eu consigo alcançar meu paraíso particular todos os dias através das músicas que me agradam, ainda que no carro do Uber ou supermercado, por exemplo, ainda ouça certas coisas das quais gostaria de evitar. Normal, democracia é isso. Se a maioria gosta e ouve sem questionar, eles é que devem estar certos. Eu aceito a derrota sentido, e sigo em frente. Igual ao personagem de Owen Wilson no filme “Meia noite em Paris”.

Mauro Tavernard é assessor de comunicação da Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict)