Expedição Chandless

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Uma viagem rumo ao coração preservado do verde indomável da Amazônia. Iniciativa acreana faz diferença positiva na desequilibrada balança climática do planeta Terra

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Nos últimos dias do mês de maio um batelão partiu de Sena Madureira com uma importante missão: levar ao distante destino a Expedição Chandless. A bordo, pessoas de quatro municípios diferentes mas com um objetivo único. O de dar uma pequena, mas importante contribuição para a preservação do Acre, da Amazônia e por sequência, do planeta Terra.

O local destino desta missão tão única é o Parque Estadual Chandless. O gigante berço de floresta protegida por lei e o santuário para sobrevivência de inúmeras espécies de animais. Entre as missões da expedição estavam a manutenção do contato com a população tradicional, a realização do monitoramento e fiscalização periódica, estudo de solos para escolha do local da sede e a instalação da sinalização do Parque.

A primeira placa instalada fica na foz, ou boca como é falado na região, do rio Chandless. O território pertence a uma reserva indígena da etnia Kulina. Antes da instalação da placa o cacique da aldeia, Cabral Kulina, foi consultado e além de permitir a instalação ofereceu ajuda para fazer a proteção da placa. Contar com o apoio dos índios é fundamental para manutenção da placa e proteção do Chandless, já que a terra dos Kulina é a única passagem para o Parque Estadual.

A segunda placa foi instalada perto da boca do igarapé Maloca, que junto com o rio Cuchicha marcam o limite entre a terra indígena dos Kulina e o Parque Estadual. Outra foi colocada perto da casa de um dos moradores, o senhor Olegário. A sinalização avisa que o Parque Estadual Chandless é uma área de proteção integral sendo a caça, a pesca e a extração da floresta, proibidas. A entrada de estranhos só pode ser feita com autorização da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).

O Parque Estadual Chandless é a segunda maior área de preservação integral do estado do Acre. No coração da floresta, a reserva cobre 695 mil hectares do estado e serve de abrigo para 13 espécies em vulnerabilidade ou em risco de extinção. Sem contar que a área é o centro de distribuição de um tipo especial da floresta amazônica, objeto para pesquisadores do mundo inteiro. O bambu, ou pelo seu nome mais comum, a taboca.

O exemplo que vem de um lugar distante quatro dias de batelão, encravado no meio da selva, é mais atual que uma notícia na internet. É real e palpável. Lá as pessoas mostram como viver em comunhão com a terra e suas riquezas. Como consumir de forma mais consciente. E também como o homem desavisado pode acabar destruindo a sua fonte de vida. O parque é o baú de histórias de 19 famílias que vivem em isolamento extremo e se mantêm firmes ali desde o ciclo da borracha. Acima de tudo, presta um importante serviço ambiental para todo planeta. Um benefício para todos, mas pouca gente sabia. Até agora.

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O Parque Estadual Chandless é a segunda maior área de preservação integral do Acre

{xtypo_rounded2}Criando um futuro sustentável

A partir de 2003, indicativos de vários pesquisadores, do Ministério do Meio Ambiente e do Governo do Acre fomentaram o estudo da região na fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia. Os resultados superaram as expectativas sobre a biodiversidade da área. A partir disso foi realizado um exaustivo levantamento e também uma consulta pública com os moradores dos municípios próximos. A lei de criação, Decreto Estadual n˚ 16.670, foi assinada pelo então governador Jorge Viana, em 4 de Setembro de 2004.

Dados os passos iniciais a equipe de gestão do Parque, capitaneada pelo gestor da área, o biólogo Jesus Rodrigues, entrou na fase de construção do Plano de Gestão. Este é o principal instrumento de manutenção e proteção da reserva. Nele estão contidos, de forma minuciosa, os mandamentos que dizem o que pode ou não ser feito dentro da reserva. Indica ainda como a população tradicional, que já vem na quarta geração de “chandlenses”, pode utilizar os recursos naturais do Parque.

Este caminho de consolidação da gestão perpetua os serviços ambientais que o P E Chandless presta ao planeta. ”E o leva ao seu destino maior que é se transformar em um campo de pesquisa para estudiosos do mundo todo e estação de turismo ecológico”, como explicou o gestor do parque, Jesus Rodrigues. {/xtypo_rounded2}

O barulho ensurdecedor produzido pelos motores do batelão se torna companheiro de viagem. Só para chegar ao Parque são 4 dias navegando pelos rios Iaco, Purus e Chandless, com dois motores berrando à toda força. A maior parte da viagem é sobre o Purus, uma importante rota de transporte de carga entre três municípios do Acre. Quase toda carga transportada entre Sena Madureira, Manoel Urbano e Santa Rosa usa estas hidrovias.

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Um passeio pelo Rio Chandless sempre traz agradáveis surpresas

Mapa da região –

Os batelões levam de tudo. Gêneros alimentícios como açúcar, macarrão e arroz, materiais de construção como telhas, cimento e pedra, até aparelhos elétricos e eletrônicos como geladeiras e condicionadores de ar. Muitos batelões navegam além da cota permitida de carga para aproveitar ao máximo o valor do frete, que é de quarenta centavos por quilo em média. O risco de naufrágio para esses barcos e a perda de toda carga é muito alto, pois os rios caudalosos escondem bancos de areia e tocos de árvores a cada curva.

No período seco uma viagem entre Manuel Urbano e Santa Rosa chega a demorar 12 dias. Isso se não ocorrer nenhuma complicação. Esse tempo de viagem é compartilhado por uma equipe mínima de cada embarcação. O capitão, que vai na proa ao leme. O responsável pelos motores, que fica de plantão no final do barco e tem que aturar o berreiro dos motores. E a figura mais surpreendente, de certo a figura da coragem e desprendimento, a cozinheira da comitiva.

No caso da Expedição Chandless era a dona Maria Dimas, ou como é chamada desde criança, a Zefa. Partia dela a alimentação farta e a mordomia de um chá de casca de Jatobá ao cair da tarde pra matar o tempo dos navegantes. Os outros tripulantes eram o Baixinho na casa das máquinas e o capitão, seu Artenísio Silva.

Moramos, todas as 14 pessoas, por quase 10 dias completos neste batelão. O espaço reduzido é ampliado pela incrível beleza das paisagens. Através de barrancos, praias, garças, araras, botos e gente passando em barcos maiores que o nosso, menores, pequeninos e mínimos, íamos empurrando as horas.

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Vida simples e belas paisagens. Essa é a rotina de quem vive nessa imensa reserva florestal

Passeio através do tempo

O parque ganhou esse nome por conta do seu principal curso d`água, o rio Chandless. Por sua vez o rio foi batizado com um nome que veio de muito mais longe. Sir Wiliam Chandless era um famoso explorador britânico que veio parar por estas bandas por causa de uma dúvida que tirava o sono dos barões da borracha. Era chamado de “o problema do Purus”.

No tempo em que as rotas para o transporte das pelas eram de grande importância a pesquisa de alternativas de novos rios navegáveis era imprescindível. Vale lembrar que não existia imagem de satélite que mostrava onde os rios nasciam e onde desembocavam. É neste cenário que Wiliam Chandless partiu em busca da nascente do Purus e também para saber se ele serviria de rota para escoamento de carga.

O britânico não conseguiu chegar à nascente do gigante Purus, mas publicou vários artigos sobre a viagem. O que lhe rendeu o batismo do rio Chandless, por onde apenas passou. Prêmios e mais honrarias, por esta e outras aventuras. Mas o homem que enfim descobriu a nascente do Purus foi o brasileiro Euclides da Cunha, alguns anos após.

O jornalista e escritor, autor de Os Sertões de 1902, decidiu vir para o Acre no ano de 1905. O objetivo era desvendar a miragem amazônica, a região perdida e impossível de ser dominada. Deve-se a este corajoso o mapeamento do rio Purus e a demarcação definitiva das fronteiras entre Brasil, Peru e Bolívia.

A arca do Acre

O Parque Estadual Chandless é morada e abrigo seguro para uma das mais ricas biodiversidades da Amazônia. Estudos realizados desde 2003 ponteiam as riquezas desta região do estado acreano que abriga 13 espécies em vulnerabilidade ou em risco de extinção. Entre os animais catalogados estão 39 espécies de mamíferos terrestres. São capivaras, antas, vários macacos, como o guariba e o saltador macaco aranha. Duas espécies de mamíferos aquáticos representadas pelos místicos botos rosa e cinza.

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O Parque Estadual do Chandless abriga uma grande diversidade de animais. Entre os que mais chamam a atenção, os pássaros que voam pelos topos das árvores

Mais de 63 espécies de anfíbios e 40 espécies de répteis. Entre eles os jacarés que se espraiam nas margens do rio na hora do sol a pino para absorver calor do astro rei. E as aves são suficientes para um capítulo à parte no Chandless. Existem várias espécies de gaviões, garças, jaburus, araras, papagaios e periquitos voando em bandos e roendo os barreiros aos montes. Isso sem contar outra infinidade de pássaros menores, como por exemplo o martin pescador.

Existe ainda uma estimativa de que o parque abriga mais de 70 espécies de morcegos que oferecem um espetáculo durante cada entardecer. E a botânica soma até agora 264 espécies de 71 famílias de plantas diferentes. Além disso, o parque é cenário de eventos únicos na Amazônia. Um exemplo é a dinâmica de morte e o rebrotamento em perfeita sincronia de grandes partes da floresta de bambus, que é a planta símbolo do Parque.

A abundância de alimento na mata mantém o número de amimais, que a todo o momento aparecem nas praias e barrancos do rio. As aves, principalmente, se mostram em grande número e variedade o que dá ao Chandless um grande potencial para um tipo de turismo que vem crescendo ao redor do mundo, o de observação de pássaros.

Este tipo de turismo deve ser feito com cautela, pois o maior predador das Américas também foi atraído pelas regalias deste lugar preservado. A onça pintada anda livre e em grande número por esta região e os ataques podem até ser chamados de “causos”, mas são preocupação diária para as famílias residentes no Parque Estadual Chandless.

Baú de causos

chandless_196.jpgO causo do ataque da pintada assusta até mesmo a quem está distante desta realidade quatro dias de batelão. Difícil imaginar então um garoto de apenas 14 anos de idade se safando com bravura cinematográfica dos dentes do felino. Mas assim fez o filho de dona Marquisete Souza, ribeirinha do rio Purus. Ele ia mariscar no igarapé próximo de casa como de costume quando sentiu uma presença à suas costas. Se virou já no salto da onça e antes que fosse a hora dela beber água, puxou a espingarda e salvou-se. Ou ela, ou eu.

Esse ataque aconteceu, de acordo com a mãe do garoto, há menos de um mês antes da nossa passagem. Menos sorte teve o filho do seu Olegário Peres. O filho mais velho mora agora em Rio Branco e trouxe consigo as cicatrizes de um ataque de onça. Salvou-lhe um irmão mais novo que trazia a espingarda, companheira inseparável nesta mata, que acertou o animal antes que desferisse o último golpe na sua presa humana.

A desconfiança das feras e a confiança na mata são dois sentimentos que ajudam as 19 famílias tradicionais do Chandless a vencer as dificuldades na reserva. O acesso aos remédios industrializados é difícil e a saída é contar com as plantas que curam. Mas para isso é preciso confiar no conhecimento e na fé do curandeiro do Chandless, seu Alberto de Souza.

Ele conta que aprendeu com os índios a achar as plantas certas para febre e para todo mal do corpo, como o sanango. A planta oferece uma bela flor lilás, mas o remédio é feito com a raiz e embriaga o paciente. Junto com a embriaguez vão embora os males.

Já os partos seu Alberto aprendeu a fazer com ajuda dos animais e com “a inspiração divina”, como conta. Às vezes ele matava uma paca prenha e ali mesmo, na mata, apalpava o animalzinho na barriga da mãe e fazia o parto. Amarrava o umbigo com envira e cortava com a faca. “Levava pra casa e dali a pouco a paquinha começava a ficar durinha. Ia na mata e pegava comida pra ela, e já virava animal de casa”. Aprendeu tão bem que todos os oito netos, filhos de Antônia de Souza, nasceram pelas suas mãos.

Antes da despedida, seu Alberto arremata a conversa: “Eu nasci, cresci, me fiz de família e criei meus filhos aqui no Chandless. Gosto daqui e meus filhos gostam de mim. E quero morrer aqui no Chandless”. Determinado, partiu para casa de farinha, cuidar da vida com a sabedoria alta dos 78 anos de idade.

Educação ambiental: a chave do futuro

Ao final da expedição a ideia era fechar com uma pequena ajuda dos alunos da Escola Municipal Wiliam Chandless, que fica dentro da reserva. O professor, o único, vem de Manoel Urbano preparado para ficar na comunidade durante todo o período letivo da série mista, com alunos de 6 a 16 anos.

Na escola acontece uma verdadeira troca. Numa via o conhecimento do currículo escolar, na outra os alunos passam para o professor as vivências de quem nasceu e se cria em harmonia com a floresta. O senso de que o homem depende de um ambiente equilibrado é direto e comum entre as pessoas que vivem no Parque Estadual Chandless.

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Escola Municipal Willian Chandless, onde o conhecimento se funde com a sabedoria dos povos tradicionais

E é esse o maior tesouro que a Expedição Chandless trouxe de dentro do coração do indomável verde. Nada menos que um exemplo. Bom e simples, mas tão necessário em tempos de aquecimento global. Quando a humanidade com olhar perdido procura uma resposta, reservas de proteção integral como esta dão o norte. 

O Parque Estadual Chandless é uma experiência acreana que acende mais um facho de esperança no planeta. Se propõe a dar sua parcela de contribuição para minimizar os efeitos do consumo e crescimento despreocupados. E aponta para o futuro sustentável da Terra.