Comportamento organizacional: importância e prática no contexto da gestão pública

Por Catarina Valente de Freitas*

Chiavenato e Hobbins (2002) corroboram na linha de entendimento sobre comportamento organizacional – “campo de estudos que investiga o impacto que indivíduos, grupos e estrutura têm sobre o comportamento humano dentro das organizações, com o propósito de utilizar esse conhecimento para promover a melhoria da eficácia organizacional”.

Quando estudamos comportamento nos deparamos com o fato de que vivemos, desde sempre, interpretando ou tentando interpretar as outras pessoas, baseando-nos em suas ações. Podemos até negar, mas a verdade é que tentamos decifrar as pessoas a nossa volta e não raras vezes nos equivocamos escandalosamente, porque essa análise finda levando a erros, razão pela qual a temática comportamento me fascina e o comportamento dentro do contexto organizacional mais ainda.

Historicamente, como disciplina acadêmica, essa área de estudo surge por volta de 1980, nas escolas de administração, e se relaciona com várias ciências comportamentais como: ciências políticas, antropologia, psicologia e sociologia, entre outras, dada a importância de se perceber o ser humano em seu contexto pleno e não se incorrer no erro de criar certos padrões de comportamento, quando cada um tem uma história.

Hobbins (2022) nos traz as variáveis, estudadas por outros autores, que influenciam no comportamento organizacional, sendo as mais relevantes: Produtividade – ligada à ideia de eficácia e eficiência; Absenteísmo – não comparecimento ao trabalho, causando grande ônus e dores de cabeça aos gestores, já que interrompe fluxos de trabalho e geralmente decisões importantes são postergadas; Rotatividade – saída permanente de forma voluntária ou involuntária, acarretando em custos com formação e recomposição de equipes, dentre outros; Desvios de comportamento no ambiente de trabalho – aqui se trata de atitudes, condutas contrárias às normativas dos órgãos ou posturas inadequadas, que interferem no ambiente de trabalho, como por exemplo ouvir música em volume alto, uso excessivo do celular, vestes inapropriadas para o ambiente corporativo, agressividade, etc.; Cidadania organizacional – refere-se à postura de bom cidadão dentro do ambiente organizacional, não sendo uma exigência mas um “up” que as pessoas têm e as leva a ajudar os demais; por fim e não menos importante está a Satisfação no trabalho – esta variável é mais uma atitude que um comportamento.

É importante que cada gestor tenha o mínimo de conhecimento da área de comportamento para não correr o risco de perder excelentes profissionais por questões que, conversadas, podem ser esclarecidas e resolvidas. Quando entendemos o porquê de determinado comportamento, passamos a não exigir do outro, no ambiente organizacional, aquilo que ele não tem condições (técnicas ou emocionais) de oferecer ao órgão, uma vez que, conforme ensina o mestre Chiavenato, o comportamento não vem das organizações, vem das pessoas que a compõem.

Interessante como na Grécia Antiga, por volta de 3.000 a 2.000 a.C, já se tentava decifrar o comportamento humano com as tecnologias de que se dispunha à época, associando o comportamento a elementos da natureza (fogo, terra, água e ar) e vários cientistas posteriormente abordaram e continuam a estudar essa área tão extraordinária, que revela muito sobre quem somos e porque agimos da forma que agimos.

Ao ingressar no serviço público, passamos a compor equipes de trabalho e essas equipes têm um norte: a estrutura organizacional vigente em cada órgão, sua missão, visão e valores, e é necessário que, como profissionais, nos adequemos a isso para somar esforços rumo ao cumprimento da razão de ser de cada órgão. Só que o indivíduo, as equipes, a organização e o ambiente do entorno precisam dialogar, e ter uma visão sistêmica é fundamental nesse processo.

É necessário que entendamos o todo (sistema) para nos sentirmos participantes das equipes e melhorarmos nosso comportamento, marcado por características individuais e muitas vezes divergentes do restante das pessoas que trabalham conosco. Penso que quando conseguirmos ter essa cidadania organizacional e satisfação no trabalho produziremos mais, seremos mais felizes e contribuiremos para que a missão do órgão no qual estamos inseridos se cumpra e assim, a cada dia, possibilitaremos que os menos favorecidos, beneficiários das políticas públicas que ofertamos, sejam de alguma forma tocados, inseridos e valorizados.

Cada pessoa é única e, ao estar inserida em uma equipe, tem um comportamento singular, porque vê o mundo de forma diferente e as equipes de trabalho precisam operar levando essas diferenças em consideração. Você conhece a estrutura do órgão no qual trabalha? Sabe sua missão, visão, valores? O que nos fará ter essa cidadania organizacional é a massificação desses itens, afinal de contas, como me sentirei parte se os desconheço? Comportamento organizacional tem muito a ver com cultura.

Enfim, como o comportamento é algo inerente ao ser humano, tomo o ensino de William Shakespeare, para quem sabe despertá-lo, em O Menestrel, quando diz: “Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.”

*Catarina Valente de Freitas é gestora de políticas públicas, analista comportamental DISC