BNDES III: Indústrias para um novo tempo

João Francisco Salomão, presidente da Federação das Indústrias do Acre, diz que Estado terá crescimento mais acelerado que nos últimos anos 

joao_salomao__2.jpgO presidente da Federação das Indústrias do Acre (Fieac), João Francisco Salomão, é um dos que acreditam que esse é momento propício para consolidar o desenvolvimento do Acre. O volume de recursos que chegam e que são aguardados para o ano de 2008 desencadeia uma série de ações de instituições públicas, privadas e da sociedade civil em busca dos objetivos de colocar o Estado num patamar de efetivo e constante crescimento.

A indústria acreana não pára de crescer durante cinco anos consecutivos. É um crescimento em cima de uma base modesta, é verdade. E também com agregação de baixa tecnologia. Mas, o contexto tem apontado para um horizonte de mudanças. Capacitação tanto de trabalhadores, quanto de empresários, investimentos do setor na economia e parceria com o Governo do Estado são medidas práticas que são tomadas para aquecer a indústria.

O setor trabalha na elaboração do desenho de desenvolvimento econômico e social pretendidos pelo Governo do Estado e que acompanham a meta de promover o acesso à renda, trabalho, educação, saúde e melhoria na qualidade de vida da população.

O contrato firmado entre o Governo do Estado e BNDES para a fase três do Programa Integrado de Desenvolvimento Sustentável (PIDS III) vai gerar grande movimentação na indústria pela demanda de produtos e serviços. Como o setor se prepara para receber o volume de obras previstas para serem realizadas no Acre?

A indústria acreana está se preparando de diversas maneiras. Sem dúvida uma delas é para participar da execução dos serviços que estão previstos nestes recursos. O Estado nunca passou por um momento tão propício para o desenvolvimento como agora. Não só dos recursos do BNDES, mas também do PAC, de emendas parlamentares, de habitação da Caixa Econômica. Então, temos uma série de oportundidades. 

Como os empreendedores lidam com a questão da mão-de-obra para este novo momento do Estado? É preciso investir mais na formação do trabalhador que se quer admitir? 

Está em execução, uma escola, na verdade é uma unidade onde a gente vai poder fazer um treinamento de pessoas na área da construção civil: pedreiro, carpinteiro, mestre de obras, pintor, enfim, essas atividades que a construção civil demanda. Isto é um convênio firmado entre o Senai, que está entrando com a instalação, com a espertize que tem na formação desse pessoal e Governo do Estado está bancando o custo operacional para capacitação dessas pessoas. O Estado fez uma exigência e que a gente acha justa, de dar oportunidade para as pessoas que estão mais afastadas do mercado de trabalho, porque não têm formação alguma, para que tenham acesso ao trabalho que será gerado com esses recursos. 

É possível capacitar esse profissional em tão pouco tempo?

Com certeza, porque temos curso de curta duração, são mais práticos e o Senai tem uma espertize muito grande. Só é preciso aplicar a parte prática. Já temos esse material e isto não depende de estar pronta ou não a nossa unidade. 

É possível que empresários da região norte ou até de outras regiões se interessem em se instalar no Acre? O empresário acreano está preparado para a concorrência?

Veja bem. Todos esses recursos viabilizaram que a iniciativa privada também entrasse com projetos que potencializem esses empreendimentos. É claro que quando se tem recursos desse montante do Governo, da iniciativa privada em torno de R$ 200 milhões, já vai gerar outros negócios. O que a gente busca é realmente a qualificação, tanto para o pessoal com o Senai, quanto para os empresários através do IEL com cursos de formação na área de gestão e gerência. A federação entrou com bastante arrojo, com muito apoio, buscando recursos e passando a bancar parte da capacitação, por exemplo, com o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade no Habitat (PBQPH). Hoje 70 empresas estão qualificadas com nível do PBQPH, que é exigido para licitações do Estado hoje. Então a maneira de concorrer é em cima da qualidade e da produtividade. É claro que as empresas instaladas aqui conhecem toda a questão de mercado e as empresas acreanas têm vantagem sobre as empresas de fora. 

As empresas acreanas estão aptas a trabalhar com este volume de obras previstas?

Sim, tanto a gente demonstra isso aí, que a maioria das obras realizadas nos mandatos do governador Jorge Viana e agora com o governador Binho Marques foram executadas por empresas acreanas. Com exceção das BRs todas as outras obras grandes como o estádio, Parque da Maternidade,  pontes foram feitas por empresas nossas. Neste período nossas empresas se capacitaram e estão aptas a assumir todas as obras que estão sendo licitadas. 

O senhor pode citar exemplos de novos negócios que podem surgir ou crescer?

Na área de uniformes para construção, por exemplo. Hoje nós temos em torno de 4 mil operários, segundo pesquisa da Fieac, trabalhando na construção civil. A hora que estiver com essas obras todas em andamento com estes recursos aplicados a previsão é a gente chegar em torno de 9 a 10 mil trabalhadores. Só de uniforme você vai gerar oportunidade para empresas entrar nesse ramo. O sistema tem essa preocupação e já tem montada uma escola na parte de confecções que vai dar treinamento para que pequenas empresas possam montar negócios nessa área. Tem também a área de refeições que podem gerar uma série de negócios tanto para empresas quanto para pessoas físicas que desejam investir e participar desse momento econômico que está passando o Estado tanto com investimentos privados, quanto do Estado. Além de prestação de serviços exigidos por essa demanda. 

A construção civil é o setor que mais vai avançar na economia do Acre em 2008?

Sem dúvida. O setor da construção civil é um setor que tem uma resposta rápida, que gera muita mão de obra, principalmente mão de obra com baixa qualificação, isso tem um reflexo imediato  na sociedade porque mais pessoas passam a ter renda e essa renda vai circular dentro do próprio estado. Sem contar com toda a cadeia da construção civil que é alimentada, como madeira, móveis, arte e cerâmica, parte de minerais como a areia, o comércio em geral, especialmente o setor de material de construção. Quando se tem todo esse movimento tem dinheiro circulando em todos os sentidos. 

Como o senhor avalia o sentimento dos empresários acreanos quanto ao financiamento aprovado pelo BNDES para o Governo do Acre? O empresariado acreano ainda é muito tímido para novos investimentos?

Não o acreano, mas o empresariado em geral é muito desconfiado. Têm aqueles mais atirados, outros não. Mas eu acho que hoje a grande maioria já entendeu. Temos discutido isso e quem não entendeu vai perder uma grande oportunidade, porque isto é uma realidade, tanto que as licitações já estão acontecendo. O contrato com o BNDES foi assinado, a Álcool Verde é uma realidade. Todo este investimento privado está aí. As obras da estrada foram licitadas, estão em execução, com o início do verão deve ter andamento acelerado. Isto vai promover a integração do Estado, também do ponto de vista econômico. Contando também com um investimento que, este ano, foi bem maior na agricultura. A gente tem conversado com o governador, que irá priorizar e buscar no governo dele, a auto-suficiência de grãos. Então, a gente tem certeza que o nosso Estado vai ter um crescimento acelerado, muito maior do que ocorreu nos últimos anos. 

A indústria acreana vem apresentando nos últimos anos índices positivos, mas ainda é considerada incipiente. Quais os próximos passos a serem dados para ampliar e fortalecer o setor no Estado?

Só vai ser possível a gente concretizar, estabilizar e se separar da dependência do Estado, do salário, se a gente conseguir aproveitar este momento e conseguir implantar a indústria em si. A indústria de transformação que consegue agregar valores, gerar emprego e renda e tornar o Estado mais forte. O novo distrito industrial é uma realidade. Temos ali hoje mais de 500 empregos diretos. A questão da madeira, que a cada ano se fortalece com o manejo. Mas o empresário brasileiro tem um grande impedimento do crescimento que é a carga tributária pesada e complicada. Isso é realmente um empecilho. Outra coisa que impede é o crédito. O Governo do Estado está empenhado para que o empresário acreano tenha acesso ao crédito para modernizar e ampliar seus negócios para que possa participar do volume de obras que estão vindo. Com a energia da Hidrelétrica do Madeira, o Acre terá uma energia segura e barata. Isto vai ser um atrativo muito grande. Vai ter a saída do Pacífico, a energia barata, toda essa estrutura que o Estado está fazendo. Com certeza o Acre vai ter um avanço na questão da industrialização. Estamos buscando algo que dê sustentabilidade para a nossa economia. Claro que o estado não pode produzir tudo, mas tem que produzir pelo menos o que consome. 

O governador Binho Marques se compromete a tornar o Acre o melhor lugar para se viver na Amazônia até 2010. O senhor acredita que esta seja uma meta possível de alcançar? 

Sem demagogia, acho realmente que esta meta é possível. O Estado do Acre é pequeno, pequeno em população, com menos de 1 milhão de habitantes. Vem uma série razoável de recursos para as prefeituras, Estado, instituições. O Acre tem uma vocação muito grande para a pecuária, sendo um dos melhores produtos do país. Tem a madeira, um produto nobre que dá para agregar muitos valores. Então, com uma população pequena, com um governo competente, com pessoas que queiram que o Acre seja o melhor estado para se viver é possível atingir esta meta. Rio Branco já melhorou muito, que dá orgulho para receber os visitantes. Se todos nós apoiarmos o Governo nesta idéia, vamos fazer do Acre o melhor lugar para se viver. Essa é uma ação de cada um de nós.