Apaguem as velinhas!

O relógio marcava exatas 16h do dia 19 de agosto de 2019. O Brasil parou para prestar atenção aos telejornais que noticiavam um fato inédito – e assustador: o céu da maior metrópole da América Latina, São Paulo, ficava totalmente escuro antes da hora habitual. Obviamente, o mundo todo ficou chocado, afinal, isso aconteceu na maior capital do país. Em meio a tanta poluição e tantas queimadas, quem poderia imaginar que um dia a humanidade presenciaria algo parecido, não é? Qualquer pessoa, talvez.

Como de praxe, as notícias ruins costumam chocar as pessoas ao serem veiculadas pela primeira vez. No entanto, quando ocorrem sucessivas vezes, não produzem a mesma sensação de assombro, e isso vai acontecendo até que, em determinado momento, não choca mais ninguém. Todos já estão acostumados, apáticos, anestesiados. Assim sucedeu.

Estamos em 2020, um ano totalmente diferente dos anteriores. É obvio que tragédias acontecem todos os anos, mas neste tivemos uma doença, até então sem solução farmacêutica , que interrompeu, até o momento, a vida de mais de cem mil brasileiros. No entanto, há algo que está presente em todos os anos e que, assim como a Covid, impede o processo de respiração: as queimadas e a sucessiva destruição do maior patrimônio da humanidade – ou que deveria ser considerado como tal –, a Amazônia.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram identificados cerca de oito mil focos de incêndio apenas no mês de agosto, o que configura a maior média em 22 anos. Somente de julho de 2019 a agosto de 2020, o aumento das queimadas correspondeu a 43,5% a mais que os números registrados no período de 2018 a 2019. O mais irônico de tudo isso é que, no dia 5 de setembro, data alocada justamente na “temporada das queimadas”, é comemorado o Dia da Amazônia. Mas que tipo de aniversário é esse que, em vez de alegria, só nos trouxe sofrimento?

A situação se intensificou de tal forma que o exercício da respiração, a princípio tão simples, tornou-se um processo cansativo, exaustivo e perigoso à saúde humana. A taxa de poluição respirável pela população, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é de 25 ug/m³ (micrograma por metro cúbico). Em contrapartida, na madrugada do dia 27 de agosto, foi registrada em Rio Branco – AC, por meio de sensor que mede a qualidade do ar, uma taxa de 386,11 ug/m³ de poluição respirável, quase 16 vezes a mais que o normal. Como se não bastasse uma pandemia ocasionada por um vírus que afeta o sistema respiratório, ainda se tem a intensificação de uma epidemia sazonal causada única e exclusivamente pela ganância do homem.

Neste ano, o aniversariante também recebeu um convidado especial para a festa flamejante: o Pantanal, que, de planície alagável, está se tornando um amontoado de cinzas. Agora não somente os humanos sofrem com a poluição do ar e com a onda excessiva de calor. Os animais também são “agraciados” com o presente de grego. Muitos, com risco de extinção, como a jaguatirica, estão correndo perigo com a invasão do fogo em seus habitats – quando não morrem em decorrência das queimaduras. Agora, o único líquido que alaga essas terras são as lágrimas dos animais silvestres que ainda lutam por sobrevivência.

Seria hipocrisia dizer e enfatizar com todas as letras que a Amazônia é um patrimônio da humanidade? Afinal, quem ama cuida ou não? Infelizmente, o destino das pessoas que convivem e que são afetadas, sazonalmente, com essas crises – e crimes – ambientais, é esperar que os resíduos das queimadas cheguem à atmosfera paulista e escureçam a metrópole novamente. Talvez,  gerem algum efeito para além de hashtags. Enquanto isso não acontece por lá, continuamos aqui em uma imersão de fumaça altamente prejudicial à saúde, saindo das árvores que não nasceram para fazer o papel de uma vela. Nessa festa, não há o que se comemorar, apenas esperar que alguém venha e apague as velinhas que ardem em chamas e que clamam por socorro – e, mais que isso, que não as acendam mais.

Renato Menezes é estudante de jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac) e estagiário de comunicação na Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp)