A diferença entre lacração e responsabilidade social

Dia desses eu vi uma cena que me deixou bastante intrigado. Umas 30 pessoas, todas brancas, em um suntuoso apartamento de cobertura, tirando uma descontraída foto, tendo ao fundo um bonito quadro pintado por um renomado artista. No retrato em aquarela, estava uma negra centralizada numa favela. Eu conheço algumas dessas pessoas e posso garantir que elas não gostam nem um pouco das minorias, termo que caracteriza indivíduos que sofrem algum tipo de preconceito ou restrição por serem o que são, como negros, índios, lgbts etc.

Arrisco até a dizer que apostaria dinheiro como muitos deles, que já saíram de lugares por “não serem bem frequentados”, pois havia pessoas cujas características não os agradam. Em suma, como posso dizer, eles(as) possuem um verdadeiro nojo desse grupo, um preconceito velado e estúpido, mas nas redes sociais e até na vida real lacram horrores para demonstrar para a sociedade o quanto são conscientes e têm empatia pelo próximo.

Pior do que essas pessoas, para mim, só as que lucram com a tal da lacração, que seria uma espécie de simulação de virtudes, feita apenas para serem aceitas em determinados grupos, ficarem bem com suas consciências ou até mesmo ganharem dinheiro. Tudo menos se preocupar realmente com os oprimidos, tentar realmente fazer a diferença. São também aquelas pessoas que “cagam regra” por onde passam, mas no fundo não cumprem nada do que dizem.

A pandemia mostrou esse cenário de uma maneira clara, principalmente com os artistas que falavam “fiquem em casa”, mas eles mesmo protagonizavam grandes aglomerações, saíam na rua sem máscara etc. Esse tipo de gente deve ser combatida, cancelada mesmo, por qualquer um dos polos ou ideologias políticas, pois são um desserviço ambulante, um dos muitos efeitos do mundo moderno, baseado na realidade fictícia das redes sociais. Se atualmente mais vale parecer do que ser, o terreno está fértil para a proliferação dos lacradores, os egoístas supremos que só pensam em si e dão mau exemplo, atrapalhando pessoas que realmente lutam por um mundo melhor e mais justo.

Eu poderia escrever um livro só com exemplos reais e dignificantes de responsabilidade social, mas vou me ater a apenas um, referente ao clube para que torço, o Vasco da Gama. Nos anos 20, era a única agremiação do Rio de Janeiro que permitia a entrada de negros e operários no time de futebol, fato que causou a exclusão da equipe da divisão principal do campeonato carioca. Sem se deixar abalar, jogou e venceu a divisão inferior, para no ano seguinte vencer o Cariocão com um time mestiço, fato que praticamente obrigou os outros times a fazerem o mesmo.

Toda a história do Clube da Colina é pontuada por inclusão social, lutas e igualdade, criando um laço tão forte entre os torcedores que fez com que o São Januário fosse o maior estádio da América Latina até os anos 50, sendo construído, tijolo por tijolo, pela própria torcida. Os mesmos operários, negros, mestiços, brancos, ricos, pobres etc que pleitearam por jogar o campeonato com seus atletas foram os que arrecadaram para pôr de pé um dos estádios mais bonitos e charmosos do mundo. Que esse e outros exemplos sejam seguidos e multiplicados por pessoas conscientes, disputas a ajudar, e a lacração, formada por idiotas hedonistas, seja combatida fortemente por todos nós.

Mauro Tavernard é assessor de comunicação da Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict)