Todas elas: uma história do feminicídio no Acre

Tudo acontece de véspera: hoje é sempre depois de ontem e antes de amanhã, do dia que nunca existiu. Quatro mulheres por dia foram vítimas de feminicídio no primeiro semestre de 2021 no Brasil. Por qual motivo? Por serem mulheres, simplesmente. São assassinadas por homens conhecidos: a maioria são seus próprios companheiros, que, enciumados, não aceitam a separação e ultrapassam o extremo na vida. Os motivos, no final, se resumem a duas palavras: torpe e fútil. Alguém explica essas palavras?

Até recentemente, a legítima defesa da honra de um homem justificava o assassinato de uma mulher. Por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF), esse tipo de argumento foi apagado do vocabulário jurídico brasileiro, livrando a mulher da sua própria “culpa”. Seria ela tão desprovida de boa reputação a ponto de causar a desonra de um homem? Ao que parece, a honra de um homem depende mais das virtudes de uma mulher do que das próprias qualidades. Repito: não existe mais “defesa da honra” para as razões de um assassino.

A palavra é a força viva da expressão humana. Sem a palavra haveria representação real das coisas que conhecemos? É com a palavra que as coisas passam a existir? O que significa esse sistema de símbolos em que a palavra dos homens difere da das mulheres? Até quando a sociedade suportará o peso penumbroso da palavra fe-mi-ni-cí-dio? Você sabe o que significa a fundo essa palavra-força-viva-da-expressão-humana que fere e mata? Feminicídio não é fatalidade, é caso pensado na cabeça de quem odeia e mata.

Dizem que a violência contra as mulheres vem de antes da formação da propriedade privada e da sociedade de classe; dizem também que o corpo da mulher foi dessacralizado e colonizado: sistematicamente explorado, humilhado, machucado e banido; falam ainda que a história de uma revela a vida da outra, numa costura de anos a fio – de avó para mãe, de mãe para filha, de filha para neta: violência cíclica dentro de casa, mas não só em casa. O que acontece escondido, como se fosse rotina de vida íntima do casal, acontece em qualquer lugar, porque o feminicídio é o fim da linha para uma mulher, está escrito nos mortuários.

Digo essas coisas com delicado espanto, porque é assombroso demais falar desse tipo de morte sem ter morrido um pouco, pensando fundo na existência do fenômeno para além das palavras dizíveis. Eliminar do tribunal conceitos compensatórios é como tirar a pedra que obstrui o rio, sem, no entanto, libertar de vez as águas para fluírem. Mas já é um grande salto evolutivo.

Os horrores dos ataques e o golpe fatal na garganta da mãe enchem para todo o sempre os olhos dos filhos com lágrimas tristes de adeus. Aceitar o inominável? Eis que me cubro de ignorância para penetrar na irracionalidade dos números, que não dizem nada, mas falam tudo. O estudo dos 37 feminicídios ocorridos no estado, de 2018 a 2020, feito pelo Ministério Público do Acre (MPAC), informa que a maioria das vítimas vivia em situação de pobreza. Morreram tragicamente porque eram pobres? Provavelmente quem matou era lazarento demais de espírito para conhecer a opulência que é a vida (vida mesmo) de uma mulher e um homem juntos. Não importa a classe, toda mulher corre perigo.

Não é difícil enumerar com palavras a condição das vítimas desse tipo de crime: pretas, pobres, jovens, mães, quase analfabetas e “do lar”. Todavia, não se trata de condição ou circunstâncias, naturalmente, mas de uma sólida realidade que precisa mudar. Ou não? Desse tipo de morte, a mulher morre de véspera, vejamos: quase 90% dos homens já haviam praticado violência doméstica e familiar; 70% das mulheres foram assassinadas em casa por seus companheiros ou ex-companheiros, nos fins de semana, nas entranhas da noite, por motivos torpes e/ou fúteis, provavelmente na cama. Mais de 60% das mulheres eram mães e mais de 60% sofreram inúmeras perfurações de faca ou facão nos seios, pescoço e na face.

Você tem noção da força bruta da violência para “conter” uma mulher que grita para ser livre? Se libertar de quê, dos homens? Não, do machismo louco do patriarcado que violenta as mulheres. O que você poderia fazer agora para mudar tudo isso, nem que seja mudar o próprio pensamento? Mudar é incômodo, todo mundo sabe, mas precisamos nos incomodar. O que se torna real, senão aquilo que é possível? Mas não pense em coisa mirabolante, vai parecer difícil demais, inatingível demais. Também não responda antes de se indagar com a grande pergunta: quem sou eu? Agora é sempre a hora, o que se faz hoje é o único jeito de começar o amanhã. Precisamos de novas palavras para contar outras histórias de vida de uma mulher, que não é apenas uma, mas todas elas.

Se você é vítima de violência doméstica e familiar, procure ajuda. Você não está só.

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Antonia Tavares é economista e autora do livro “Loucas e bruxas, bruxas e loucas: contos e poeminhas”, editora 3 Serpentes