Rotina diária e invisibilização das pessoas

A crescente busca das soluções das nossas tarefas diárias nos fazem querer otimizar o tempo de todas as missões obrigatórias, como acordar no horário, pagar contas, atendimentos presenciais, cumprimento de horários no trabalho e em outros compromissos corriqueiros, sejam médicos, pessoais e até mesmo de cuidado com o corpo. Isso deveria caber em 24 horas, correto?

Caso o indivíduo não tenha o costume de desobedecer regras, ou não cumprir suas missões de maneira plena, ele fará de tudo pra que tudo se encaixe da maneira mais justa possível, como acordar uns minutos mais cedo (e isso já começa a ser planejado com a cabeça no travesseiro, um dia antes), sair de casa mais cedo, tomar atalhos mais fluidos, caso dirija, enfim, ser ágil da melhor maneira.

No meu caso, um repórter fotográfico que deveria registrar as mais diversas situações do cotidiano, acabo pulando alguns momentos riquíssimos da atividade de outros seres humanos, pois estou andando com os olhos no relógio em vez de tê-los voltados à objetiva da câmera. 

Assim, todos os profissionais, cada um em sua particularidade, fazem o mesmo graças à sua organização mental em cumprir essas metas de acordo com o figurino, e acabam deixando de observar a peculiaridade de outros indivíduos. A felicidade com que trabalha um coletor de lixo, uma pessoa esperando na fila do banco com seu olhar expressivo, reflexivo, talvez também fazendo seus cálculos mentais sobre a quantia de dinheiro na conta, as diversas pessoas conversando no interior de um coletivo, aquela pessoa sentada à beira de uma calçada que talvez precise de um bom dia, ou até mesmo um elogio despretensioso, que pode dar rumo ao seu humor no restante daquela tarde.

À medida que as pessoas se tornam mais ocupadas, bem-sucedidas, tendem (o que não é uma regra) a pensar na resolução dos seus problemas particulares. Eu bem que poderia fotografar mais pessoas na rua nas mais diversas situações, com minha câmera, ou na memória. Me comunicar mais, e saber ao menos uma fração da vida de um desconhecido ao longo do caminho. 

Creio que essa prática nos tornaria mais resilientes diante de nossos algozes cotidianos (o problema de outra pessoa pode ser bem pior que o seu), mais empáticos. Afinal de contas, o ser humano se torna um outro completamente novo quando conversa com alguém, posto que novas informações trazidas por alguma fonte nos transforma em um novo ser, e automaticamente deixamos de ser aquela pessoa de minutos atrás. 

Que nos tornemos mais conectados “ao vivo”, ao longo da execução, sem deixarmos de ser responsáveis com nossas tarefas.

Diego Gurgel é repórter fotográfico da Secretaria de Estado de Comunicação.