O cancelamento

​Por Milton Chamarelli*

Fevereiro de 2021 trouxe consigo uma palavra, um conceito, por meio de uma gíria usada no BBB21: o cancelamento”. Com o sentido de “eliminação” e até de “esquecimento”, a palavra ganhou destaque entre os participantes do reality show.

Cancela-se alguma coisa, não uma pessoa, assim posso cancelar a matrícula, um encontro, uma festa. Como não sou um purista do idioma, admito que os usos que se fazem da linguagem são diversos e por isso é que ela muda; o sentido muda, e é bom tomar conhecimento desse fato porque uma língua nunca fica engessada nos seus níveis, sobretudo no campo semântico, o mais conflitual e onde incide a ideologia.

Nenhuma palavra nasce ex nihilo (“a partir do nada”) que como se escrevia em latim. Em meio à guerra política nas redes sociais, ao acirramento do ódio que é proporcionado em parte pelo anonimato e, antes mesmo disso, pelos algoritmos que nos fazem gostar do gostado e odiar o odiado, creio até que “cancelar”, na acepção de “eliminar alguém” tenha chegado tarde.

O cancelamento, como um fenômeno atual, é uma espécie de julgamento que encontrou nas redes sociais sua forma de expressão pelo acerto e erro, que faz delas o lugar onde se recebe a coroa de louros ou de onde se pode ser banido. Seu corolário moral é o de se assumir uma posição instantânea diante de fatos que logo ganham os holofotes pelos critérios de noticiabilidade. Por esse movimento, tão largamente entranhado na cultura humana, que é o de se arbitrar sobre a conduta alheia, e tão estritamente ligado, hodiernamente, a uma cibercultura, com o perdão da palavra, é que podemos encontrá-lo como que regido pela lógica dualista dos bits. Zero ou um. Eis o comando: bom ou mau. O fato é que estamos, mais do que nunca, sentenciando ações, fatos e comportamentos, a ponto de alguns perguntarem se estamos num mundo de especialistas ou de julgadores que estão 24 horas opinando sobre tudo, mas sempre com a mesma lógica dual.

Sim, a legitimidade da qual se revestiu uma palavra qualquer nas redes deu a ela um poder até então inalcançável. Sim, estamos no dever de apontar para o que está errado, mas, e se não estivermos, o que faremos com os donos da Escola Base, agora, 26 anos depois que perderam tudo, após tantas denúncias infundadas?    

O cancelamento da pessoa é uma consequência de um comportamento considerado errado, ou de algo que foi dito; daí a importância da linguagem, porque existimos nela e por ela como seres de discurso. Falar é um ato político, e fazer escolhas nos coloca em posição a partir de uma dada conjuntura ou num contexto no qual os valores semânticos e ideológicos estão estabelecidos.    

Ninguém gosta de ser cancelado porque o afeto que nos aproxima é a nossa forma de estar no mundo. Viver em sociedade é uma sensação de pertencimento da qual muitos se sentem apartados logo no início das suas vidas. Embora não vivamos como numa sociedade de castas, como na Índia, os extratos aqui se misturam, e o preconceito, longe de ser por vezes tão explícito, é estrutural.  

Como prática cultural, a linguagem do cancelamento faz calar, mas, tão ou mais perigoso do que fazer calar é o silenciar: o silenciamento que nos faz acreditar que toda fala é uma fala “válida”.

As redes sociais vieram para legitimar as falas que antes estavam restritas às instâncias sociais dos meios de comunicação de massa. Com as redes, apesar do seu caráter supostamente democrático, deu-se voz à imbecilidade dos discursos que estavam soterrados pelo humanismo. Quando se achou que se estava chegando a algum ponto de convergência, de socialização de saberes e práticas, o gérmen do discurso fascista, maniqueísta, irrompeu como um vírus que estava adormecido na neve.

Antes dos e junto aos silenciamentos, há os sujeitos que muitas vezes se deixam vestir pelas vozes que se reproduzem e que se deixam levar por uma lógica a qual pouco consegue se distinguir, por estar tão presa à pele do ser-discurso: a ideologia.        

Toda força que antes era impelida pelo controle das forças sociais agora se vê dissimulada na linguagem, nos discursos, artifício do poder que nos faz acreditar que à margem é o local mesmo onde deveríamos estar. Esse cancelamento silencioso é o pior de todos porque salta da dimensão institucional para a subjetiva, interpessoal. Cala-se pela fala de outras vozes, que se tornam minhas e que ratificam a minha mudez.    

Por isso também Bakhtin afirmava que a palavra é o lugar onde se trava a luta ideológica. Há muitos “cancelamentos” antes desse, que nos parece agora tão visível. É necessário desconstruir discursos, desmontá-los, perceber toda a ardilosidade dos não ditos, dos esquecimentos, daquilo muitas vezes está entranhado na própria língua-discurso. Como dizia Roland Barthes: “a língua, como performance de toda a linguagem, não é nem reacionária, nem progressista: ela é, simplesmente: fascista; o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”. Ela não cala, “nos obriga a dizer”, e aí está a sua pior forma de cancelamento.

*Milton Chamarelli Filho é professor titular da Universidade Federal do Acre (Ufac) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo