Mulheres na construção civil ajudam a escrever a história do Acre

“O mais difícil é ser mãe e dona de casa”, Nete, servente de pedreiro (Foto: Sérgio Vale/Secom)
“O mais difícil é ser mãe e dona de casa”, Nete, servente de pedreiro (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Quem é ela? Benedita do Carmo Bezerra, 26 anos, que prefere ser chamada de Nete. Função? Servente de pedreiro. Vencendo todos os preconceitos, inclusive o receio inicial do patrão, que temia contratá-la, hoje ela se destaca no canteiro de obras onde trabalha na Cidade do Povo.

Nete conta que, quando foi procurar emprego, o chefe pediu para ver suas mãos. “Ele queria ver se tinha calo”, sorri. Em seu currículo traz experiências significativas. “Trabalhei na construção da Rodoviária de Rio Branco e nas primeiras residências da Cidade do Povo, onde moro atualmente. Inclusive a casa que ganhei foi construída pela empresa onde eu trabalhava”, conta.

Os colegas de trabalho são só elogios. “Ela é porreta, muito boa de serviço, não tem frescura, trabalha mesmo e faz as mesmas tarefas que a gente”, diz Francisco Lourival Melo.

Quando faz a massa de cimento, desempenha com maestria seu trabalho. De longe, parece que a enxada é leve em suas mãos, mas o serviço é árduo e cansativo. Se lhe perguntarem, entretanto, qual o maior desafio da profissão, a resposta é surpreendente. “O mais difícil é quando acaba o expediente e volto para o lar. Lá sou mãe e dona de casa”, diz, pensativa.

A curiosidade de Catiane a fez descobrir uma nova função (Foto: Sérgio Vale/Secom)
A curiosidade de Catiane a fez descobrir uma nova função (Foto: Sérgio Vale/Secom)

A reflexão é compartilhada pela auxiliar de eletricista Catiane Nery, 35, que também trabalha na Cidade do Povo: “O homem quando chega em casa vai descansar, a gente tem que cuidar da casa e dos filhos”. Catiane entrou na empresa como auxiliar de serviços gerais. “Ela é muito curiosa e interessada no trabalho. Aprendeu muito rápido”, atesta seu chefe, Manoel Lima. Hoje é auxiliar de eletricista e monta postes de luz. “Estou muito feliz, agora tenho uma profissão”, afirma.

Além de Nete e Catiane também Leontina de Moura, a “Leo”, 20 anos, trabalha na mesma obra. Ela estuda arquitetura e há quase um ano atua como pintora. Fez um curso de edificações no Senai e desde então não faltou emprego. “Gosto muito de pintar e mais ainda deste ambiente. Acho que quando me formar não vou estranhar quando encarar um canteiro de obras”, avalia.

Leo sonha em ser arquiteta, enquanto isso exerce sua função de pintora na Cidade do Povo (Foto: Sérgio Vale/Secom)
Leo sonha em ser arquiteta, enquanto isso exerce sua função de pintora na Cidade do Povo (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Nete, Leo e Catiane representam uma nova geração de mulheres que ocupam sem medo nem pudor espaços antes dominados por homens. Elas afirmam que, entre os colegas não existe discriminação, nem diferenças, mas também o cavalheirismo “passa longe”. “Ah, se tiver que carregar peso tem que carregar, aqui somos todos iguais”, a frase é de Lourival, companheiro de trabalho de Nete.

As três trabalhadoras compõem as equipes que constroem a Cidade do Povo, o maior empreendimento habitacional do Acre. Um bairro com 100% de cobertura de esgotamento sanitário, que oferece cidadania e dignidade para milhares de famílias. Elas ajudam a escrever a história do Acre.