Mulheres consolidam protagonismo na Polícia Militar do Acre

A história da participação feminina na segurança pública é marcada por coragem, resistência e conquistas progressivas. Se hoje a presença de mulheres nas fileiras da Polícia Militar do Acre (PMAC) está cada vez mais consolidada, houve um tempo em que vestir a farda era um território quase exclusivamente masculino.

Atualmente, a Polícia Militar do Acre conta com a força de trabalho de 302 mulheres. Foto: Diego Gurgel/Secom

Neste Mês da Mulher, as trajetórias de policiais como a coronel Margarete de Oliveira, a soldado Jucyellen Lima do Nascimento e a aspirante Lourdes Sampaio ajudam a mostrar como a atuação feminina vem transformando a corporação ao longo de quase quatro décadas.

Para a vice-governadora do Acre, Mailza Assis, ampliar a presença feminina nas forças de segurança fortalece as instituições e aproxima a polícia da sociedade. “Ampliar a presença feminina na segurança pública é fundamental para tornar as instituições mais fortes, humanas e representativas da sociedade. As mulheres trazem sensibilidade, capacidade de diálogo e uma visão estratégica que contribui para a prevenção da violência e para o fortalecimento da confiança entre a população e as forças de segurança”, destaca.

A vice-governadora parabeniza as mulheres que dedicam seu esforço laboral à proteção da sociedade. Foto: Neto Lucena/Secom

A vice-governadora também deixa uma mensagem às mulheres que desejam seguir carreira na área. “Vocês têm competência, preparo e determinação para ocupar esses e outros espaços que desejarem. A presença feminina nas forças de segurança é um avanço para toda a sociedade e inspira novas gerações a acreditarem que o lugar da mulher também é na linha de frente da proteção da população”.

As pioneiras

A presença feminina na Polícia Militar do Acre começou oficialmente em 1985, quando a corporação abriu, pela primeira vez, vagas para mulheres. Entre as cinco aprovadas estava Margarete de Oliveira Melo, que anos depois se tornaria coronel da instituição.

Margarete ingressou na corporação de segurança aos 22 anos, honrando um sonho antigo de seguir carreira militar. Hoje em dia ela coleciona memórias de grandes feitos realizados e avanços conquistados. Foto: Alice Leão/Secom

Margarete fez o curso de oficial no Rio Grande do Sul e se tornou a primeira oficial feminina do Estado do Acre. A partir daí, acumulou marcos históricos, tornando-se a primeira aspirante, primeira tenente e primeira capitã da corporação. “Quando entramos na corporação, a profissão era totalmente masculina e a recepção não foi nada fácil. Foram anos de batalha para conquistar o nosso espaço, nem todos aceitavam a presença feminina no quartel. Muitos até queriam, mas infelizmente a maioria não era favorável”, lembra.

Ao longo da carreira, Margarete também protagonizou outros feitos importantes, como ser a primeira mulher a dirigir uma viatura da corporação, a primeira a comandar um batalhão e a chefiar o Gabinete Militar do Estado, responsável pela segurança do chefe do Executivo à época.

Para ela, a presença feminina trouxe um diferencial importante para a atuação policial. “A população só tem a ganhar com a inserção feminina na Polícia Militar”, afirma.

Hoje cedida ao Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), onde atua em projetos de inclusão, a coronel deixa uma mensagem para as novas gerações: “Não desistam dos seus sonhos. Se eu tivesse que fazer tudo de novo, eu faria. Não é preciso ter músculos ou testosterona para realizar seus objetivos. Acredite no seu potencial, porque ele é ilimitado”.

Em outubro de 2024, Margarete foi uma das homenageadas pelo governador do Acre em evento de celebração da participação feminina na Polícia Militar. Foto: Neto Lucena/Secom

O olhar institucional

Atualmente, as mulheres representam cerca de 13% do efetivo da corporação, que conta com aproximadamente 2.340 policiais militares. Ao todo, são 302 mulheres em atividade.

A comandante-geral da PMAC, coronel Marta Renata Freitas, explica que o cenário acreano acompanha a realidade nacional. Dados de relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam que a presença feminina nas corporações militares do país também permanece abaixo de 13%.

“A participação feminina ainda é pequena em termos numéricos, mas representa um avanço importante quando comparamos com o início da inserção das mulheres na corporação”, destaca. Segundo a comandante, as policiais ainda enfrentam desafios estruturais decorrentes da própria formação histórica das instituições militares, tradicionalmente organizadas sob uma lógica masculina.

Com o levantamento de dados e fatos históricos, a comandante-geral destaca a presença feminina na corporação. Foto: Diego Gurgel/Secom

Um exemplo foi a existência de quadros separados para homens e mulheres, o que limitava a progressão na carreira feminina. Mesmo realizando os mesmos concursos e formações, as policiais só podiam ascender até o posto de capitão. A unificação ocorreu apenas em 1998, permitindo que as mulheres passassem a disputar os mesmos cargos e postos.

“Por muito tempo, a mulher foi vista quase como um corpo estranho dentro da estrutura institucional. Somente em 2022 passamos a receber uniformes e coletes balísticos adequados ao corpo feminino. São mudanças importantes, mas as barreiras culturais não se rompem de imediato”, afirma.

Pela primeira vez em 108 anos, o governador Camelí empossou uma mulher no Comando da PM. Foto: José Caminha/Secom

Em 11 de dezembro de 2024, a própria coronel Marta Renata entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a assumir o comando-geral da PMAC. Para ela, ocupar o cargo representa um marco institucional, mas também um desafio constante.

“Não gosto de romantizar esse processo, porque não é fácil. A presença feminina em posições de comando ainda é constantemente observada e avaliada. Mesmo assim, é motivo de satisfação poder abrir caminhos e trazer outras mulheres para posições de liderança”, afirma.

Na ocasião da posse da atual comandante-geral, o governador Gladson Camelí destacou o caráter histórico da escolha, enfatizando que não se tratava apenas de uma questão de gênero, mas de reconhecimento à coronel, que dedicou os últimos 19 anos à Polícia Militar.

Na cerimônia, o governador Camelí destacou o feito histórico e enfatizou que o momento não se tratava apenas de uma questão de gênero, mas de reconhecimento pela competência, pelo currículo e pela dedicação da militar. Foto: Felipe Freire/Secom

Mulheres na linha de frente

Se as pioneiras abriram caminhos e as gerações seguintes consolidaram a presença feminina na corporação, a nova fase da Polícia Militar do Acre também se caracteriza pela ampliação do espaço das mulheres em áreas operacionais especializadas.

Um exemplo é a soldado Jucyellen Lima, que há cerca de quatro anos integra a corporação e recentemente se destacou por ser a única mulher a concluir o curso da mais recente turma de Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam), uma das formações operacionais mais exigentes da instituição.

Desde o início da carreira, a soldado já admirava o trabalho da unidade. “A farda rajada da Rotam chama atenção e é muito respeitada. Quando surgiu a oportunidade, eu busquei fazer o curso e me esforcei ao máximo”, conta. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

A formação teve duração de quase três meses e incluiu uma série de etapas físicas e psicológicas, além de treinamentos operacionais intensivos. “Foi uma experiência diferenciada. No serviço convencional, já realizamos atividades operacionais, mas o curso traz uma visão muito mais ampla e exige bastante preparo físico e psicológico”, relata.

Para a soldado, a presença feminina em unidades especializadas tem sido cada vez mais aceita dentro da corporação. “Hoje existe mais abertura e incentivo para que mulheres participem de cursos operacionais. Não há ninguém dizendo que mulher não pode estar aqui. Pelo contrário, há interesse em ampliar essa presença, mas é necessário se especializar e se preparar para o desafio”, afirma.

Soldado Jucyellen Lima, foi a única mulher a concluir o curso de formação da Rotam. Foto: Neto Lucena/Secom

A militar também avalia que o fortalecimento da liderança feminina na corporação contribui para dar maior visibilidade ao trabalho das policiais militares. Para ela, a escolha da atual comandante-geral representa um avanço simbólico importante para a instituição.

A nova geração de oficiais

Enquanto algumas mulheres conquistam espaço nas unidades operacionais, outras começam a trilhar caminhos nos quadros da corporação. É o caso da aspirante Lourdes Sampaio, destaque em sua turma de formação de oficiais.

O caminho até alcançar a patente de aspirante, no entanto, não foi simples. De acordo com a militar, o processo de formação exige dedicação intensa e uma série de renúncias pessoais ao longo da preparação. A rotina inclui treinamentos físicos, formação acadêmica e desenvolvimento de competências emocionais necessárias para o exercício da função.

“O processo de formação é bastante exigente e requer entrega, resiliência e equilíbrio emocional. Tornar-se aspirante não significa apenas concluir uma etapa acadêmica, mas assumir uma grande responsabilidade com a instituição e com a sociedade”, explica.

Jovem aspirante deixa uma mensagem: “Ser mulher na Polícia Militar é muito mais do que ocupar um espaço. É honrar uma missão, abrir caminhos e mostrar todos os dias que força e sensibilidade podem marchar juntas”. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

Durante essa trajetória, Lourdes encontrou inspiração em outras mulheres que fazem parte de sua vida pessoal e também da corporação. A mãe foi a primeira referência, mas, ao longo da formação, a aspirante afirma ter se espelhado em diversas policiais militares que conheceu dentro da instituição.

Para ela, a presença feminina no ambiente militar contribui para ampliar perspectivas dentro da gestão e do comando. Lourdes acredita que a diversidade de experiências e visões fortalece as decisões institucionais e aprimora o trabalho desenvolvido pela corporação.

“A liderança feminina pode trazer novas perspectivas para a instituição, especialmente por meio da escuta atenta e de uma sensibilidade estratégica. Não se trata de competir por espaço, mas de somar e agregar diferentes visões para fortalecer o trabalho da Polícia Militar”, ressalta.

Da primeira viatura conduzida por uma mulher, em 1985, às formações de elite e ao oficialato, a presença feminina na Polícia Militar do Acre revela uma trajetória construída com perseverança, coragem e competência.

O que começou com apenas cinco pioneiras transformou-se em um movimento contínuo de ocupação de espaços, qualificação profissional e reconhecimento institucional. No Mês da Mulher, as histórias de Margarete, Jucyellen e Lourdes representam momentos diferentes da mesma linha do tempo.

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