Memórias perdidas

Quando criança, as lembranças formadas parecem ser infinitas como números, mas, quando se cresce, as memórias para alguns se mostram finitas como as pessoas. A percepção do tempo para o indivíduo pode variar conforme o lugar de onde se fala.  O tempo é feito por momentos? Frequentemente, quando se descobre o Alzheimer, o agora tende a deixar de existir e a repetição do passado torna-se um presente tão evidente como um refrão de uma música e a partir disso se pode refletir. Alguém com Alzheimer pode viver duas vezes ou viver para sempre.

Elisabeth Bishop, poetisa americana dizia que “a arte de perder não é um mistério, tantas coisas contém em si o acidente de perdê-las”. Às vezes  perdemos pessoas, objetos, sentimentos, animais de estimação, e por razões alheias a nossa vontade, memórias. Muita gente não tem controle daquilo de que se quer recordar e as pessoas com Alzheimer estão incluídas nesse grupo.

A doença que afeta os neurônios, principais células do sistema nervoso, é progressiva e agrava-se ao longo do tempo. Ela é responsável pelas principais causas de mortes no mundo. No ranking da Organização Pan-Americana de Saúde ocupa o 5º lugar. Segundo o Ministério da Saúde, o diagnóstico do Alzheimer é por exclusão e por meio de um neurologista especializado. Neste contexto, o tratamento adequado e o diagnóstico precoce são fundamentais para a estabilização ou o retardo da progressão da doença.

A Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer) alerta que a cada 3 segundos, há um novo caso de demência no mundo, sendo o Alzheimer notificado em 60% dos casos. Nesse contexto, o relatório de 2015 da United Nations Population Division (ONU), entre 2015 e 2030 mostra que o número de pessoas com mais de 60 anos deve crescer de 901 milhões para 1,4 bilhões. Será que o Brasil está preparado para os desafios de uma nação que envelhece? Ainda que no processo do envelhecimento haja alterações cognitivas, em relação à organização de ideias e preservação de memórias e informações, no Alzheimer ela aparece de maneira mais severa e incapacitante.

O envelhecer é fantástico, no sentido de experiência, sabedoria, equilíbrio e realização de uma jornada, nem sempre “fácil”, mas possível e boa. No entanto, a longevidade não é tão simples para alguns, e eventualmente ela ocasiona alguns percalços, o Alzheimer é um deles. Os sinais são a perda da memória de acontecimento recentes, dificuldade em acompanhar conversas, dificuldade em encontrar palavras que exprimam ideias, irritabilidade, agressividade e tendência ao isolamento.

A angústia de familiares e amigos é visível, pois os sinais das complicações na enfermidade são demonstrados nas relações sociais, e ainda há um estigma categórico em falar e discutir o Alzheimer e tudo aquilo que ele apaga seja na linguagem, no comportamento, na orientação sobre a vida terrena, alguns chegam a chamar de lugar escuro. Apesar disso, muitos optaram por lutar e continuar a sorrir, apesar de traumas vivenciados. Não se tem o controle da vida e das coisas que se passa nela, mas se pode combater a indiferença que a cerca.

 

Danna Anute é estudante de comunicação social com habilitação em jornalismo e estagiária de comunicação na Fundação Hospitalar do Acre