Leveza em meio ao risco iminente 

A última experiência que o trabalho me proporcionou foi conhecer a realidade dos profissionais do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia do Acre (Into-AC). Nessas veredas em que o jornalismo nos leva, muitas vezes nos é ensinado olhar as situações sob várias perspectivas, o que nos proporciona uma brilhante oportunidade de nos tornarmos melhores para o mundo.

Diante da realidade em que vivemos, temos que ter a consciência de que, por exemplo, eu posso testar positivo para a Covid-19, afinal, em algum momento, de acordo com os estudos de estatísticos e especialistas da área, todos serão infectados.

O que nos difere dos profissionais da saúde, entretanto,  é que eles sabem que estão em contato direto com o coronavírus, com a vida e com a morte, e que a qualquer momento podem ser acometidos pela doença, ou “do dia para a noite” velar um colega de trabalho.

E nós? Ainda temos tempo. E a opção de nos resguardar. Eles? Não!

Uma contradição social se afigura entretanto a esse cenário, pois ao lado do Into-AC, centenas de pessoas caminham, inclusive sem máscaras, expondo a própria falta de empatia e responsabilidade social. Enquanto aqueles profissionais salvam vidas e abdicam de suas famílias, boa parte das pessoas continua com sua rotina e a liquidez do corpo perfeito, que se desfaz sete palmos abaixo do chão.

Agora, reflete um pouquinho comigo sobre a rotina desses profissionais: você já imaginou? Experimentou tirar um tempinho para pensar no trabalho daqueles que, 12 ou 24 horas por dia, em pleno calor e sol acreano, trajam-se de tecidos quentes, touca e uma máscara que marca o rosto e a alma? Eles deixam filhos, pai e mãe. Não têm contato físico, não podem abraçar e nem chorar no ombro de um familiar, pois arriscam-se a contaminá-lo.

São profissionais que passam mais tempo na unidade do que em suas casas, lidando apenas com pacientes com Covid-19, e assim eles acabam se tornando, além de enfermeiros, médicos e técnicos, também psicólogos, quando necessário.

A gente encontra cansaço no rosto desses guerreiros. Mas identifica também leveza em meio ao caos, pois mesmo “no olho do furacão”, eles descobrem motivos para brincar, sorrir e, por um minuto, aliviar a carga psíquica.

Durante algumas horas no ambiente hospitalar, é possível entender por que o nosso estado apresenta uma boa taxa de recuperação dos enfermos.

É que não bastam apenas medicamentos quando se trata de uma doença cuja principal medida de segurança é o isolamento. É necessário, sobretudo, cultivar o amor ao próximo e o olhar sensível sobre o outro, com carinho e cuidado.

Esses profissionais podem ser colocados dentro de um grande significado, resumido em: coragem! Pois é preciso ser grande para lidar com a solidão e a morte, e ainda, continuar sorrindo e transmitindo leveza.

“Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo.” A frase de Mark Twain, escritor americano, representa muito bem o controle não apenas do medo, mas de todas as outras fragilidades que são comuns aos seres humanos e que os profissionais do Into-AC controlam admiravelmente. No mais, muito obrigada!

 

Taís Nascimento é jornalista da Secretaria de Estado de Saúde