Em defesa da floresta

Legado de Chico Mendes é debatido e renovado em encontro em Xapuri

A programação do “Encontro Chico Mendes 30 anos: Uma Memória a Honrar. Um Legado a Defender” apresentou dois painéis, no sábado, 15, em Xapuri, que retratam a diversidade de visões da história e do legado deste líder sindical e ambientalista. Depoimentos emocionados mostraram o grande carisma e consciência com que Chico orientou companheiros, pautou políticas públicas e iniciou uma transformação social no Brasil e no mundo.

Pela manhã, mediada pelo senador Jorge Viana, a mesa “Vozes da Floresta: Depoimento de lideranças indígenas e extrativistas e de parceiros da causa que fizeram parte da vida e da luta de Chico Mendes” colocou lado a lado lideranças, ativistas ambientais e pesquisadores que conviveram com o seringueiro acreano.

“Esse encontro homenageia os ideais de Chico Mendes e renova a aliança dos Povos da Floresta. Nos possibilita passar adiante, para as futuras gerações, esse compromisso que fizemos no passado”, comenta Jorge Viana.

O primeiro a dar o relato de sua trajetória ao lado dos seringueiros, foi Dom Moacyr Grechi. Desde sua atuação em apoio ao jornal que dava voz às lutas dos extrativistas, até às comunidades eclesiásticas de base, o religioso emocionou o público ao lembrar da importância da união, pela fé ou pela luta social, para a construção de nossa sociedade.

Bispo Dom Moacyr durante Encontro Chico Mendes 30 Anos (Foto: Ramon Aquim)

“Naquele momento começamos a fazer as comunidades eclesiásticas de base. Vocês lembram dos grupos de reflexão? Naquela comunidades, a orientação que se dava era essa: aqui se aprende a fazer política, a fazer análise da realidade porque essa é a doutrina autêntica da igreja. Cristo opta pelos pobres, também nossa opção prioritária é ao lado do pobre, com risco e tudo”, relatou Dom Moacyr, que hoje é arcebispo emérito de Porto Velho.

Este apoio espiritual e político social se juntou ao trabalho acadêmico para mais uma contribuição ao projeto de libertação dos seringueiros. A pesquisadora e antropóloga Mary Allegretti foi uma das fundamentais personagens para a construção de bases teóricas e estudos que corroboram os pensamentos de conservação e uso sustentável que Chico Mendes defendia.

“No dia em que o Chico foi enterrado, estava chovendo como hoje, parecia que tinha muita gente chorando por ele fora daqui também. Ele tinha espalhado uma mensagem que fazia sentido no coração de todo mundo: ele era uma pessoa simples mas com uma convicção muito forte. A convicção que aquela época parecia sentindo, é a que hoje o planeta inteiro tem, o valor da floresta e dos recursos naturais e as pessoas que protegem a natureza”, afirmou Mary Allegretti.

Ao apontar que índios e seringueiros não eram inimigos, mas sim companheiros de uma causa comum e que estavam sofrendo as mesmas injustiças, Chico Mendes mostrou para o mundo uma nova grande confluência de ideais, a Aliança dos Povos da Floresta. Ailton Krenak, liderança indígena, traçou com o acreano esta comunhão de mundos que pareciam tão distantes anteriormente.

“Meu desejo é que levemos esse encontro para todas as regiões do país. Dando a mesma coragem, esperança e ânimo para as novas gerações, embalados pela memória daqueles de que alguma maneira experimentaram criar um novo lugar para nós vivermos como uma sociedade plural, onde nossa diversidade não se constituiu em diferença, mas em riqueza. Em torno da memória do Chico, fazemos essa grande celebração da luz que ele projeta para nossas vidas. A natureza é toda diversa, os humanos são assim também, aprender isso foi o maior presente”, declarou Krenak.

Os depoimentos seguiram ao longo de toda a amanhã, companheiros históricos do Acre e de todos os lugares do Brasil. Pela parte da tarde, ocorreu o painel “Para Além da Floresta: Memória e importância de Chico Mendes para os movimentos sindical e socioambiental no Brasil e no exterior”, mediado pela ativista e atriz, Lucélia Santos.

“Quando Chico explicou o conceito da reserva extrativista, do ponto de vista de quem vive na floresta, prontamente pensei que ele era quem devíamos seguir. Uma coisa fundamental aprendi com Chico Mendes, a não ter medo. Defenderemos a floresta sempre”, afirmou Lucélia.

Neste debate, foi apresentado a importância que o trabalho realizado pelo acreano homenageado teve para outras tantas causas e mobilizações no Brasil e no mundo. O desejo de viver na floresta, produzindo de forma sustentável e defendendo uma terra coletiva se tornou um ideário e um conceito primordial para as políticas ambientais, principalmente as que combatem o aquecimento global.

Steve Schwartzman, diretor da organização não-governmental Environmental Defense Fund (EDF) [Fundo de Defesa Ambiental, em tradução livre do inglês], explicou como com seu jeito tranquilo e sereno, Chico Mendes conseguia explicar esse conceito em qualquer reunião e conversa em que estivesse. Isso foi um fato novo para o movimento ambiental.

Steve Schwartzman conheceu e apoiou Chico Mendes, na década de 1980 (Foto: Gleilson Miranda/Secom)

“A ideia de floresta habitada que poderia ser uma forma válida de proteção foi totalmente contestada, uma coisa romântica dos seringueiros do Acre. Hoje, nós ganhamos essa discussão, pouca gente ousa agora contestar a luta dos seringueiros, extrativistas, ribeirinhos e povos indígenas como a melhor forma de defesa da floresta. Hoje em dia fica claro a presciência de Chico, sobre como combater a mudança climática. Agora, sua luta é de todos nós”, declarou Steve.

O professor Mauro Almeida, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi responsável junto a Chico e ao indigenista Antônio Macedo, pela ampliação da luta dos seringueiros também na região do Juruá, no Acre, onde foi criada a primeira Reserva Extrativista do país.

Ele relata um pouco da visão que o líder acreano compartilhou com ele. “Chico queria dar repercussão nacional, porque acreditava que só assim Iria unir mais forças para barrar as forças do capital e da grilagem de terras. Todas essas lutas nos seringais eram por terras públicas. Terras indígenas, reservas extrativistas e quilombos não são terras do mercado, mas estão na mira dos grileiros, latifundiários e madeireiros ilegais. Há hoje no Brasil uma disputa para quem pega as terras públicas, se são esses grupos ou a demanda social. O desafio agora é saber como o movimento social vai lutar contra a ganância desses interesses”, disse.

Ao final do painel, Joaquim Belo, Presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), relatou o assassinato de mais um companheiro que lutava pelo direito dos trabalhadores rurais. Naquela manhã, Gilson Maria Temponi foi assassinado em sua casa no Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), em Placas, na região da Transamazônica, no Pará.

Com um minuto de silêncio, o público prestou homenagem a mais um líder social assassinado na Amazônia, mostrando que a luta de Chico Mendes e de todos que foram abatidos pela perversão de diversos grupos continua.