Preservação da cultura

Jósimo Constant Puhku: da aldeia do povo Puyanawa ao mestrado na UnB

Jósimo Constant Puhku nasceu na comunidade Barão, em Mâncio Lima e hoje comemora seu ingresso no mestrado da UnB (Foto: cedida)

Nascido na comunidade Barão, do povo indígena Puyanawa, na região de Mâncio Lima, o jovem Jósimo Constant Puhku (que quer dizer “peixinho pequeno” em sua língua materna) é uma prova de que a perseverança pela educação é capaz de abrir grandes horizontes.

“Eu nasci numa época de bastante dificuldade, morávamos na beira do igarapé, numa casinha de palha com paxiúba e só vivíamos da agricultura. A terra não era demarcada e eu já fui muito doente, portador de dermatite. Vi muitas crianças e idosos morrerem, além da cultura original de nosso povo ir se perdendo”, conta Jósimo.

Foi então que o pai do rapaz decidiu que era hora de se mudar para Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do estado. Lá, Jósimo teve um maior acesso aos estudos e se apaixonou pela língua inglesa.

No mesmo ano em que encerrou o ensino médio, seu pai se formou em Pedagogia pela Universidade Federal do Acre (Ufac). Foi quando juntos eles resolveram que era hora de voltar para a aldeia do povo Puyanawa.

Longe, mas sempre próximo

Foi na aldeia, dando aulas na escola e na creche, que Jósimo percebeu que a cultura do seu povo precisava de um resgate.

Após ser convidado para dar aulas de inglês em Mâncio Lima, ganhou apoio para realizar uma jornada única que o colocaria na missão de resgatar ajudar a cultura do seu povo: o vestibular de Antropologia na Universidade de Brasília (UnB).

Ao passar, foi o momento de Jósimo começar do zero. “Foi uma verdadeira saga. Sem emprego e com as bolsas da Funai [Fundação Nacional do Índio] atrasadas, pensei em desistir diversas vezes, mas com o apoio da família e dos amigos, consegui superar e me formar no ano passado”, comemora.

Puhku tem grandes sonhos. Quer alcançar o doutorado e ajudar na preservação da cultura do seu povo (Foto: cedida)

Jósimo não se limitou ao curso de graduação. Participou do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), o Programa de Educação Tutorial (PET), se tornou fluente em inglês, espanhol, começou a estudar francês e, antes mesmo de se formar, conseguiu passar no mestrado de Direitos Humanos da UnB.

“Eu faço belos trabalhos pela preservação cultural do nosso povo. Hoje eu sou reconhecido como uma liderança Puyanawa. Pratico e faço uso das nossas medicinas tradicionais, estou escrevendo trabalhos sobre a saúde dos povos indígenas e a minha tese de mestrado é sobre a Casai [Casa de Apoio à Saúde Indígena] de Mâncio Lima”, revela com orgulho.

Jósimo ainda trabalha com pinturas e músicas e tem divulgado constantemente trabalhos sobre o povo Puyanawa.

Participou do congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Porto Seguro (BA) e ficou entre os dez melhores trabalhos do congresso de iniciação científica da UNB no ano passado.

Um futuro ousado

Hoje, o jovem planeja seguir seus estudos e já pensa em um doutorado, para quem sabe um dia voltar para a o Acre e realizar um dos seus sonhos, o de lecionar na Ufac, trabalhando em cursos para os povos indígenas, resgatando e fortalecendo a cultura.

Jósimo ainda tem embarcado num projeto ousado de tentar a compra de uma área de 11 mil quilômetros quadrados para o povo Puyanawa.

Ele está fazendo o estudo antropológico, junto com o cacique e o pajé da aldeia, já que na a área específica é de onde veios seus ancestrais.

“Eu me sinto muito feliz com tudo que ando fazendo que tem divulgado a nossa cultura. De incentivar as reuniões na nossa comunidade, do uso da pintura corporal, da nossa língua original, a própria educação diferenciada [para povos indígenas]. Estou desenvolvendo artigos sobre a história das nossas mulheres, nossos homens, nossos símbolos, nossas músicas, a natureza e tem muito mais coisa que eu tenho na minha cabeça, jamais sem abandonar minha cultura de origem.”