Jordão: uma pequena cidade amazônica

No interior do Acre, essa pequena cidade se transforma em um lugar onde os índices oficiais não conseguem mensurar a verdadeira qualidade de vida de quem vive da floresta

É no ritmo calmo da vida na floresta que os dias seguem no pequeno município de Jordão. Sem pressa, o tempo passa e as coisas simples são parte do dia-a-dia. O espaço geográfico do município corresponde a pouco mais de 3% do território do Acre, e a cidade é cortada pelos rios Jordão e Tarauacá. Outra característica marcante daqui é a população indígena, uma das maiores do Estado, quase toda integrante da etnia Kaxinawá. Com pouco mais de 6 mil habitantes, o município está localizado há 640 quilômetros em linha reta da capital do estado, Rio Branco. Até 1992, toda área da cidade pertencia ao município de Tarauacá.

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Em Jordão, as famílias vivem sem pressa e a bicicleta é o principal meio de transporte

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Educação – Existem 3 escolas públicas na zona urbana da cidade, onde quem for conhecer não vai encontrar nenhuma criança ou jovem que não freqüente a sala de aula. Na zona rural, onde está a maior parte da população do município, existem outras 54 escolas, que também contam com o ensino da língua indígena. Se até pouco tempo atrás nem todos os municípios do Acre dispunham de ensino de médio, a realidade hoje é bem diferente. Nas escolas indígenas, o ensino é bilíngüe, em Português e na Língua Kaxinawá.

O Estado tem como núcleo principal a Escola Estadual de Ensino Fundamental (5ª a 8ª) e Médio Jairo de Figueiredo Melo, inaugurada em 2007. Seu diretor, Gleison  Lima Daniel , informa que a escola tem atualmente 350 alunos, um aumento de 67% do número de matriculados no primeiro ano de atividade.

A escola tem instalado um laboratório de biologia, que começa a funcionar neste ano, mesmo caso de um Telecentro e uma quadra coberta. “A educação do Estado funciona aqui no Jordão”, afirma o entusiasmado diretor.

A Escola Manoel Rodrigues Farias tem 150 alunos de 1ª a 4ª e 30 alunos do EJA. Nas duas escolas há vagas sobrando, assim como no ensino municipal. A diretora Maria Marisanta de Farias, conta orgulhosa que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) saltou de 2.8 em 2005 para 4.1 em 2007, uma subida que as projeções indicavam que só seria alcançada em 2017.

O Ensino Superior é outra grande conquista do município. Existem hoje três cursos na cidade que oferecem 120 vagas em Matemática, Geografia e Pedagogia.

Telecentro – Sala lotada, olhos vidrados na tela do computador: é assim praticamente todos os dias nos dois locais onde funciona a comunidade digital. Gente que até pouco tempo nunca havia tido contato com a grande rede surpreende com a habilidade no manuseio dos equipamentos.

A internet já se tornou hábito da juventude e da população de Jordão. O telecentro mantido pelo Governo do Estado existe há três anos e oferece conexão via satélite, das 8 às 12 horas e das 14 às 18 horas e “se for preciso abre à noite também”, explica o jovem gerente, Roberto Pereira Viana. No local também são ministradas oficinas para quem não sabe mexer em computador ou navegar pela internet.

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No Telecentro, a população tem acesso gratuito à rede mundial de computadores

O estudante Diego Melo diz que sempre procura o Telecentro para conversar com os amigos, enviar e-mail e também fazer compras. “Eu sempre que posso compro pela Internet. Escolho o produto e em no máximo 15 dias ta chegando na minha casa”, afirma.

jordao_foto_gleilson_miranda_31.jpgAlimentação – No Jordão, o quilo da carne bovina custa R$ 5 e, junto com a farinha, é a principal base da alimentação na região. Mas, andando pela cidade, facilmente se encontra quem nos fundos do quintal cultiva hortaliças básicas para o consumo diário. Patoá, abacaba, açaí, banana, abacaxi e tantas outras frutas locais estão presentes à mesa de quem mora na região. 

O prefeito Hilário Melo (PT), reeleito no ano passado garante que a verdura não é mesmo tradicional na mesa de quem mora no Jordão. “Mas na cidade ninguém passa fome. Tem o arroz, macaxeira, farinha, milho, carne barata, peixe nos rios no verão, banana, da floresta tiramos patoá, bacaba, açaí. Há criações domésticas. Não existe fome”, afirma.

gua.jpgInfraestrutura – Antigamente, a pista de barro na cidade impedia que o avião chegasse nos dias de chuva. Hoje a construção de uma pista adequada para pousos e decolagens trouxe maior segurança a quem viaja de ou para o Jordão.

O saneamento básico foi outro setor que teve muitos investimentos. Atualmente, o Departamento Estadual de Água e Saneamento (DEAS) leva água tratada do Igarapé São João a cerca de 80% das casas, segundo o diretor, Aurisérgio de Menezes Oliveira. As ligações atingem 90% da cidade e com um pequeno esforço este será o índice atingido ainda este ano, com maior produção de água tratada. Recentemente foi concluída a construção de rede coletora e ligações domiciliares, da prefeitura convênio com a Funasa no valor de R$ 412.371,13.

 

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Ivo Felipe de Olveira mostra a casa onde vive com a família…

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….e a produção que ele mesmo cultiva.

Reserva Extrativista – Um importante componente da população do Jordão são os moradores da Reserva Extrativista do Alto Tarauacá. Eles estão organizados em uma associação: a ASAREAT (Associação dos Seringueiros e Extrativistas do Alto Tarauacá). São 352 famílias que habitam e protegem 151 mil hectares de terra.

Segundo o presidente da Asareat, Orlei Araújo de Souza, todo mundo vive bem na reserva e não pretende sair. “Os moradores da reserva não querem sair. Estão felizes. Eles têm caça, pesca e agricultura. Não querem ir para a cidade, onde não têm casa e onde não tem como sobreviver”.

É o caso de Ivo Felipe de Oliveira. Ele ganhou casa nova do Incra e motor para o barco. Planta arroz, feijão, banana, macaxeira, gergelim, cria galinhas, pato porco e gado com a família de 12 pessoas. Gosta mais ainda da colocação no centro, às margens do igarapé Limão, distante cerca de 40 minutos a pé. “Não troco esta vida por nada do mundo. Onde vou encontrar outra colocação como esta?” – questiona. “No Jordão já lutaram para que eu vendesse ou trocasse minha colocação por casa no Jordão. Gosto de viver na floresta. Sou da floresta e dela não saio.”

Os 10 filhos que moram com ele estudam. O filho Evaldair Matos Oliveira tem 14 anos e estuda a 6ª série. Também garante que não pretende sair da reserva.

Qualidade de vida e Segurança Pública

jordao_foto_gleilson_miranda_06.jpgE se a qualidade de vida também se mede pela questão de segurança pública, então os moradores de Jordão podem se orgulhar. Na cidade, praticamente não se ouve falar em roubos ou assaltos. Nos dois postos, da Polícia Militar e da Polícia Civil não existe nenhum preso.

O chefe do Posto da Polícia Civil José Ribamar Aires da silva tem apenas um companheiro em vias de se aposentar para dar conta do recado. O último assassinato ocorreu em 2005 no Seringal Iracema.

Em Jordão, pode-se dormir com janelas e portas abertas.

Saúde – O enfermeiro coordenador da Unidade de Saúde da Família, Ricardo Almeida conta que o posto da cidade de Jordão funciona de 2ª a 6ª e faz cerca de 400 consultas por mês.  Tem um médico que faz preventivo, pré-natal, enfermagem.  Atende todos que procuram. Um novo prédio será construído neste ano. Já tem a planta e só falta a contrapartida do município.

Ronaldo conta que há dois anos não existia o PSF. Foi um grande avanço. “Tivemos a maior cobertura de vacinação contra a rubéola no estado”. O PCCU (preventivo do câncer de colo de útero) já atendeu 60% das mulheres. A unidade precisa de um laboratório de análises clínicas e um ultrassom. O índice de mortalidade infantil é baixo.

A Unidade Mista do Jordão é atendida pelo médico Claiton Estevão Maia. Funciona 24 horas por dia de domingo a domingo. Pelo menos 30 pessoas são atendidas por dia com consultas e no setor de emergências.

A Fundação Nacional de Saúde, em convênio com o Governo do Estado, tem 08 agentes trabalhando na área.

jordao_foto_gleilson_miranda_23.jpgVida tranqüila – O prefeito garante que os dados utilizados para o cálculo do IDH já estão amplamente superados. Disse que o último cálculo foi baseado no ano 2000. “De lá para cá muita coisa mudou”.

Longe das metrópoles, do stress do trânsito, da pouca paciência e dos maus hábitos, as pessoas que vivem no isolamento da floresta têm uma qualidade de vida no mínimo diferenciada. O reflexo positivo disso é a constatação de um envelhecimento saudável, com menos casos de hipertensão e mais satisfação com as tarefas cotidianas. São parâmetros difíceis de serem mensurados pelas estatísticas oficiais.

 

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Jordão: uma pequena cidade amazônica

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