Gênesis eterna

Desde a minha primeira passagem pelas terras do Rio Acre, o que mais me encantou foi o céu. De certo modo é o mesmo de todo o resto do mundo, mas, convenhamos, existe uma forma particular de apresentação.

Há uma peculiaridade que não consigo descrever. O que primeiro despertou-me a atenção foi a sua curvatura. Diferentemente de outros estados do país, ele nos apresenta uma angulação definida, bastante visível, mesmo ao olhar desatento – para não dizer cansado – do cotidiano. Talvez pela ausência de grandes conglomerados de altos prédios. Preserva-se, ainda, a beleza natural de tempos passados.

Adicionemos, a essa peculiaridade, a ausência de luminosidade artificial extrema, o que nos facilita apreciar a beleza magistral do brilho das estrelas. Possibilitando-nos, também, enxergar a estrela mais brilhante do céu noturno, Sirius. A maior estrela visível a olho nu para os habitantes do Planeta Terra, perdendo em posição apenas para o Sol.

Além de todos esses fatores, o céu acreano nos presenteia a cada instante, é único e se faz eterno, com uma dança de cores de leste a oeste, desde o prenúncio do raiar do dia até o ponto em que o sol vai iluminar a outra face do globo.

O cintilante brilho das cores ao nascer do sol nos apresenta e nos maravilha com uma pintura que se transforma a todo momento, criando na sua imensidão uma singela, e, por isso, belíssima tela. Sabendo que nada é como foi, a dança colossal protagonizada pelos raios luminosos do sol nos relembra, diariamente, que assim como “nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio duas vezes”, da mesma forma não cabe a nenhum homem ver o mesmo céu duas vezes.

A escrita, desde seus tempos primitivos, é uma barreira, e dizem alguns poetas que dessa barreira nasce a arte. Impossibilitados de colocar em palavras a beleza desse espetáculo que nasce para todos e renova-se a cada quintilionésimo de segundo – a menor fração de tempo medida pelo homem –, estejamos atentos a apreciá-lo, sempre como a primeira vez.

 

David Damasceno é Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará