Estrada do Pacífico integra economia e cultura com o Peru

A integração é um processo. E um processo lento na maioria dos casos. O que não é diferente na BR-317, a estrada que liga o Noroeste brasileiro, pelo Acre, ao Peru. Uma estrada imensa, resultado de um projeto ambicioso e desafiador. Concluída em 2011, a Estrada do Pacífico, também conhecida como Rodovia Interoceânica, gera expectativas para brasileiros e peruanos. Uma oportunidade única para que negócios sejam desenvolvidos e o crescimento econômico chegue aos dois lados.

Alfândega na fronteira entre Brasil e Peru na BR-317 (Foto: Angela Peres/Secom)

Alfândega na fronteira entre Brasil e Peru na BR-317 (Foto: Angela Peres/Secom)

Apelidada também de “megaestrada”, a BR-317 liga o Oceano Atlântico brasileiro até o Pacífico Peruano. Custou mais de R$ 1 bilhão a partir de onde nasce, em Boca do Acre, no Amazonas, passando por Brasileia e Assis Brasil, no Acre, e atravessando a fronteira na cidade Iñapari, no lado peruano. Um empreendimento que gera milhares de novas oportunidades e desafios socioambientais.

Uma estrada que nasceu como uma saída brasileira para exportar seus produtos aos mercados asiáticos. Assim, o Brasil foi o principal patrocinador da obra. Um projeto que começa a dar os primeiros passos e que se consolida como um novo perfil econômico para a região.

O impacto

Pouco antes da finalização da estrada, no lado peruano, foi inaugurada a ponte Billinghurst, a primeira a atravessar o Rio Madre de Díos e ligando as cidades de Puerto Maldonado e Triunfo. Uma grande estrutura metálica vermelha e suspensa por cabos de aço que teve um impacto imediato. As pessoas puderam se locomover de uma cidade para outra muito mais rápido, gerando mais oportunidades de emprego para os jovens da região.

A estrada foi capaz de tirar tanto cidades acreanas quanto peruanas do isolamento ao atravessar os Andes (Foto: Sérgio Vale/Secom)

A estrada foi capaz de tirar tanto cidades acreanas quanto peruanas do isolamento ao atravessar os Andes (Foto: Sérgio Vale/Secom)

A mesma coisa aconteceu em San Francisco, no Peru. A pequena cidade viveu desde seu nascimento isolada pela neve andina, e seus moradores, meras 120 famílias, levavam 15 dias para ir até Cusco, desistindo da viagem no inverno. Agora, com a conclusão da BR-317, levam apenas cinco horas.

No lado brasileiro, a cidade de fronteira de Assis Brasil também apresenta mudanças marcantes. Se antes era impossível até mesmo ir de Brasileia a Assis em menos de cinco dias durante o período das chuvas quando a BR-317 não era asfaltada, hoje o trecho é feito em menos de uma hora e meia.

Uma grandiosa ponte também liga Assis Brasil a Iñapari, no lado peruano, a Ponte Binacional. De concreto e cabos de aço, foi feita pelo Brasil, inaugurada em 2006, com a presença do então presidente Lula. Hoje é até comum ver os estranhos triciclos peruanos cruzando a cidade de Assis Brasil com frequência. Para os acreanos na fronteira a vantagem é comprar produtos mais baratos na cidadezinha ao lado, além de apreciar a culinária local.

Ponte Binacional liga Assis Brasil, no lado acreano, a Iñapari, no lado peruano (Foto: Angela Peres/Secom)

Ponte Binacional liga Assis Brasil, no lado acreano, a Iñapari, no lado peruano (Foto: Angela Peres/Secom)

Até o Pacífico os motoristas podem viajar quilômetros sem ver ninguém, até mesmo poucos caminhões carregados com produtos.

“O que mata a integração são as expectativas e não colocar os sonhos em prática. É difícil demais, a maioria dos empresários acreanos só investe dinheiro onde é seguro. Tem que ser mais que empreendedor, tem que ter um espírito agressivo para encarar a estrada”, diz Jair Santos, assessor especial da Secretaria de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis (Sedens).

Trâmites para o comércio

O saldo comercial é negativo para o Peru. Em 2011, as empresas brasileiras venderam US$ 2,45 bilhões ao país, enquanto o Peru exportou US$ 1,27 bilhão, embora os números não sejam exclusivos da estrada. Entre os empresários acreanos os números são bem mais modestos.

Segundo um balanço realizado pela Sedens, em suas primeiras experiências, os empresários acreanos tem comprado produtos alimentícios, sacas de cimento, roupas, produtos químicos, cerveja e piche. Já para o país vizinho estão sendo enviado castanhas, milho, produtos de plástico e veículos de carga pesada.

Ainda estão se dando muitos diálogos entre os empresários acreanos e peruanos. E, à medida que esses diálogos vão se fechando, as ações vão se concretizando. Propostas existem aos montes, como diz o despachante aduaneiro Rafael Pimpão. “Consultorias eu tenho muitas. Tenho reuniões quase todos os dias com importadores e exportadores, mas permanentes nas operações existem poucos ainda. É um negócio novo, mas com possibilidades de crescimento. Quando vim ao Acre pela primeira vez, em 1997, achava que demoraria muito para este Estado melhorar, tudo parecia precário. Hoje acho que com cinco anos o Acre vai despertar no ramo do comércio internacional”, diz, confiante.

Gaúcho, morando definitivamente no Acre há  dois anos, Rafael é despachante aduaneiro desde 1997, profissão responsável por fazer toda a parte de transição de documentos em negócios de importação e exportação. São alguns dias para a preparação do processo completo que exige partes específicas como forma de transporte, produção, embarque, emissão de documentação e registro de exportação. Os documentos prontos são enviados para a Receita Federal e o órgão tem 24 horas para responder e dar a liberação.

O posto da Receita Federal fica em Assis Brasil. A grande estrutura envolta da própria estrada reúne também Polícia Federal e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O posto da Receita funciona de segunda a sexta para importação e exportação, sábado e domingo apenas para exportação. Francisco Antônio Braz, chefe da Receita na fronteira, conta que o número de importações é o que mais tem aumentado. “Há alguns anos não havia nada aqui, e no momento eu acho que é o Peru que tem mais a oferecer ao Acre”, diz.

Braz também admite que a importação exige um procedimento mais elaborado devido a legislação. Cada produto tem uma documentação exclusiva. Já a exportação é bem mais fácil, resultado também do protecionismo brasileiro.

Hoje são apenas dois auditores fiscais e é  suficiente. Não sobra trabalho e tudo é resolvido com agilidade quando a documentação está correta. Ainda assim está prevista a posse de mais duas pessoas para trabalhar na unidade. Para Francisco, “Só a estrada não é sinônimo de desenvolvimento. Tem que ter muita atitude. A estrada é apenas o meio”.

O que vem para o Acre

Cem toneladas de cebola peruana vieram para o Acre em 2012 (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Cem toneladas de cebola peruana vieram para o Acre em 2012 (Foto: Sérgio Vale/Secom)

“Nós temos feito um esforço imenso para que os ramos econômicos entre Brasil e Peru através do Acre decolem”, reforça Jair, da Sedens. Em 2011, a própria equipe da Sedens reuniu todos os grandes supermercados de Rio Branco e apresentaram a proposta de comprar frutas e verduras do Peru. As vantagens eram duas: menor tempo para o transporte e melhor mercadoria.

A maior rede de supermercados do Acre resolveu apostar. O empresário Adem Araújo fez a primeira encomenda de 25 toneladas de cebola dos vizinhos peruanos. Mas a primeira experiência foi quase um fracasso. “Houve uma série de problemas no despacho, faltaram documentos que nem imaginávamos ser necessários, a carga ficou retida por dias, muito se perdeu”, explica Adem. Ainda assim, amparados pelo governo, não desistiram. Tentaram de novo e de novo, até fazer tudo corretamente e o negócio prosperar. Só em 2012 foram importadas 100 toneladas de cebola por mês. Quase toda a cebola consumida na capital acreana passou a ser peruana. E 70 toneladas ficaram em estoque devido à entressafra peruana.

Segundo Adem, a cebola peruana é melhor que a brasileira e tem custo entre 5 a 10% menor, percorre menos espaço e tem menos desperdício. “Se comprada no Brasil, o desperdício chega a 20%”, afirma. “No começo só tivemos problemas. Não foi tão fácil, por questão de ser uma novidade, ter que contratar os agentes aduaneiros que não existiam por aqui, ter que lidar com a burocracia e fiscalização da Receita Federal e o Ministério da Agricultura. O que nos fez continuar foi a persistência. Foi acreditar que daria certo.”

Dono de uma grande rede de distribuição há  mais de 20 anos, o empresário Pedro Neves é outro que aposta nos produtos alimentícios peruanos. “Todo início de um processo novo tem gargalos, no caso das importações é a burocracia. Nossa Receita Federal é muito tímida. Só tem pouco mais de um ano que começaram as importações”, diz o empresário. Pedro importa macarrão, produto que ele considera de alta qualidade, mas encarecido pelo frete. Hoje pensa em mais produtos, principalmente materiais de limpeza doméstica.

Macarrão peruano é outro dos produtos alimentícios que vale a pena importar (Foto: Arison Jardim/Secom)

Macarrão peruano é outro dos produtos alimentícios que vale a pena importar (Foto: Arison Jardim/Secom)

O maior problema é questão de os caminhões voltarem vazios. Quando os negócios estiverem mais concretizados e os caminhões que vierem cheios retornarem cheios também, o preço do frete deve cair. Além disso, pouquíssimas empresas estão habilitadas para o transporte internacional. Pedro ainda revela que existem as medidas protecionistas. “O próprio mercado tenta se defender das importações.”

E o que vai…

Não raramente, quem dirige pela BR-317 pode dar de cara com uma cena no mínimo incomum – grandes caminhões, sem cabine, sendo transportados por um único homem sentado nele a céu aberto e usando capacetes. São caminhões e ônibus produzidos pela Volkswagen, que saem de Resende, no Rio de Janeiro, direto para as maiores cidades peruanas, inclusive Lima, a capital, no Oceano Pacífico, onde termina a Interoceânica.

Outras empresas como a Marco Polo, Neo Bus e Rontan, que produz caminhões especiais, também estão levando seus produtos do sudeste para o Peru através da Interoceânica. O agente aduaneiro Rafael Pimpão conta que só da Neo Bus, 63 novos veículos de um único modelo foram entregues no final do ano passado. Ao todo são em média dez veículos por semana para entrega pela fronteira.

Caminhões com cabine e sem, além de ónibus, atravessam a fronteira em direção ao país vizinho (Foto: Angela Peres/Secom)

Caminhões e ônibus atravessam a fronteira em direção ao país vizinho (Foto: Angela Peres/Secom)

Francisco Braz, o chefe da Receita Federal em Assis Brasil, também conta que é comum serem vistos caminhões carregados de castanha e milho atravessando a fronteira, mas a Sedens não possui registros desse tipo de comércio, que pode estar sendo realizado ou por empresários de outros estados, ou de forma ilegal, sem os trâmites burocráticos exigidos. Para Rafael Pimpão, “Tem mais empresas de fora de olho nesse corredor do que as empresas acreanas”.

Ainda assim, a maior cooperativa de produtos alimentícios do Acre, a Cooperacre, se prepara para sua primeira exportação via BR-

Polpa de açaí será enviada para o Peru pela Cooperacre (Foto: Sérgio Vale/Secom)
Polpa de açaí será enviada para o Peru pela Cooperacre (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Polpa de açaí será enviada para o Peru pela Cooperacre (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Gargalos a superar

A estrada Interoceânica, principalmente em seu lado peruano, esta praticamente novinha em folha. Possui poucos buracos no asfalto, nem uma curva sem sinalização, nem um “olho de gato”  faltando. Mas a neve e a neblina são frequentes. E subindo a Cordilheira dos Ades, a sequência de curvas é inacreditável. Para descer dos 4.735m de seu ponto mais alto até a floresta, a via serpenteia numa sucessão infinita de dobras pelas encostas da cordilheira.

Ainda assim, é possível viajar quilômetros sem ver uma única alma viva e o movimento de veículos de carga ainda não é tão grande. A estrada é apenas um meio. Falta muito a superar para que a integração realmente se consolide.

O empresário Márcio Rebouças é especialista em comércio internacional. Ele utiliza o porto de Manaus para descarregar as sacas de cimento que traz da República Dominicana e lamenta não poder realizar seus negócios pela BR317. “Eu tento importar cimento pela estrada desde 2009, mas não foi pra frente principalmente devido ao preço do frete. O cimento em si chegou a ser negociado em um ótimo preço”.  Até mesmo sua experiência com a importação de alho resultou numa série de problemas alfandegários e um prejuízo de 45 mil dólares.

Márcio Rebouças explica que trabalhar com comércio internacional não é fácil e envolve riscos (Foto: Angela Peres/Secom)

Márcio Rebouças explica que trabalhar com comércio internacional não é fácil e envolve riscos (Foto: Angela Peres/Secom)

Jair Santos, da Sedens, reforça: “o comércio internacional não é simples e por aqui tudo é muito novo”. Para ele, o principal problema é o transporte. Além dos problemas de frente que precisa ser de “ida e volta”, poucos empresários tem transportadoras habilitadas a entrar no Peru. “Nós pegamos os acreanos donos das empresas de transporte e levamos para conhecer o Peru, vislumbrar as oportunidades de negócio. Gostaram, mas ainda assim não estão despertados para aproveitar esse potencial”. O governo federal autorizou 800 novas habilitações para transporte internacional e o governo estadual está estimulando os transportadores acreanos a pegarem essa oportunidade.

Até mesmo questões pequenas interferem no comércio internacional como as barreiras impostas pelo idioma, a própria burocracia e a falta de empreendedorismo e agressividade no mercado econômico para investir. Segundo o próprio Jair, “o acreano tem medo do desconhecido”.

Expectativas binacionais

Tudo isso é apenas um pontapé inicial. A vida dos acreanos deve melhorar ainda mais com a chegada de cebolas, tomates, uvas, azeitonas e cimento vindo do Peru. Materiais vindos do Sul e Sudeste brasileiro, lugares distantes, que encarem os produtos e os desperdiçam no caminho. Mas ainda há espaço para negócios ainda mais complexos.

Esmerindo Neto sonha em trocar o sal vindo do mar brasileiro pelo da rocha chilena (Foto: Arison Jardim/Secom)

Esmerindo Neto sonha em trocar o sal vindo do mar brasileiro pelo da rocha chilena (Foto: Arison Jardim/Secom)

É o caso do empresário Esmerindo do Valle Neto, que trabalha com sal bovino há 11 anos no Acre. Comprando 300 toneladas de sal por mês, Esmerindo sonha em deixar de comprar o sal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, para pegar direto do porto de Matarani, no Peru. “É um sal que vem do Chile direto para o porto peruano. Enquanto o sal brasileiro sai do mar, o deles sai da rocha, com um índice de pureza extraordinário, 99,9% seco”.

O sal que vem de Mossoró custa de 50 a 60 dólares a tonelada. Com os impostos fica R$ 340 a tonelada, com o transporte, passa a ser de R$ 440. No Peru o preço por tonelada com transporte fica R$ 470, com todos os impostos passa para R$ 580. A luta de Esmerindo é para conseguir isenção de alguns impostos, como o ICMS. E Esmerindo é enfático, “Por que comprar do Peru é mais vantajoso mesmo pagando um pouco mais caro? De Rio Branco para Matarani são pouco mais de 1.329km. Já de Mossoró para Rio Branco são 5.200km. São dez dias para vir de Mossoró e dois dias para vir de Matarani”.

Há expectativas fortes para que em breve também comece a exportação acreana de frango, peixe e, principalmente, carne de porco, através da granja de suínos Dom Porquito, montada principalmente com o objetivo de comércio internacional através da BR-317.

A estrada tem um potencial gigante para o turismo entre os dois países (Foto: Diego Gurgel/Setul)

A estrada tem um potencial gigante para o turismo entre os dois países (Foto: Diego Gurgel/Setul)

E além de todo o comércio, há outro gigantesco potencial através da Interoceânica, o turismo. Em uma contagem não oficial, o chefe da Receita Federal em Assis Brasil conta que hoje, cerca de 400 pessoas por dia passam pela fronteira. Para ele, “Não  é pouco. Em janeiro e no período do carnaval, esse número passou para 700 pessoas por dia”.

Mas é necessária atenção. A falta de informações ainda pode ser uma inimiga para os turistas. É uma obrigação dos viajantes prestar declaração do que esta transportando no posto da Polícia Federal, por exemplo.

Assim, a BR-317 se mostra mais do que uma grande expectativa de negócios, mas de realização de sonhos, tanto pequenos, como o de conhecer outro país e sua cultura, como os de grandes, finalmente alavancar a economia acreana.

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