E a saúde mental, tá OK?

A Organização Mundial de Saúde faz o alerta de que uma crise global posterior ao coronavírus irá abalar a humanidade devido à fome, à miséria, às perdas financeiras, às notícias sobre doença e morte, ao medo do contágio, à violência doméstica e ao isolamento social, e que o impacto da pandemia sobre a saúde mental da população é considerado preocupante. Os públicos atingidos são variados, mas destacam-se especialmente crianças, jovens e profissionais da área da saúde que estão na linha de frente de combate à doença.

Atualmente, segundo o documento divulgado pela OMS esta semana (leia o documento na íntegra clicando aqui), a depressão afeta 264 milhões de pessoas em todo o mundo. Um em cada cinco indivíduos está em sofrimento psicológico por algum motivo. O relatório afirma que, antes da pandemia, algumas comunidades no mundo ofereciam acesso a um serviço satisfatório de saúde mental. Durante a pandemia muitos deles foram suspensos. Depois da pandemia, isto tende a piorar, porque não só as pessoas que já sofriam de algum tipo de doença ou transtorno mental precisaram parar seus tratamentos terapêuticos ou acompanhamentos médicos para evitar o contágio, como agora estarão junto a elas outras milhões com necessidades específicas geradas pela crise do coronavírus.

Há exatos dois meses, no dia 17 de março, assumi o distanciamento social ficando em casa por recomendação das autoridades de saúde e do governo do Acre. Fui liberada de ter que ir para o meu local de trabalho e passei a desenvolver a minha atividade laboral de casa mesmo, in home office, todos os dias. As aulas e atividades gerais dos meus filhos também foram suspensas naquela terça-feira e ainda confusos, mas confiantes, iniciamos essa jornada que todos passaram a chamar de quarentena.

No início observava o movimento e decidi agir, em todos os aspectos, como um corredor de maratona, apesar de nunca ter participado de uma prova dessas (e de nenhuma outra ainda). O planejamento que esses atletas constroem para vencer este tipo de corrida é interessante e eu queria copiá-los. Alguns deles geralmente economizam a energia física no início para acelerar nos momentos finais, quando todos estão cansados. Eu não estava competindo com ninguém a não ser comigo mesma. E posso dizer que é uma super competição “mores”, daquelas que ou se vence ou se vence.

Usei um mecanismo de defesa chamado prudência para buscar a Deus acima de todas as coisas, manter a casa firme, pagar as contas, não me desesperar por causa delas, nem do excesso de informação sobre o vírus, trabalhar, cuidar de mim, dos filhos, de alguns amigos, dos nove gatos (seis deles filhotinhos recém-nascidos) e, com todas as minhas forças, preservar e cultivar a saúde mental.

Enquanto a maioria falava em redobrar o cuidado com a higiene das mãos, usar máscara, e eu também fazia isso, pensava que nós deveríamos higienizar e proteger a mente. Defendo que este é o bem mais precioso. A saúde mental gera organização de ideias, que gera atitudes positivas, capacidade de enfrentar grandes dores ou privações – situações típicas do momento pelo qual passamos – resiliência, mas muitas vezes a saúde mental é gerada pela fé, não a fé religiosa, mas a crença de que algo que não vemos está à frente e coopera para o bem.

Nas primeiras semanas, OK. A checagem dos itens prioritários conferia. Mas nem sempre tudo sai como o planejado. Em alguns momentos, há sobrecarga por excesso. De tarefas, de preocupação, de vontade de ajudar os outros e não poder, por exemplo. Há sobrecarga pelas faltas, pelo que não conseguimos fazer e o corpo pode sofrer uma pane. A mente também. No meu caso, a mensagem que eles me enviavam era a de que eu precisava parar, olhar para dentro, cuidar da minha mente, das minhas emoções e vi quanta gente está enfrentando as mesmas batalhas.

Em seguida, a pressão causada pelo futuro incerto e pela ansiedade, não só minha como de muitos ao meu redor, começou a pesar. Decidi me excluir de grupos no WhatsApp, reduzi ao máximo o acesso à internet, a leitura de más notícias e me afastei até de pessoas que pudessem abalar meu ânimo ou minha sanidade mental. Não por elas, por mim. Me voltei realmente para a ideia de ficar em casa. De me descobrir, de me reinventar, de ressignificar alguns projetos e valores. Percebi um movimento nesse sentido vindo de outras pessoas e entendi que havia um desejo e uma luta pela autopreservação.

Em nenhum momento pensei que a autoajuda deveria ser individualista ou egoísta. Deveria ser coletiva, solidária, mútua, uma via de mão dupla. Nada de sair por aí desabando ou desabafando nos ouvidos alheios como se esse alheio não estivesse também passando por sofrimento, perda, privação, dúvidas. É momento de cada um colocar sua própria máscara de oxigênio antes de socorrer o próximo. É o certo a se fazer.

Hardware sim, software não

A gente sabe que há um preconceito velado sobre a atenção e o cuidado sobre a saúde mental, como se a mente não fizesse parte do corpo, como se todas as enfermidades concentradas no hardware fossem permitidas e aceitas, as do software, não.

Países como o Líbano, Egito, Quênia, Nepal, Nova Zelândia, por exemplo, tomaram medidas de suporte psicológico e ações de saúde mental para atender os cidadãos. No Acre, o governo do Estado criou um grupo de apoio formado por psicólogos para dar assistência e acolher as famílias dos pacientes com Covid-19 internados, e também os pacientes após a alta.

O convívio e a interação social são aliados no combate e no tratamento de doenças psicossomáticas, ação recomendada por psiquiatras e psicólogos. Como fazer então, agora que estamos todos distanciados para nossa proteção? Além da fé de cada um, ajuda partilhar, interagir sempre, mesmo que em escala menor, com pessoas de confiança, com grupos de amigos, grupos religiosos, de pessoas que coadunam de pensamentos/sentimentos similares, nos quais não haja muita hostilidade, de preferência. Esta pode ser uma alternativa.

Como o Centro de Convivência e Cultura Arte de Ser, por exemplo, política pública que de forma presencial reúne pessoas no Parque Capitão Ciríaco às quartas-feiras e que, agora neste tempo de distanciamento social, mantém um grupo no WhatsApp para troca de experiências, vivências e produção de arte on-line. No grupo formado por profissionais da área de saúde mental, usuários do serviço e familiares, é questão de urgência a discussão sobre como ficarão as ações e os serviços de saúde mental, as estratégias de cuidado pós-pandemia. O sentimento é de que é preciso começar a pensar agora no que fazer em futuro breve, como uma força-tarefa.

Quanto a nós, no nosso hoje sem amanhã possível de enxergar, nos resta cautela, cuidado, respeitando as nossas fragilidades e até nos impondo um pouco de fragilidade para conseguir superar. Penso que uma sociedade doente mental e emocionalmente não prospera, mesmo que haja prosperidade econômica. Rir é, sim, um excelente remédio. Os memes estão aí pra confirmar isso. Distraia-se. Leia livros, cante, dance, plante, cozinhe, estude, tome uma atitude, faça algo não feito antes. Não há uma receita padrão. Como dizia minha mãe: “Cada um sabe onde seu calo aperta”.

Quanto a mim, vou continuar usando o planejamento de alguns maratonistas para viver um dia de cada vez, pisando firme, mas devagar agora, pra quem sabe lá na frente ter força pra atravessar a linha de chegada.

E a sua saúde mental, está OK?

 

Golby Pullig é jornalista e revisora do site Agência de Notícias do Acre.