Conexão com os objetos

Por Milton Chamarelli Filho*

Sempre me intrigou o fato de os objetos não terem vida. Quase toda pessoa que vive em um lugar por muito tempo já deve ter se questionado sobre a existência em seres inanimados, ainda que não confesse, por achar isso coisa de gente lunática. Ouso dizer que os objetos têm vida porque eles significam, ainda que não saibamos o que eles representam e de que forma o fazem, como aconteceu com a Pedra de Roseta.

Essa parte da comunicação que me semelha amputada pelo fato de estar diante da coisa “em si” parece descartar toda história da percepção e da apreensão transitiva dos objetos, uma vez que olhar já modificaria a forma das coisas e de se apossar delas. ​

Há todo um conjunto de átomos e moléculas que formam a matéria obstinada que, uma vez percebida e trabalhada, nos diz sobre o que ela é. Em “2001: uma Odisseia no Espaço”, de Kubrick, numa das cenas mais notáveis da história do cinema, um macaco segura o osso, até então osso, em seguida passa a usá-lo como uma espécie de martelo, arma, que, a partir daí, tornar-se-á, numa espécie de mágica de Méilès, uma nave espacial.

Essa cena, também chamada “A Alvorada do Homem” consegue reunir em pouquíssimos frames a história de toda a humanidade. De um objeto sem vida ao que seria, na época, considerado o auge da tecnologia, a conquista espacial. Uma paráfrase ou paródia dos “vales dos ossos secos” (Ezequiel: 37) para o sopro de vida que emerge da tecnologia e transforma todos os objetos em seres mutantes, replicantes e cheios de vida e que por isso só fazem sentido num mundo em que os seres inanimados precisam conversar entre si: dos maquinários e das peças das indústrias — e tudo o que essas produzem — aos sistemas inteligentes.

​Da ausência de significação à exacerbação de uma civilização que quer significar além porque não pode haver um universo vazio, oco, porque a não significação é a ausência de toda vida.

Não toleramos a ausência de sentido, por isso especulamos tanto sobre a morte e o universo. Um universo sem som para uma espécie que tem com a sonoridade a sua primeira e talvez última experiência sensorial. Porque a audição é o último sentido a fenecer.

Pascal assevera, nos anos 1.600, que o silêncio dos espaços infinitos o apavora. Hoje, o espaço dos bits também nos assombra porque talvez ele simule nosso avatar perfeito, por ele ser já O Objeto, independente de mim, que tem uma consciência replicante, mas também “autêntica” de um ser de si.

Mas é pela visão que queremos, em vão, demarcar um sítio num universo de sites das redes sociais. Quanto mais escrevemos e citamos e republicamos textos e imagens mais sofremos com uma objetualidade de um espaço sem corpo que precisa transbordar a mancha tipográfica invisível para cada vez mais tentar chegar ao Sentido. Em vão também, porque quanto mais nos aproximamos do objeto, mais ele nos escapa (Santaella). É como se estivéssemos em “mise en abyme” –; tocamos no espelho e, quando vamos ver, em um segundo momento, nossa imagem já se multiplicou ao infinito.

Em outra instância, a arte chamada moderna sofreu tantas críticas, por exemplo, o Quadrado Negro de Malevich, por expor a sua pura materialidade, daí o erro de se se chamar a arte desse período “abstrata”, como notou Santaella. Porque o homem comum vê nela a ausência de significado, acostumado ao peso da figuratividade dos períodos da arte que a precederam e à ascensão da fotografia. É esta ainda que ancora o homem ainda no peso da realidade, trazendo de volta as imagens dos entes queridos que vão se esmaecendo pelo tempo, emoldurados, e que vão perdendo a sua referência e ganhando quase o estatuto da roseta stone, ao serem levados para uma feira de antiquários, perdida em qualquer metrópole, paradoxalmente, repleta e vazia de sentido.

A Renascença veio para marcar a presença do homem, enquanto a Modernidade veio para marcar a sua total prescindibilidade, um homem cujo discurso não é seu, mas do inconsciente. Um eu que não pertence a si próprio, mas ao discurso do outro, das ideologias, e que se deixa morrer em uma vala comum de significado na Segunda Grande Guerra Mundial, nos regimes capitalistas e nos regimes totalitários. “A banalidade do mal” e banalização do Homem tornam-no homo objecto.

Nessa equação, é o homem que se iguala às coisas tornando-se insensível. Ele deixa de olhar para as coisas para olhar para si próprio e tentar buscar sentido no vazio, no oco da existência. Não será esse o sentido de O Grito, de Munch, semelhante ao que disse Pascal? Estamos perdidos e sós, e quem vem nos acudir? Que mão cálida nos pegará e nos colocará no centro da estante para enfim ficarmos no lugar do ob-jeto?

Os objetos significam porque representam, até aqueles que nos parecem “nojentos” ou disformes também, porque foram classificados por um diapasão de gostos. Por isso eles chocam a alguns, porque há uma educação dos bel-prazeres de uma determinada classe que determina os gostos.

Mas essa clave cai abaixo, quando, por exemplo, vivemos a pós-modernidade e os objetos vão ocupando cada vez mais os espaços da arte e do quotidiano, quando essas fronteiras se misturam. Diferente da arte tradicional em que se atestava a presença de algo ou alguém, a arte pós-moderna nega esse atestado e alça o objeto simples à condição de arte. Crítica?

​Ao contrário do que se poderia pensar, os objetos não alcançaram outro patamar na história do homem ou das artes porque eles permanecem sendo a continuação de um pensamento obstinado de que qualquer “cultura” (micro ou macro) É: um pensamento obstinado sobre nós mesmos, um mapa do que fomos, do que somos e do que seremos, ainda que eles possam mudar de valor de uma época para outra.

E, mesmo que sejam sopesados com um valor inferior, continuarão resistindo, vivendo; muitas vezes, ocupando aquele campo da invisibilidade habitual, de quando passamos por eles, mas não os notamos. Somos, enfim, objetos olhando para objetos.

*Milton Chamarelli Filho é professor titular da Universidade Federal do Acre (Ufac) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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