Baixo custo

Pelo título, o leitor talvez possa deduzir que eu falarei de economia, do preço da carne, do óleo ou da gasolina. Não, falarei de um sentimento de algo que me afeta há muito: a inveja. Ao final do texto, creio que ficará clara a escolha do título.

A princípio, eu diria que a inveja não tem explicação, mas, como para quase tudo nesse mundo há um esclarecimento, eu vou tentar, na condição de semioticista, aclarar um pouco o seu significado. In videre é a expressão latina significa “não ver”.  O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes, a define como “vontade de não ver, por despeito”.  Sigamos.

Leandro Karnal – que já especulou sobre o significado da palavra – afirma em numa rede social que “o invejoso não vê as suas conquistas, apenas se contorce pela conquista do outro”.  Vou um pouquinho mais diante e digo que a inveja é contraparte da admiração (cuja etimologia é “olhar”, “espantar-se”).

Ninguém inveja se antes (ou ao mesmo tempo) admira ou já admirou alguém: seja por uma característica, como um traço da beleza fisionômica de Branca de Neve (admirada antes pelo espelho da rainha má), seja por uma habilidade, como a que Antonio Salieri teria de Mozart, seu contemporâneo, seja por uma posse, como no caso do episódio bíblico de Esaú e Jacó, pelo qual se toma conhecimento da predileção de Isaque por Esaú, pela primogenitura. Esaú era também mais admirado pelo pai, Isaque, daí a inveja de Jacó, que ludibriou o pai, fazendo-se passar pelo primogênito e ganhando assim a bênção do filho de Abraão.

A passagem bíblica exemplifica um dos sentimentos mais primitivos do homem e no homem. Melaine Klein identificou o sentimento de “inveja do seio”, quando o bebê apercebe-se dependente da sua única fonte de alimentação. Se se fica verde de inveja ou se a grama do vizinho é mais verde do que a nossa, o certo é que a invídia faz parte daquelas instâncias paradoxais que nos tornam humanos, aquela sensação mista de autoabominação por comiseração e o desejo incontido de ter o que outro tem.

O capitalismo e seu braço forte, a publicidade, beneficiou-se muito da inveja porque se apropriou da “característica” e da “habilidade” e reduziu-as à posse. Para ser igual ao Neymar, preciso ter um tênis igual ao dele. Para ter a beleza de Brad Pitt, preciso fazer dezenas de plásticas para ficar igual a ele, como foi o caso do ator Reid Ewing, de Modern Family. Diz-se também que, na emergente Barra da Tijuca, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, basta que um morador de um condomínio fechado compre um carro novo para que todos os demais sigam o séquito de aquisições.

No mundo das cópias e das posses das cópias que podemos ter, a única reprodução que não pode ser feita é a do ser humano, exatamente como ele é, porque somos insubstituíveis. Pensar que podemos ser trocados é se colocar como um objeto na linha de produção. Você é um objeto, logo pode ser trocado e pode fazer parte da cadeia de consumo que se alimenta do fato de você poder ser reificado, como quase tudo. Essa crítica também pode ser observada em “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin.

Tom Jobim identificou bem o sentimento de inveja ao dizer que “sucesso, no Brasil, é a pior das ofensas pessoais”. Talvez sim, talvez não; eu relativizo a célebre frase do maestro. Qual de nós não sentiu aquele misto de admiração e inveja, a ponto de a chamarmos de “inveja boa” ou, incorretamente, “inveja branca”, talvez por não querermos admitir que temos admiração por algo ou alguém? Tive e tenho admiração por muitos ex-professores, por isso procurei copiá-los nos que eles tinham e têm de melhor. Talvez tenha herdado deles também alguns dos seus poucos defeitos, é certo, mas também fossem falhas minhas ali, veladas, que precisavam de um gatilho para serem afloradas, confesso.

Como um dos pecados capitais, que devem, por serem pecados, ser abrandados da nossa natureza humana, quem nunca sentiu um pouco de gula, preguiça, vaidade, luxúria, ira e avareza?  É certo que não seremos os personagens de Seven, que personificam cada um os sete pecados e que na verdade são o guia didático que a Igreja Católica criou para se cumprir os Dez Mandamentos. Mas um pecadito aqui, outro ali parecerá como aquele pedaço de chocolate a mais que você degustou, sem culpas.

Foi diante de tantos impasses que me vi quando convidei um casal a ir até a minha casa, há dez anos, e, ao observarem as portas simples e sem verniz da casa deste que vos escreve, sem dizer nada antes, sem fazerem sequer um elogio, disseram quase em uníssono e em tom categórico: “Baixo custo!”. In videre? Sigamos!

Milton Chamarelli Filho é professor titular da Universidade Federal do Acre (Ufac) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo