Assis Brasil volta a ser a principal porta de saída das exportações acreanas após 9 anos

Por Marky Brito e Joquebede Oliveira*

O desempenho da balança comercial do Acre em fevereiro de 2026 consolida uma mudança de paradigma na logística de exportação do estado, ao mesmo  tempo em que sinaliza a resiliência da produção local diante de um cenário  global de incertezas. Segundo dados do mais recente Boletim de Comércio Exterior, divulgado pela Secretaria de Estado de Planejamento (Seplan), o mês registrou um superávit comercial de US$ 8,27 milhões, mantendo a série ininterrupta de saldos positivos que caracteriza a economia externa acreana. 

O destaque técnico mais relevante do período foi a inversão dos canais de escoamento. Pela primeira vez desde 2016, a via rodoviária superou a marítima, tornando-se o principal canal de saída das exportações, com 65,1% de  participação (US$ 5,5 milhões). Esse avanço está intrinsecamente ligado à  intensificação das trocas comerciais com o Peru, que absorveu 60,4% das  vendas mensais do estado. A Unidade da Receita Federal (URF) de Assis Brasil consolidou-se como o eixo estratégico desse movimento, respondendo sozinha por 60,8% do escoamento estadual, especialmente de castanha e carne suína. 

A pauta exportadora de fevereiro apresentou uma alteração importante na  liderança: a castanha ultrapassou a carne bovina, concentrando 42,2% das vendas (US$ 3,55 milhões). A carne bovina (21,3%) e a carne suína (17,5%)  completam o tripé de sustentação. No âmbito municipal, Brasileia reafirmou sua  hegemonia, ao exportar US$ 5,19 milhões, impulsionada pelo comércio  fronteiriço, seguida por Senador Guiomard e Epitaciolândia. 

Apesar dos avanços logísticos para o Pacífico, persistem entraves técnicos que  limitam a competitividade regional. A manutenção da BR-364 permanece como  um ponto crítico devido à sua vulnerabilidade sazonal, elevando os custos de frete dos produtos oriundos do Vale do Juruá. Adicionalmente, as estruturas  alfandegárias nas fronteiras com Peru e Bolívia ainda carecem de maior digitalização e agilidade operacional para evitar gargalos no tempo de despacho. A conclusão de obras como o Anel Viário de Brasileia é apontada como fundamental para a fluidez das cargas pesadas. 

O desempenho acreano ocorre em um momento de extrema instabilidade internacional. O agravamento das tensões e o estado de guerra entre Irã, Estados  Unidos e Israel impõem desafios diretos ao comércio global, afetando os custos  de combustíveis, seguros marítimos e a estabilidade das moedas. No Acre, as  especulações e a alta no preço dos combustíveis pesam ainda mais sobre a economia local, agravando o cenário de um estado que já enfrenta um dos maiores custos de transporte do país.

O cenário reforça a importância estratégica da integração sul-americana e da rota rodoviária como alternativa às incertezas das rotas transoceânicas. A  diversificação de parceiros, com foco nos mercados andino e asiático, funciona como um mecanismo de proteção contra oscilações bruscas em mercados tradicionais da Europa e do Oriente Médio. 

Em termos acumulados, os dois primeiros meses de 2026 somam US$ 17,52 milhões em exportações, um crescimento de 15,6% sobre o mesmo período de 2025. A manutenção do crescimento dependerá da continuidade dos investimentos em infraestrutura e da modernização aduaneira, garantindo que o  dinamismo observado em fevereiro se transforme em um ciclo de  desenvolvimento sustentável de longo prazo. 

Acesse aqui o Boletim do Comércio Exterior de fevereiro/2025. 

*Marky Brito é engenheiro florestal (UFRA) com MBA em Gestão de Projetos (FGV); é diretor de Desenvolvimento Regional da Secretaria de Estado de Planejamento (Seplan)

*Joquebede Oliveira é economista (Ufac); é chefe da Divisão de Estatísticas e Monitoramento de Indicadores da  Seplan

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