A volta às aulas numa visão platônica

O começo do ano letivo se avizinha e, para a juventude dos dias atuais, as expectativas pairam no ar, a começar pelo friozinho na barriga, saber quais são os professores, o desejo de rever os amigos e conhecer os novos; afinal de contas, a escola não é apenas um espaço de leitura e cálculos matemáticos, ela reserva um lugar, também, para a socialização e, em especial, deverá acolher aqueles estudantes excluídos socialmente. Na escola, todos devem ser iguais, como diz a Carta Magna de 1988. Outros atores importantes na volta às aulas, são os pais, avós e tios, figuras presentes que servem como pilares de sustentação na construção do saber, afinal de contas, com a ausência deles, a educação se assemelha a um artista, sem pincel e tinta para colorir “o todo”.

Aos homens ditos “maduros” como eu, só resta saudade dos tempos dos bate-papos nos corredores da escola Ana Turan Machado Falcão (antiga escola de Magistério), no Segundo Distrito, e do aroma de caderno novo, do lápis, da borracha e da mochila, tudo isso traz lembranças que fazem dos olhos uma cachoeira. Isso porque, na década de 90, era divertido ver as meninas pularem corda, brincarem de amarelinha, ao tempo em que eu, um menino franzino e sofrido, participava dos jogos de peteca com a garotada, mesmo sentindo os puxões de orelha da minha amada professora de português Mariazinha, quando eu gazeteava suas aulas. Tudo era engraçado na minha adolescência, principalmente os arrepios que sentia, provocados pelo ruído do giz no quadro negro, quando meu professor de matemática Carlos Henrique grafava as equações e inequações, que me deixavam extasiado com sua tamanha destreza e domínio em ministrar um conteúdo que para mim era tão recôndito. Ao mesmo tempo em que tenho saudades de meus bons professores, quase todos esculpidos em meu coração, procuro esquecer os dias difíceis que eles passavam, como meses de salários atrasados, oriundos do descaso estatal para com esses laboriosos docentes. Foram anos difíceis, afinal de contas se o professor sofre, sofrem também os alunos e, concomitantemente, a sociedade também adoece.

Lembranças à parte, a frase platônica “O começo é a metade do todo” cabe muito bem no início deste artigo, afinal de contas, hoje os tempos são outros. A política muda, nossos representantes também, e com eles os recursos e métodos se alteram, influenciados pelo avanço da robótica, informática e da cibernética. É uma visão embaçada, como quem olha pelo espelho e avista tudo turvo. Mas, se olharmos bem, veremos homens e mulheres trabalhando e, muitos deles, de forma silenciosa, sem os holofotes da mídia, visando criar e recriar um novo modelo e técnica para educar melhor a juventude. Nesse cenário, há gente brilhante que propõe uma nova maneira de olhar os atores e o espaço escolar, dando-lhes uma nova roupagem e estendendo a mão para auxiliar no processo educativo e criativo. Todavia, nesta análise, a força motriz de mudança e apoio a estas brilhantes figuras é o Estado que, ao ser mantido pela arrecadação de impostos de seus cidadãos, deve produzir cidadania para seus habitantes, e uma delas é a educação de qualidade, algo muito abstrato em ambientes de outrora. Alguns gestores de pouco preparo, acabaram desvalorizando o magistério, tantas outras chagas eles deixaram que, até os dias de hoje, afligem nosso sistema educacional brasileiro.

Neste sentido, o governo Cameli cria caminhos profícuos, dá sinal positivo de que a educação é uma de suas prioridades, idealiza medidas enérgicas para melhorar os sistemas de ensino e propõe a ampliação e melhoria da rede escolar. O Governo do Acre, através da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes (SEE), começa o ano tomando atitudes para nossa educação, inicialmente, de forma humanista, na medida em que oferece uniformes escolares gratuitos, melhora e amplia o número de refeições nas escolas, oferecendo merenda e almoço por turno, sob os olhares atentos de excelentes nutricionistas. Uma outra medida é a de cuidar da saúde do professor, através do projeto “Corpo, Mente e Voz”, possibilitando consultas gratuitas aos docentes e colocando à disposição dos professores vários profissionais, como psicólogos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos, buscando a prevenção de doenças característica da profissão. A valorização salarial dos professores, por meio da incorporação do Prêmio de Valorização de Desempenho Profissional (VDP), vem estimular os profissionais da docência. A capacitação dos profissionais da educação é visível nos cursos oferecidos pela SEE como o de pós-graduação (latu sensu) e o da Universidade Aberta do Brasil (UAB).

A adequação do currículo à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é algo que está sendo feito, de forma gradativa e com muita responsabilidade, respeitando as vivências culturais de nossos alunos e suas limitações, propondo a participação ativa dos docentes e discentes na construção dos saberes, buscando democratizar e flexibilizar, com mais precisão, os processos que norteiam um ensino de qualidade, propondo a criação de uma ouvidoria mais eficiente e que seja mais produtiva e atenta ao grito dos excluídos.  Atua na política de incentivar os alunos a frequentarem as escolas mais próximas de suas residências, possibilitando um maior dinamismo de segurança e um convívio social mais afetivo junto a seus pares. Tal incentivo, deve ser considerado positivo, na medida em que aproxima o espaço, o tempo e os personagens da própria vivência histórica do aluno e, sobretudo, buscando uma “aproximação crítica da realidade” (Freire, 1980, p. 25).

A construção de novas escolas civis e militares com arquitetura inclusiva, como também a reforma de cerca de 230 colégios na zona rural e a aquisição de 100 novos ônibus escolares, já desenham o planejamento do saber. Todas essas iniciativas dão norte ao governo Cameli, no sentido do atendimento aos alunos que procuram tanto uma escola que tenha boa acessibilidade, bem como um transporte escolar de qualidade, e isto é cidadania para a juventude. Os processos de ampliação da climatização das escolas estaduais também estão previstas no planejamento da SEE e, este ano, o Viver Ciência estará presente em todos os municípios de nosso estado. Este brilhante Viver Ciência, com os trabalhos apresentados por alunos da rede pública de ensino, possibilita o surgimento de perguntas por parte dos visitantes, afinal de contas, segundo Rubens Alves, “ciência é feita com perguntas, não com as respostas”. Deste modo, um aluno ideal é aquele que é capaz de fazer mais perguntas do que dar respostas, pois o óbvio já está inserido nos livros.

Tais medidas na área da educação, sem dúvida nenhuma, mostram que os investimentos estão sendo aplicados, e nos trazem a esperança de que, este ano, a educação de nossos filhos terá visão de futuro, porque educadores, a exemplo de Mauro Sérgio Cruz, estarão sempre atentos, buscando aprovar os acertos e sempre dispostos a corrigir os erros, como um bom professor que pensa e mede o que vai fazer, nunca se conforma com o “quase” e como a educação que, para ele, é “tudo”. É claro que não deveremos nos conformar com o “quase tudo”, afinal de contas, uma das maiores armas para eliminar de vez a criminalidade ainda é a educação, por isso ela é “tudo” numa sociedade.  Portanto, sabendo que “O começo é a metade do todo”, acredito que o governo já começou resolvendo uma boa metade do todo e uma destas partes é a educação.

Boas aulas alunos, professores e gestores. Tenham um excelente ano letivo!

 

Enilson Amorim de Lima é graduado em história, com especialização em Docência do Ensino Superior e membro da Academia Acreana de Letras (AAL), cadeira de número 07