2020: Um ano de muita aprendizagem

Tenho visto muita gente publicar nas redes sociais que 2020 é um ano para ser esquecido. Outros mais radicais advogam que esse ano “não existiu”. Eu penso exatamente o contrário. Esse ano que está terminando trouxe grandes ensinamentos para a humanidade e não deve ser esquecido jamais. Isso se os seres humanos se dispuserem a corrigir o rumo das civilizações e não continuarem a cometer os mesmos erros.

Karma é uma palavra em sânscrito que significa ação. Existe toda uma filosofia milenar em torno dela que se chama Vedanta. A base desse conhecimento contido nas escrituras sagradas hindus é que toda ação (karma) gera uma consequência da qual não é possível fugir. Se as nossas ações forem corretas (dharma) então vamos colher os frutos da bem-aventurança. No entanto, se agirmos de maneira destrutiva iremos enfrentar as consequências. A Covid-19 é a reação da natureza contra uma série de crimes que têm sido praticados de maneira inconsequente.

Tentar politizar o surgimento do coronavírus com supostas conspirações da esquerda ou direita é uma estupidez inominável. Essa destrutiva ameaça invisível surgiu de três fatores: o hábito humano de se alimentar de animais, a destruição da natureza e a miséria social de milhões de pessoas ao redor do mundo. Se retirássemos qualquer um desses elementos dessa equação a gente teria uma força de reação contra essa doença muito maior do que temos tido.

Por exemplo, se não tivéssemos no mundo tantos miseráveis, o número de mortes seria muito menor. Se o nosso meio ambiente não estivesse tão contaminado, a saúde e, consequentemente, o sistema imunológico das pessoas seria melhor para enfrentar esta ameaça. E, finalmente, se os seres humanos tivessem hábitos alimentares mais saudáveis ninguém teria comido carne de morcego e servido de vetor para esse vírus. Vamos lembrar as mais recentes epidemias de gripes que tivemos no planeta: gripe aviária, febre do porco e vaca louca. Todas mortais e com origem no costume de comer carnes de animais.

Então a gente está recebendo uma instrução do nosso planeta com a Covid-19 para mudarmos os nossos hábitos. Muitos ainda estão resistentes e insistem em negar. A “Lei de Gerson” de que temos que levar vantagens pessoais em tudo continua a predominar. Mas aí se esquecem que sem vida e saúde não existe economia e nem riquezas. Vejam o que aconteceu com as bolsas de valores em 2020. A vida é mais importante do que qualquer sistema político e econômico.

Outro fator trazido pela Covid-19 foi o medo. O psicológico de muita gente se destruiu com a ameaça constante. O isolamento colocou cada um de frente consigo mesmo e muitos não suportaram se ver no espelho. Um sinal evidente de que a maioria das pessoas não se conhece. Querem conhecer Deus e todos os mistérios do Universo, mas se negam a conhecer a si próprias. E essa contradição se refletiu nas relações humanas durante a pandemia com muita gente colocando pra fora o pior de si e aumentando ainda mais o sofrimento desse momento.

O lado positivo dessa pandemia foram aqueles que enfrentaram os seus próprios medos para salvarem a vida de outros semelhantes. Tanto os profissionais da saúde que se arriscaram em hospitais quanto sacerdotes, terapeutas, pajés e médiuns que se dedicaram a confortar as pessoas atingidas por um inconsciente coletivo deteriorado pela morte e o medo. Nessa turma coloco ainda alguns políticos que fizeram de tudo para protegerem as suas populações. Mesmo indo contra o senso negacionista que tomou uma proporção insana e se tornou responsável pela morte de milhares de pessoas que poderiam ser salvas se medidas adequadas tivessem sido tomadas.

Para finalizar, devemos continuar atentos tanto ao exterior quanto ao nosso interior. A pandemia, infelizmente, ainda não acabou. Em alguns lugares a segunda onda está ainda pior do que a primeira. A perspectiva da vacina é uma luz no fim do túnel, mas os cuidados precisam continuar porque até que as doses cheguem a cada um muita coisa poderá acontecer. A vida é uma eterna oportunidade de aprendizado. Mesmo nas situações mais difíceis podemos tirar proveito para evoluirmos nessa jornada existencial.

Então que os ensinamentos que recebemos em 2020, por mais dolorosos que tenham sido, sejam aproveitados por cada um para termos um 2021 de bem-aventuranças. Que tenhamos um Ano-Novo iluminado que nos permita mostrar o melhor de cada um de nós, e que a paz pregada pelos grandes mestres da humanidade seja efetivamente construída para que as novas gerações possam viver num mundo de harmonia e amor.

Nelson Liano Jr. é jornalista e diretor da Secretaria de Estado de Comunicação.