Produtos vendidos na beira do roçado

João Cobra e a filha mostram o abacaxi de quase 20 quilos de sua propriedade (Foto: Sérgio Vale/Secom)
João Cobra e a filha mostram o abacaxi de quase 20 quilos de sua propriedade (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Mamão, farinha, abacaxi, açaí e vários outros produtos da alimentação do acreano podem ser comprados ao longo da BR-364 direto do produtor, o que, há uma década, era impensável. A sina era carregar produtos nas costas, no lombo de bois ou simplesmente perder a produção de um ano todo.

“Antigamente era um sacrifício, agora com a BR aí, todo dia o pessoal me liga pra pedir abacaxi”, diz o empolgado agricultor familiar João Ferreira, conhecido como “João Cobra”. Em seus 44 anos de vida e 23 de trabalho na roça, o produtor tem acompanhado o avanço econômico que a estrada traz em seu curso.

João Cobra, nascido e criado no Seringal Boa Esperança, hoje Projeto de Assentamento Tarauacá, onde ainda produz, conta um a um os frutos de seu trabalho diário. Atualmente, com a BR-364, sua produção de abacaxi passou de 500 para 3.500 frutos, todos com venda certa: “Todo santo dia vem um carro aqui, no verão, está cem por cento melhor que antigamente”, conta João, apontando para o ramal que dá acesso ao seu roçado.

A situação melhorou realmente, João percorria 10 quilômetros a pé até Tarauacá para vender seus produtos. “Levava tudo nas costas, chegando lá vendia, fazia a feira e voltava andando”, relata.

“Cansei de vender pamonha nas costas, saia às três da madrugada e ia vender em Tarauacá. Hoje você enche um caminhão de abacaxi, de banana e vai vender em Rio Branco”, conta o sereno produtor, que, além das encomendas que recebe diariamente, negocia com uma cooperativa que vem em seu roçado e sai com a carroceria cheia de frutos para a merenda escolar do município.

Uma cena pouco vista há apenas alguns anos. Em entrevista no ano de 2007, Angelino de Souza contava como perdia sua plantação de milho por impossibilidade de escoar a produção: “Um roçado de milho, por exemplo, não adianta pôr no paiol. Com o tempo o milho vai crescendo, uns vão caindo, e vem o rato e a paca comendo, o prejuízo é de 40 por cento, aí atrapalha a gente demais”.

Para se ter noção de quanto a estrada avançou em tão pouco tempo, há apenas seis anos a perspectiva do produtor era esperar o verão e a raspagem do barro da BR-364. “A gente só vai vender no mês de julho, depois que raspa a estrada, por isso estraga muito”, comenta Angelino, que ainda esperava os meses de sol. “Mas se tiver uma estrada, desde a hora que começa a madurar o legume, você já está vendendo”, dizia o esperançoso produtor, que hoje acompanha o trafego intenso em frente a sua casa.

Manoel Henrique e a família acompanha, da varanda de casa, os avanços da BR-364 (Foto: Sérgio Vale/Secom)
Manoel Henrique e a família acompanha, da varanda de casa, os avanços da BR-364 (Foto: Sérgio Vale/Secom)

A farinha também ganhou mais espaço na renda das famílias de agricultores ao longo da rodovia, trazendo tranquilidade para o produtor. Manoel Henrique de Menezes, um ex-seringueiro de 61 anos, sentado na varanda de sua casa no Projeto de Assentamento Taquari, a poucos metros do asfalto, comenta como foi parar ali e porque continua na zona rural, produzindo farinha, mesmo trabalhando apenas com sua esposa.

“Eu acho bom é morar na mata”, diz o produtor, que acaba de chegar do roçado, “Eu acabei de bater uma banana, ali”. Já se está pensando no descanso mais tarde, que pode ser mais aproveitado longe da cidade: “Lá [na cidade] se vai dormir muito tarde. Se dorme pouco assim, e aqui dá pra dormir tranquilo”.

Certamente a tranquilidade de  Manoel e família ficou mais frequente quando não houve mais o peso do desastre que é a perda de uma produção em seus ombros, “De outubro em diante não andava mais carro não. No inverno não vendia, a gente produzia e tinha vezes que eu ficava com 13, 15 sacas de farinha esperando o verão. Agora é bom porque você faz o produto e já vende na mesma hora”, diz Manoel.

Nos fundos da casa de Manoel, em uma pequena casa de farinha, estão Francisco de Azevedo e Leonardo de Souza, dois agricultores que repartem a produção e lucro da venda de farinha de mandioca. Começaram pela manhã o preparo de cinco sacas de farinha para o dia seguinte, os compradores já são certos, encomendaram, na propriedade, alguns dias atrás enquanto percorriam a BR.

Na beira da estrada, na Comunidade São João, Lote São Francisco, o casal Gevaldo dos Santos e Maria Francisca da Silva, preparam caixas com mamão, abóbora, abacaxi, banana e mandioca, produtos que já têm destino certo. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), uma ação do governo federal, com apoio da Secretaria de Estado de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof), faz a compra direta de diversas famílias, incluindo a de Gevaldo.

Gevaldo, filho de Francisco Hernandes de Souza, que ajudou a construir a 364, conta o peso que carregava para ter sua renda há alguns anos, “No tempo em que a gente ‘caminhava’ arroz, tirava de 60 a 80 sacas nas costas. Levava meio dia, na perna, só para chegar no Rio Liberdade”. Hoje a família aguarda o caminhão da Seaprof chegar e levar a produção, após alguns dias já podem ir de carro, moto ou ônibus, sacar no banco, em Cruzeiro do Sul, os lucros do esforço justo.

Gevaldo dos Santos e Maria Francisca da Silva preparam a produção que será vendida ao PAA (Foto: Sérgio Vale/Secom)
Gevaldo dos Santos e Maria Francisca da Silva preparam a produção que será vendida ao PAA (Foto: Sérgio Vale/Secom)

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