Professor de violino e lavador de carros com orgulho, sim senhor No Cruzeirão, o lavador de carros Francisco Castro de Araújo, 50 anos, tem pressa de entregar o Chevrolet Prisma recém-higienizado. Com a flanela em punho, ele alisa o veículo como se o próprio dono fosse. Na quebrada de um dos bairros mais populosos de Cruzeiro do Sul, lar de mais de quinze mil pessoas de baixa renda, ele toca o seu lava-jato. Neste dia, Francisco foi homenageado pelo violinista Rodrigo Paixão de Araújo, 24, também lavador de carros e seu filho. Hallelujah, reverberou aos ouvidos do homem turrão, mas de um coração imenso. Esboçou lágrimas ao ver o filho tocando o instrumento com a mesma espontaneidade com que sempre o ajudou a lavar os carros. Rodrigo nasceu em Manaus e até os 17 anos conciliou os estudos na escola pública com as aulas de violino no Conservatório Claudio Santoro, na capital amazonense, um dos mais renomados do país. Lá recebia uma bolsa de R$ 260 para estudar música. Nos finais de semana, quando não estava estudando, auxiliava o pai no posto de lavagem. A família retornou a Cruzeiro, quase uma década depois. "E foi aqui, em Cruzeiro, que me falaram do projeto do Ministério Público. Eu topei na hora quando me disseram que eu podia lecionar violino pra meninos e meninas carentes. E a coisa ficou melhor ainda quando me informaram que iriam me dar um emprego no Ministério Público. Nessa hora, choveu no roçado", relembra. Hoje, o jovem professor já não lava mais carros com frequência por causa do ofício de músico. Participa da banda 'Garotos do Sótão'. Deixou um pouco de lado a profissão de lavador de carro, mas não o orgulho de ser flanelinha. "Eu não preciso ter vergonha do que fui. Pelo contrário, tenho muito orgulho do que fiz e mau pai ainda faz, tanto que até hoje, nas horas vagas, largo o violino pra ajudar o velho. Acredito que todos nós devemos nos esforçar por um mundo melhor. E fico muito feliz de ser o que sou, um professor que ajuda crianças e jovens a ter uma ocupação saudável pela música", orgulha-se. E o pai, o que tem a dizer sobre tudo isso? - foi a pergunta Francisco coça a cabeça, cerra as sobrancelhas, deixa cair uma lágrima do olho direito e com a voz já embargada, diz: "Hoje a gente vê ele fazendo essas apresentações. Aí bate um orgulho danado. É uma gratidão daquelas que a gente fala assim: muito obrigado, meu Deus, porque esse moleque nunca me deu problema. Eu só tenho é muito orgulho dele". No momento do registro em vídeo para esta reportagem, jovens curiosos com a nossa presença circulavam ao redor. A observação velada era para mostrar que eles estavam a serviço de uma facção. Um recado traduzido como: "Estamos de olho em vocês. Cuidado com a gente". Como em toda cidade de fronteira, bairros considerados populosos como o Cruzeirão foram tomados por organizações criminosas. O Grupamento Especializado em Fronteira, o Gefron, recém-criado pelo Governo do Estado do Acre, já prepara uma série de ofensivas contra o narcotráfico na região do Juruá. Por fazer fronteira com o Peru, a região é potencialmente promissora para o tráfico desde regiões remotas do Peru por meio de rios e igarapés que dão acesso ao território nacional.

 

Onde organizações criminosas buscam aliciar jovens a todo o tempo, o som das tubas, dos trompetes e dos violinos chegam como armas de pacificação e de proteção das vidas de centenas de crianças e adolescentes de Cruzeiro do Sul (a segunda maior cidade do Acre, distante 640 quilômetros de Rio Branco). Passados dois anos e seis meses da fundação do Projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, do Ministério Público do Estado do Acre, até agora, pouco se tinha falado sobre as histórias de superação desses jovens, muitos na iminência da depressão ou do aliciamento do tráfico de drogas e das organizações criminosas. Nesta reportagem, saiba como uma orquestra e um coral formados só de crianças e adolescentes de famílias pobres estão permitindo o crescimento saudável destes jovens, longe da criminalidade e mais próximos da arte da música. Reportagem: Resley Saab | Fotografia: Marcos Vicentti | Vídeo: Pedro Devani | Arte: Brunno Damasceno | Edição: Marcio Ferreira Histórias de dignidade num conservatório de música da Amazônia PARTITURAS PARA A VIDA
Rio Branco, segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Da 'casa das bruxas' para 'a casa das tubas' Dois anos e meio se passaram desde que músicos apoiados por um promotor de Justiça, por comerciantes, políticos e instituições públicas se imanaram para tocar um projeto cujo objetivo é ensinar música e canto erudito para a maior quantidade possível de crianças e adolescentes, a maioria filhos de pessoas abaixo da linha de pobreza, parte mais ocidental do Brasil, em meio à selva amazônica e aos pés da Serra do Divisor, a região mais rica em biodiversidade da Amazônia, no município de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá. Num dos maiores corredores do tráfico de drogas do país, dezenas de famílias ainda se afastam da curva da qualidade de vida em um fenômeno parecido ao observado nos grandes centros do Brasil. Foi neste ambiente que surgiu a maior oportunidade já oferecida a famílias carentes da região, o projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, do Ministério Público do Estado do Acre de Cruzeiro do Sul. Acrônimo para MPAC. No galpão antes abandonado, conhecido por 'casa das bruxas' dado ao enorme número de usuários de drogas que frequentava o local, hoje se ouve e se fala muito de Tchaikovsky, Beethoven, Mozart e Chopin. Mas também entram Pavarotti, Ana Vilela e o ‘Trem Bala’ e até Kell Smith e as doces lembranças da infância, quando o joelho ralado doía bem menos que uma paixão não correspondida. No Conservatório de Música do Juruá, o amor, centelha para uma vida plena de significado, acendeu para as pessoas mais pobres. De "casa das bruxas", o local virou 'casa das tubas', e também dos violinos, dos violoncelos, dos pianos e das bocas pequenas de corações ávidos por proteção e carinho. Na segunda maior cidade do Acre, estimativa de 88,3 mil moradores para dezembro de 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, são muitas as vitórias de jovens que deixaram a depressão ou que escaparam do aliciamento de criminosos, entre as mais de 400 crianças e adolescentes que participam do projeto. A seguir conheça algumas dessas histórias:
Amor ao próximo e valorização da vida
Quando se pensa em conservatório, imagina-se logo um monte de jovens preocupados em afinar os instrumentos, tensos para se apresentar melhor a cada ensaio do coral, apressados para folhear as partituras. E no Conservatório, tudo é importante, mas não imprescindível. A prioridade mesmo é o bem-estar físico, emocional e espiritual. "Apenas 10% do nosso tempo é dedicado à música. Os 90% restantes é cidadania, amor ao próximo e valorização da vida", explica o promotor de Justiça Iverson Bueno, com o semblante de vencedor. O jovem integrante do Parquet foi precursor do Projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, auxiliado por amigos da Igreja e do Exército Brasileiro, quando este sequer tinha sido incorporado à carteira de projetos do Ministério Público do Estado do Acre. Para além da música, existe um esforço cotidiano dos professores e demais integrantes em favor do auxílio a jovens que passam por problemas pessoais, sejam decorrentes de situações familiares ou inerentes à própria adolescência, a fase considerada pela psicologia como a mais conturbada na existência de uma pessoa. "Vejam vocês que estamos lidando com pessoas que estão na fase mais crítica de suas existências. São crianças e adolescentes muito pobres, com pais passando por problemas de alcoolismo ou que encontram dificuldades até de se alimentar pela falta de condições financeiras. Eles vêm para o Conservatório e aqui, muitas vezes, se sentem muito melhor do que se estivessem no seio familiar", ressalta Bueno. São casos como a de uma jovem que retornou da apresentação de Brasília com o sentimento de tristeza pela família não ter tido a oportunidade de compartilhar o que ela viu: novos lugares e pessoas. "A menina esteve à beira de uma depressão. Criou uma proximidade entre euforia e, ao mesmo tempo, de tristeza por seus familiares não estarem juntos a tudo que ela experimentou lá fora", explica o promotor. "Outros dizem que prefeririam morar aqui no conservatório a estar nas suas casas e tento não me envolver muito. Até agora foi tudo no amor, sempre buscando a profissionalização". Os jovens têm ainda à disposição atendimento com psicólogos do próprio Ministério Público. Iverson Bueno e a equipe preparam um pacote adicional para o projeto, chamado provisoriamente de 'Escola da Vida'. Nele, o promotor lecionará oratória para jovens com receio de falar em público e oferece aulas de palestras com temas como Defesa do Meio Ambiente e Cidadania, que também estão sendo preparadas com vista às escolas públicas. Outros dois projetos em curso são o 'Mestre do Ping-Pong', para desenvolver o raciocínio lógico pelo jogo e o de alfabetização de idosos pela música. " A reflexão que a gente faz é a de que, quando começamos, o projeto era de cunho social: tirar jovens da ociosidade por meio da música. E hoje, muitos pais têm o Conservatório como o divisor de águas entre o que seus filhos eram antes e o que são hoje. Os pais perceberam o carinho como suas crianças e adolescentes são tratados. E já observam que seus filhos mudaram para melhor. Iverson Bueno Promotor de Justiça
O 'matador de onça' e a netinha soprano Autovalorização e respeito ao próximo são algumas das lições aprendidas no Conservatório de Música do Juruá, e virtudes como altruísmo, resiliência e amor à família são o que forjam meninos e meninas como Evelin Vitória Brito da Silva. Aos 14 anos, ela é a soprano, voz que ajuda a todas as demais a evoluírem na cadência dos ritmos. A garota foi descoberta na própria escola, quando os organizadores do projeto procuravam, no ensino público, talentos que pudessem fazer parte do coral. Evelin vive com a mãe e a irmã, numa casa simples, mista de madeira e alvenaria no bairro Cruzeirão, tendo como chefes da família os avós, Maria Rodrigues de Brito, de 85 anos, e João Manoel Rodrigues de Brito, de 95, o 'maior matador de onça' da década de 1940 nas matas do Juruá, título que ele mesmo se confere sem nenhuma modéstia. E a sua obsessão pelo felino reverbera no trato com que dispensa a neta. Ao nos receber na residência deles, enquanto Evelin estava na escola, fez questão de pegar um retrato da netinha na estante para posar com dona Maria para a foto que ilustraria a reportagem. "Olha. Vou lhe dizer uma coisa: a voz da minha neta é igualzinha ao esturro da onça. Não tem do que tirar. A onça faz medo só de abrir a boca. Ela faz rú-rú-rú-rú. Já a goela da Evelin não assusta que nem a do bicho, mas as duas são parecidas". Por quase toda a vida foi morador do Seringal Porto Said, uma faixa de terra no interior da floresta, a 120 quilômetros, subindo o Rio Juruá, no município de Porto Walter, muito explorado no período áureo da borracha, nos anos 1940, quando o látex era retirado para fabricar pneus de carros e tanques de guerra dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Para a jovenzinha, tudo o que está acontecendo ao seu redor é uma avalanche de felicidades. "Está sendo inexplicável pra mim, porque imagine você que um soprano é difícil de encontrar. Aí, no meio de várias pessoas, Deus me dá esse dom e a oportunidade de me descobrirem. Vocês entendem como Deus me ama e como também devo amar as pessoas que me ajudaram?" Evelin da Silva nunca tinha viajado para outra cidade que não estivesse distante mais que 60 quilômetros da sua casa: as cidades de Rodrigues Alves, Mâncio Lima e Guajará, no Amazonas. Num certo dia, embarcou num ônibus com os colegas do coral e da orquestra. Foi parar em Brasília. Se apresentou no Palácio do Planalto e aos ministros do Supremo Tribunal Federal, em viagem patrocinada pelo Ministério Público do Trabalho. A paisagem ao longo do caminho, plena de grandes plantios de soja, os prédios enormes das cidades do Centro Oeste brasileiro e as vias largas cheias de carros por todos os lados a deixaram impressionadas. Mas nada comparado ao momento mais singular da sua vida, desde que foi descoberto o seu talento para a música erudita. No retorno a Cruzeiro, Evelin conheceu o pai, morador de Porto Velho. "Eu amo meu avô, e todo esse esforço de me tornar uma menina bem-educada é também dele. Mas eu precisava muito conhecer meu pai biológico. Foi pouquinho tempo abraçado com ele. Fiquei pensando, mas não disse nada pra ele sobre como teria sido diferente se não tivéssemos nos separados. Dei-lhe um beijo, ele me deu outro na testa, me abençoou e voltei para o ônibus. Disso nunca mais vou esquecer". Nesse instantes, seus olhos se enchem de lágrimas.
CONHEÇA MAIS SOBRE O CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO JURUÁ
Alguns meses se passaram desde que Eriton Marques Bastos Puyanawa, 14 anos, esteve na sua aldeia-natal pela última vez, em Mâncio Lima, município distante 50 quilômetros de Cruzeiro do Sul. A vida corriqueira de estudar e aprender no Conservatório não o fez esquecer suas raízes. Tanto que ele guarda com carinho o cocar e os adereços de cintura e de pernas feitos com pena de papagaio e gavião presenteados pela família. A mãe, Eronildes da Silva Bastos Puyanawa, partiu para uma condição melhor fora das terras indígenas, a exemplo do que fez o mesmo outras centenas de famílias puyanawa. Hoje, ela mantém um quiosque com lanches, às margens do Igarapé Preto, na Estrada do Aeroporto, em Cruzeiro do Sul, enquanto o esposo trabalha no cultivo de hortas no quintal da casa deles, no bairro Boca da Alemanha. Eriton foi apresentado para a música numa palestra na escola sobre o projeto, proferida pelos membros do Ministério Público do Estado do Acre. Tomou gosto, a princípio, pelo piano. Mudou no caminho e abraçou o violino. Levou junto a prima Evelyn, garota quase homônima à da 'voz de oncinha' dos olhos do avô que abre a reportagem. De volta ao cupicháu, como é chamada a grande casa de palha construída no centro da aldeia especialmente para as celebrações, os primos experienciam um momento único: como se os sons ancestrais do Povo do Sapo [significado de Puyanawa] se encontrassem, na dimensão da música, com os acordes atuais das rabecas dos jovens descendentes indígenas. A canção 'Winter Has Come', do álbum da superprodução do cinema Games of Thrones, reverbera mata a dentro, deixando o ambiente com um ar ainda mais mágico do que já é a fascinante região. "Me sinto muito bem, tocando violino. Sinto que a música me completa, e mesmo estando longe da aldeia, acredito que ainda serei muito útil ao meu povo, quando me tornar profissional e poder divulgar os nossos costumes para mais pessoas no mundo", pontua Eriton, cujo exemplo de dedicação serviu para a prima, tímida, porém cheia do amor pela música. "Posso dizer que a música também mudou a minha vida", diz, com um leve sorriso no rosto, apressando-se em segurar o violino contra os ombros para fazer o que mais gosta. Os puyanawa estão há muitos séculos na região do Juruá e hoje manifestam a sua preocupação com o anúncio de que a BR-364, que chega a Mâncio Lima, poderá ser prolongada até a fronteira com o Peru, ligando o Juruá à cidade peruana de Pucallpa. Esse trecho, a exemplo da estrada do Pacífico, pela BR-317, até o município de Assis Brasil, no Vale do Alto Acre, é visto como potencialmente promissor pela maioria dos prefeitos locais, para que os municípios da região possam atingir mercados da costa do Pacífico – e da Ásia –, pelos portos peruanos. O clima de apreensão tem uma razão: eles temem que a abertura da estrada possa impactar, negativamente, na vida de milhares de famílias indígenas de várias etnias, sobretudo, do povo Puyanawa, hoje detentor de 24 mil hectares de reserva, cuja uma parcela considerável dos 750 indivíduos que vivem nestas terras, reside relativamente próxima às margens da rodovia.
OUÇA: AMENO EXECUTADA PELA ORQUESTRA E CORAL DO JURUÁ
Na terra do Povo do Sapo, a trilha de Game of Thrones ecoa pela selva
O dinheiro do crime revertido para o bem O Conservatório de Música do Juruá vive de doações. Recebe ajudas financeiras esporádicas de pessoas físicas, e da Prefeitura de Cruzeiro do Sul tem a garantia de parte do pagamento da energia elétrica. Promotores de Justiça, de Cruzeiro e de Rio Branco, também auxiliam depositando regularmente alguma quantia na conta da instituição. Outra parcela considerável vem de recursos do Tribunal de Justiça do Estado do Acre, por meio do Fórum de Cruzeiro do Sul. Dinheiro arrecadado por punições a criminosos e infratores em práticas como porte ilegal de armas, tráfico de drogas e multas de trânsito e de crimes ambientais, entre outros delitos que permitem auxiliar nas despesas com a manutenção e a limpeza do Conservatório, construído em um terreno de uma casarão abandonado pertencente à Sociedade Simone Weaver. A instituição é ligada à Diocese de Cruzeiro do Sul e responsável pela fundação do Educandário em 1952, à época, uma necessidade para dar assistência aos filhos de hansenianos submetidos ao isolamento. O primeiro instrumento musical foi um piano M. Schwartzmann, de propriedade de Bueno, e trazido do interior do Paraná, sua terra-natal, com transporte custeado pelo próprio promotor. Um mutirão encabeçado por ele, por amigos voluntários e músicos do Exército Brasileiro ergueram, quase de forma heroica, o galpão do Conservatório, onde hoje as aulas acontecem. Por meio de emendas de bancada de parlamentares, foi possível a compra de mais instrumentos musicais e de uma van para transportar a orquestra e o coral aos locais de apresentação. A 'menina dos olhos' do Conservatório, no entanto, é a Banda Garotos do Sótão, que uma vez por mês promove apresentações de pop-rock no espaço adaptado no sótão da casa, verdadeiramente. O local, que tem como um dos coordenadores o professor Agnaldo Rodrigues da Silva, é frequentado pela sociedade cruzeirense por conta do seu requinte. "As pessoas pagam R$ 40 para virem aqui se divertir e todas que vêm adoram o espaço", ressalta o professor de música. O convite pode ser obtido também via depósito, direto na conta-corrente do educandário da Sociedade Simone Weaver e o espaço comporta de 80 a 90 pessoas. Em encontro recente com o governador do Estado do Acre, Gladson Cameli, e a equipe do Conservatório de Música do Juruá, o governador anunciou a entrega do Teatro do Náuas para que os próprios músicos possam administrá-lo, assim como a contratação de músicos formados pela Faculdade de Música da Universidade Federal do Acre, campus de Cruzeiro do Sul, para lecionar na instituição. As metas estão na fase de construção.
OUÇA: ERA UMA VEZ EXECUTADA PELA ORQUESTRA E CORAL DO JURUÁ
Pela internet, garotada vota e ganha R$ 100 mil do Movimento Bem Maior O Movimento Bem Maior, uma rede de financiamento de projetos que tem como colaboradores o apresentador de TV Luciano Huck e Eugenio Mattar, CEO da empresa de aluguéis de carros Localiza, vai doar R$ 100 mil ao projeto. Os recursos, com previsão de serem liberados até o próximo mês, já têm destino certo: serão utilizados para o pagamento de professores e para a compra de novos instrumentos, segundo o coordenador Iverson Bueno. O esforço da garotada em votar pela internet foi fundamental para que o dinheiro entrasse na conta do Educandário de Cruzeiro do Sul, entidade parceira do Conservatório. Dos 100 projetos que conseguiram ter acesso ao edital da organização, apenas 50 vão receber até R$ 100 mil cada um, incluindo o Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, que ficou na décima primeira posição, com 1973 votos obtidos pela web. Pelo menos 2.076 projetos, de todo o país, concorreram ao edital, o que faz dos integrantes do Conservatório se sentirem ainda mais vitoriosos. "O esforço de cada um deles, chamando o pai, o tio e o vizinho para votar, nos garantiu essa vitória", destaca Bueno. O Movimento Bem Maior foi criado por uma rede de colaboradores que acreditam, como está no próprio site da instituição, que "a transformação só é possível juntando forças e diferentes ativos – afeto, conhecimento, tempo, dinheiro". "A gente pensa grande e leva a sério a ideia de um mundo melhor para todos: eu, você, eles, nós. Para isso acontecer, unimos contatos, redes e afetos ao criar o Movimento Bem Maior, que nasce com a determinação de transformar realidades e construir um país melhor", relata o site, que pode ser acessado no endereço https://movimentobemmaior.org/ Por meio de uma curadoria especial, eles identificam, apoiam e dão visibilidade a causas sociais e instituições sérias, dos mais variados setores e tipos, espalhadas por todo o Brasil. A ideia é encurtar caminhos e, principalmente, facilitar a busca pela instituição com que mais os internautas se identificam.
Onde organizações criminosas buscam aliciar jovens a todo o tempo, o som das tubas, dos trompetes e dos violinos chegam como armas de pacificação e de proteção das vidas de centenas de crianças e adolescentes de Cruzeiro do Sul (a segunda maior cidade do Acre, distante 640 quilômetros de Rio Branco). Passados dois anos e seis meses da fundação do Projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, do Ministério Público do Estado do Acre, até agora, pouco se tinha falado sobre as histórias de superação desses jovens, muitos na iminência da depressão ou do aliciamento do tráfico de drogas e das organizações criminosas. Nesta reportagem, saiba como uma orquestra e um coral formados só de crianças e adolescentes de famílias pobres estão permitindo o crescimento saudável destes jovens, longe da criminalidade e mais próximos da arte da música. Reportagem: Resley Saab | Fotografia: Marcos Vicentti | Vídeo: Pedro Devani | Arte: Brunno Damasceno | Edição: Marcio Ferreira Histórias de dignidade num conservatório de música da Amazônia PARTITURAS PARA A VIDA
Da 'casa das bruxas' para 'a casa das tubas' Dois anos e meio se passaram desde que músicos apoiados por um promotor de Justiça, por comerciantes, políticos e instituições públicas se imanaram para tocar um projeto cujo objetivo é ensinar música e canto erudito para a maior quantidade possível de crianças e adolescentes, a maioria filhos de pessoas abaixo da linha de pobreza, parte mais ocidental do Brasil, em meio à selva amazônica e aos pés da Serra do Divisor, a região mais rica em biodiversidade da Amazônia, no município de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá. Num dos maiores corredores do tráfico de drogas do país, dezenas de famílias ainda se afastam da curva da qualidade de vida em um fenômeno parecido ao observado nos grandes centros do Brasil. Foi neste ambiente que surgiu a maior oportunidade já oferecida a famílias carentes da região, o projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, do Ministério Público do Estado do Acre de Cruzeiro do Sul. Acrônimo para MPAC. No galpão antes abandonado, conhecido por 'casa das bruxas' dado ao enorme número de usuários de drogas que frequentava o local, hoje se ouve e se fala muito de Tchaikovsky, Beethoven, Mozart e Chopin. Mas também entram Pavarotti, Ana Vilela e o ‘Trem Bala’ e até Kell Smith e as doces lembranças da infância, quando o joelho ralado doía bem menos que uma paixão não correspondida. No Conservatório de Música do Juruá, o amor, centelha para uma vida plena de significado, acendeu para as pessoas mais pobres. De "casa das bruxas", o local virou 'casa das tubas', e também dos violinos, dos violoncelos, dos pianos e das bocas pequenas de corações ávidos por proteção e carinho. Na segunda maior cidade do Acre, estimativa de 88,3 mil moradores para dezembro de 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, são muitas as vitórias de jovens que deixaram a depressão ou que escaparam do aliciamento de criminosos, entre as mais de 400 crianças e adolescentes que participam do projeto. A seguir conheça algumas dessas histórias:
Professor de violino e lavador de carros com orgulho, sim senhor No Cruzeirão, o lavador de carros Francisco Castro de Araújo, 50 anos, tem pressa de entregar o Chevrolet Prisma recém-higienizado. Com a flanela em punho, ele alisa o veículo como se o próprio dono fosse. Na quebrada de um dos bairros mais populosos de Cruzeiro do Sul, lar de mais de quinze mil pessoas de baixa renda, ele toca o seu lava-jato. Neste dia, Francisco foi homenageado pelo violinista Rodrigo Paixão de Araújo, 24, também lavador de carros e seu filho. Hallelujah, reverberou aos ouvidos do homem turrão, mas de um coração imenso. Esboçou lágrimas ao ver o filho tocando o instrumento com a mesma espontaneidade com que sempre o ajudou a lavar os carros. Rodrigo nasceu em Manaus e até os 17 anos conciliou os estudos na escola pública com as aulas de violino no Conservatório Claudio Santoro, na capital amazonense, um dos mais renomados do país. Lá recebia uma bolsa de R$ 260 para estudar música. Nos finais de semana, quando não estava estudando, auxiliava o pai no posto de lavagem. A família retornou a Cruzeiro, quase uma década depois. "E foi aqui, em Cruzeiro, que me falaram do projeto do Ministério Público. Eu topei na hora quando me disseram que eu podia lecionar violino pra meninos e meninas carentes. E a coisa ficou melhor ainda quando me informaram que iriam me dar um emprego no Ministério Público. Nessa hora, choveu no roçado", relembra. Hoje, o jovem professor já não lava mais carros com frequência por causa do ofício de músico. Participa da banda 'Garotos do Sótão'. Deixou um pouco de lado a profissão de lavador de carro, mas não o orgulho de ser flanelinha. "Eu não preciso ter vergonha do que fui. Pelo contrário, tenho muito orgulho do que fiz e mau pai ainda faz, tanto que até hoje, nas horas vagas, largo o violino pra ajudar o velho. Acredito que todos nós devemos nos esforçar por um mundo melhor. E fico muito feliz de ser o que sou, um professor que ajuda crianças e jovens a ter uma ocupação saudável pela música", orgulha-se. E o pai, o que tem a dizer sobre tudo isso? - foi a pergunta Francisco coça a cabeça, cerra as sobrancelhas, deixa cair uma lágrima do olho direito e com a voz já embargada, diz: "Hoje a gente vê ele fazendo essas apresentações. Aí bate um orgulho danado. É uma gratidão daquelas que a gente fala assim: muito obrigado, meu Deus, porque esse moleque nunca me deu problema. Eu só tenho é muito orgulho dele". No momento do registro em vídeo para esta reportagem, jovens curiosos com a nossa presença circulavam ao redor. A observação velada era para mostrar que eles estavam a serviço de uma facção. Um recado traduzido como: "Estamos de olho em vocês. Cuidado com a gente". Como em toda cidade de fronteira, bairros considerados populosos como o Cruzeirão foram tomados por organizações criminosas. O Grupamento Especializado em Fronteira, o Gefron, recém-criado pelo Governo do Estado do Acre, já prepara uma série de ofensivas contra o narcotráfico na região do Juruá. Por fazer fronteira com o Peru, a região é potencialmente promissora para o tráfico desde regiões remotas do Peru por meio de rios e igarapés que dão acesso ao território nacional.
Amor ao próximo e valorização da vida
" Iverson Bueno Promotor de Justiça
Quando se pensa em conservatório, imagina-se logo um monte de jovens preocupados em afinar os instrumentos, tensos para se apresentar melhor a cada ensaio do coral, apressados para folhear as partituras. E no Conservatório, tudo é importante, mas não imprescindível. A prioridade mesmo é o bem-estar físico, emocional e espiritual. "Apenas 10% do nosso tempo é dedicado à música. Os 90% restantes é cidadania, amor ao próximo e valorização da vida", explica o promotor de Justiça Iverson Bueno, com o semblante de vencedor. O jovem integrante do Parquet foi precursor do Projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, auxiliado por amigos da Igreja e do Exército Brasileiro, quando este sequer tinha sido incorporado à carteira de projetos do Ministério Público do Estado do Acre. Para além da música, existe um esforço cotidiano dos professores e demais integrantes em favor do auxílio a jovens que passam por problemas pessoais, sejam decorrentes de situações familiares ou inerentes à própria adolescência, a fase considerada pela psicologia como a mais conturbada na existência de uma pessoa. "Vejam vocês que estamos lidando com pessoas que estão na fase mais crítica de suas existências. São crianças e adolescentes muito pobres, com pais passando por problemas de alcoolismo ou que encontram dificuldades até de se alimentar pela falta de condições financeiras. Eles vêm para o Conservatório e aqui, muitas vezes, se sentem muito melhor do que se estivessem no seio familiar", ressalta Bueno. São casos como a de uma jovem que retornou da apresentação de Brasília com o sentimento de tristeza pela família não ter tido a oportunidade de compartilhar o que ela viu: novos lugares e pessoas. "A menina esteve à beira de uma depressão. Criou uma proximidade entre euforia e, ao mesmo tempo, de tristeza por seus familiares não estarem juntos a tudo que ela experimentou lá fora", explica o promotor. "Outros dizem que prefeririam morar aqui no conservatório a estar nas suas casas e tento não me envolver muito. Até agora foi tudo no amor, sempre buscando a profissionalização". Os jovens têm ainda à disposição atendimento com psicólogos do próprio Ministério Público. Iverson Bueno e a equipe preparam um pacote adicional para o projeto, chamado provisoriamente de 'Escola da Vida'. Nele, o promotor lecionará oratória para jovens com receio de falar em público e oferece aulas de palestras com temas como Defesa do Meio Ambiente e Cidadania, que também estão sendo preparadas com vista às escolas públicas. Outros dois projetos em curso são o 'Mestre do Ping-Pong', para desenvolver o raciocínio lógico pelo jogo e o de alfabetização de idosos pela música. A reflexão que a gente faz é a de que, quando começamos, o projeto era de cunho social: tirar jovens da ociosidade por meio da música. E hoje, muitos pais têm o Conservatório como o divisor de águas entre o que seus filhos eram antes e o que são hoje. Os pais perceberam o carinho como suas crianças e adolescentes são tratados. E já observam que seus filhos mudaram para melhor.
CONHEÇA MAIS SOBRE O CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO JURUÁ
O 'matador de onça' e a netinha soprano Autovalorização e respeito ao próximo são algumas das lições aprendidas no Conservatório de Música do Juruá, e virtudes como altruísmo, resiliência e amor à família são o que forjam meninos e meninas como Evelin Vitória Brito da Silva. Aos 14 anos, ela é a soprano, voz que ajuda a todas as demais a evoluírem na cadência dos ritmos. A garota foi descoberta na própria escola, quando os organizadores do projeto procuravam, no ensino público, talentos que pudessem fazer parte do coral. Evelin vive com a mãe e a irmã, numa casa simples, mista de madeira e alvenaria no bairro Cruzeirão, tendo como chefes da família os avós, Maria Rodrigues de Brito, de 85 anos, e João Manoel Rodrigues de Brito, de 95, o 'maior matador de onça' da década de 1940 nas matas do Juruá, título que ele mesmo se confere sem nenhuma modéstia. E a sua obsessão pelo felino reverbera no trato com que dispensa a neta. Ao nos receber na residência deles, enquanto Evelin estava na escola, fez questão de pegar um retrato da netinha na estante para posar com dona Maria para a foto que ilustraria a reportagem. "Olha. Vou lhe dizer uma coisa: a voz da minha neta é igualzinha ao esturro da onça. Não tem do que tirar. A onça faz medo só de abrir a boca. Ela faz rú-rú-rú-rú. Já a goela da Evelin não assusta que nem a do bicho, mas as duas são parecidas". Por quase toda a vida foi morador do Seringal Porto Said, uma faixa de terra no interior da floresta, a 120 quilômetros, subindo o Rio Juruá, no município de Porto Walter, muito explorado no período áureo da borracha, nos anos 1940, quando o látex era retirado para fabricar pneus de carros e tanques de guerra dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Para a jovenzinha, tudo o que está acontecendo ao seu redor é uma avalanche de felicidades. "Está sendo inexplicável pra mim, porque imagine você que um soprano é difícil de encontrar. Aí, no meio de várias pessoas, Deus me dá esse dom e a oportunidade de me descobrirem. Vocês entendem como Deus me ama e como também devo amar as pessoas que me ajudaram?" Evelin da Silva nunca tinha viajado para outra cidade que não estivesse distante mais que 60 quilômetros da sua casa: as cidades de Rodrigues Alves, Mâncio Lima e Guajará, no Amazonas. Num certo dia, embarcou num ônibus com os colegas do coral e da orquestra. Foi parar em Brasília. Se apresentou no Palácio do Planalto e aos ministros do Supremo Tribunal Federal, em viagem patrocinada pelo Ministério Público do Trabalho. A paisagem ao longo do caminho, plena de grandes plantios de soja, os prédios enormes das cidades do Centro Oeste brasileiro e as vias largas cheias de carros por todos os lados a deixaram impressionadas. Mas nada comparado ao momento mais singular da sua vida, desde que foi descoberto o seu talento para a música erudita. No retorno a Cruzeiro, Evelin conheceu o pai, morador de Porto Velho. "Eu amo meu avô, e todo esse esforço de me tornar uma menina bem-educada é também dele. Mas eu precisava muito conhecer meu pai biológico. Foi pouquinho tempo abraçado com ele. Fiquei pensando, mas não disse nada pra ele sobre como teria sido diferente se não tivéssemos nos separados. Dei-lhe um beijo, ele me deu outro na testa, me abençoou e voltei para o ônibus. Disso nunca mais vou esquecer". Nesse instantes, seus olhos se enchem de lágrimas.
Na terra do Povo do Sapo, a trilha de Game of Thrones ecoa pela selva Alguns meses se passaram desde que Eriton Marques Bastos Puyanawa, 14 anos, esteve na sua aldeia-natal pela última vez, em Mâncio Lima, município distante 50 quilômetros de Cruzeiro do Sul. A vida corriqueira de estudar e aprender no Conservatório não o fez esquecer suas raízes. Tanto que ele guarda com carinho o cocar e os adereços de cintura e de pernas feitos com pena de papagaio e gavião presenteados pela família. A mãe, Eronildes da Silva Bastos Puyanawa, partiu para uma condição melhor fora das terras indígenas, a exemplo do que fez o mesmo outras centenas de famílias puyanawa. Hoje, ela mantém um quiosque com lanches, às margens do Igarapé Preto, na Estrada do Aeroporto, em Cruzeiro do Sul, enquanto o esposo trabalha no cultivo de hortas no quintal da casa deles, no bairro Boca da Alemanha. Eriton foi apresentado para a música numa palestra na escola sobre o projeto, proferida pelos membros do Ministério Público do Estado do Acre. Tomou gosto, a princípio, pelo piano. Mudou no caminho e abraçou o violino. Levou junto a prima Evelyn, garota quase homônima à da 'voz de oncinha' dos olhos do avô que abre a reportagem. De volta ao cupicháu, como é chamada a grande casa de palha construída no centro da aldeia especialmente para as celebrações, os primos experienciam um momento único: como se os sons ancestrais do Povo do Sapo [significado de Puyanawa] se encontrassem, na dimensão da música, com os acordes atuais das rabecas dos jovens descendentes indígenas. A canção 'Winter Has Come', do álbum da superprodução do cinema Games of Thrones, reverbera mata a dentro, deixando o ambiente com um ar ainda mais mágico do que já é a fascinante região. "Me sinto muito bem, tocando violino. Sinto que a música me completa, e mesmo estando longe da aldeia, acredito que ainda serei muito útil ao meu povo, quando me tornar profissional e poder divulgar os nossos costumes para mais pessoas no mundo", pontua Eriton, cujo exemplo de dedicação serviu para a prima, tímida, porém cheia do amor pela música. "Posso dizer que a música também mudou a minha vida", diz, com um leve sorriso no rosto, apressando-se em segurar o violino contra os ombros para fazer o que mais gosta. Os puyanawa estão há muitos séculos na região do Juruá e hoje manifestam a sua preocupação com o anúncio de que a BR-364, que chega a Mâncio Lima, poderá ser prolongada até a fronteira com o Peru, ligando o Juruá à cidade peruana de Pucallpa. Esse trecho, a exemplo da estrada do Pacífico, pela BR-317, até o município de Assis Brasil, no Vale do Alto Acre, é visto como potencialmente promissor pela maioria dos prefeitos locais, para que os municípios da região possam atingir mercados da costa do Pacífico – e da Ásia –, pelos portos peruanos. O clima de apreensão tem uma razão: eles temem que a abertura da estrada possa impactar, negativamente, na vida de milhares de famílias indígenas de várias etnias, sobretudo, do povo Puyanawa, hoje detentor de 24 mil hectares de reserva, cuja uma parcela considerável dos 750 indivíduos que vivem nestas terras, reside relativamente próxima às margens da rodovia. OUÇA: AMENO EXECUTADA PELA ORQUESTRA E CORAL DO JURUÁ
O dinheiro do crime revertido para o bem O Conservatório de Música do Juruá vive de doações. Recebe ajudas financeiras esporádicas de pessoas físicas, e da Prefeitura de Cruzeiro do Sul tem a garantia de parte do pagamento da energia elétrica. Promotores de Justiça, de Cruzeiro e de Rio Branco, também auxiliam depositando regularmente alguma quantia na conta da instituição. Outra parcela considerável vem de recursos do Tribunal de Justiça do Estado do Acre, por meio do Fórum de Cruzeiro do Sul. Dinheiro arrecadado por punições a criminosos e infratores em práticas como porte ilegal de armas, tráfico de drogas e multas de trânsito e de crimes ambientais, entre outros delitos que permitem auxiliar nas despesas com a manutenção e a limpeza do Conservatório, construído em um terreno de uma casarão abandonado pertencente à Sociedade Simone Weaver. A instituição é ligada à Diocese de Cruzeiro do Sul e responsável pela fundação do Educandário em 1952, à época, uma necessidade para dar assistência aos filhos de hansenianos submetidos ao isolamento. O primeiro instrumento musical foi um piano M. Schwartzmann, de propriedade de Bueno, e trazido do interior do Paraná, sua terra-natal, com transporte custeado pelo próprio promotor. Um mutirão encabeçado por ele, por amigos voluntários e músicos do Exército Brasileiro ergueram, quase de forma heroica, o galpão do Conservatório, onde hoje as aulas acontecem. Por meio de emendas de bancada de parlamentares, foi possível a compra de mais instrumentos musicais e de uma van para transportar a orquestra e o coral aos locais de apresentação. A 'menina dos olhos' do Conservatório, no entanto, é a Banda Garotos do Sótão, que uma vez por mês promove apresentações de pop-rock no espaço adaptado no sótão da casa, verdadeiramente. O local, que tem como um dos coordenadores o professor Agnaldo Rodrigues da Silva, é frequentado pela sociedade cruzeirense por conta do seu requinte. "As pessoas pagam R$ 40 para virem aqui se divertir e todas que vêm adoram o espaço", ressalta o professor de música. O convite pode ser obtido também via depósito, direto na conta-corrente do educandário da Sociedade Simone Weaver e o espaço comporta de 80 a 90 pessoas. Em encontro recente com o governador do Estado do Acre, Gladson Cameli, e a equipe do Conservatório de Música do Juruá, o governador anunciou a entrega do Teatro do Náuas para que os próprios músicos possam administrá-lo, assim como a contratação de músicos formados pela Faculdade de Música da Universidade Federal do Acre, campus de Cruzeiro do Sul, para lecionar na instituição. As metas estão na fase de construção. OUÇA: ERA UMA VEZ EXECUTADA PELA ORQUESTRA E CORAL DO JURUÁ
Pela internet, garotada vota e ganha R$ 100 mil do Movimento Bem Maior O Movimento Bem Maior, uma rede de financiamento de projetos que tem como colaboradores o apresentador de TV Luciano Huck e Eugenio Mattar, CEO da empresa de aluguéis de carros Localiza, vai doar R$ 100 mil ao projeto. Os recursos, com previsão de serem liberados até o próximo mês, já têm destino certo: serão utilizados para o pagamento de professores e para a compra de novos instrumentos, segundo o coordenador Iverson Bueno. O esforço da garotada em votar pela internet foi fundamental para que o dinheiro entrasse na conta do Educandário de Cruzeiro do Sul, entidade parceira do Conservatório. Dos 100 projetos que conseguiram ter acesso ao edital da organização, apenas 50 vão receber até R$ 100 mil cada um, incluindo o Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, que ficou na décima primeira posição, com 1973 votos obtidos pela web. Pelo menos 2.076 projetos, de todo o país, concorreram ao edital, o que faz dos integrantes do Conservatório se sentirem ainda mais vitoriosos. "O esforço de cada um deles, chamando o pai, o tio e o vizinho para votar, nos garantiu essa vitória", destaca Bueno. O Movimento Bem Maior foi criado por uma rede de colaboradores que acreditam, como está no próprio site da instituição, que "a transformação só é possível juntando forças e diferentes ativos – afeto, conhecimento, tempo, dinheiro". "A gente pensa grande e leva a sério a ideia de um mundo melhor para todos: eu, você, eles, nós. Para isso acontecer, unimos contatos, redes e afetos ao criar o Movimento Bem Maior, que nasce com a determinação de transformar realidades e construir um país melhor", relata o site, que pode ser acessado no endereço https://movimentobemmaior.org/ Por meio de uma curadoria especial, eles identificam, apoiam e dão visibilidade a causas sociais e instituições sérias, dos mais variados setores e tipos, espalhadas por todo o Brasil. A ideia é encurtar caminhos e, principalmente, facilitar a busca pela instituição com que mais os internautas se identificam.
Rio Branco, segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Histórias de dignidade num conservatório de música da Amazônia PARTITURAS PARA A VIDA
Onde organizações criminosas buscam aliciar jovens a todo o tempo, o som das tubas, dos trompetes e dos violinos chegam como armas de pacificação e de proteção das vidas de centenas de crianças e adolescentes de Cruzeiro do Sul (a segunda maior cidade do Acre, distante 640 quilômetros de Rio Branco). Passados dois anos e seis meses da fundação do Projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, do Ministério Público do Estado do Acre, até agora, pouco se tinha falado sobre as histórias de superação desses jovens, muitos na iminência da depressão ou do aliciamento do tráfico de drogas e das organizações criminosas. Nesta reportagem, saiba como uma orquestra e um coral formados só de crianças e adolescentes de famílias pobres estão permitindo o crescimento saudável destes jovens, longe da criminalidade e mais próximos da arte da música. Reportagem: Resley Saab | Fotografia: Marcos Vicentti | Vídeo: Pedro Devani | Arte: Brunno Damasceno | Edição: Marcio Ferreira
Rio Branco, segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Da 'casa das bruxas' para 'a casa das tubas' Dois anos e meio se passaram desde que músicos apoiados por um promotor de Justiça, por comerciantes, políticos e instituições públicas se imanaram para tocar um projeto cujo objetivo é ensinar música e canto erudito para a maior quantidade possível de crianças e adolescentes, a maioria filhos de pessoas abaixo da linha de pobreza, parte mais ocidental do Brasil, em meio à selva amazônica e aos pés da Serra do Divisor, a região mais rica em biodiversidade da Amazônia, no município de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá. Num dos maiores corredores do tráfico de drogas do país, dezenas de famílias ainda se afastam da curva da qualidade de vida em um fenômeno parecido ao observado nos grandes centros do Brasil. Foi neste ambiente que surgiu a maior oportunidade já oferecida a famílias carentes da região, o projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, do Ministério Público do Estado do Acre de Cruzeiro do Sul. Acrônimo para MPAC. No galpão antes abandonado, conhecido por 'casa das bruxas' dado ao enorme número de usuários de drogas que frequentava o local, hoje se ouve e se fala muito de Tchaikovsky, Beethoven, Mozart e Chopin. Mas também entram Pavarotti, Ana Vilela e o ‘Trem Bala’ e até Kell Smith e as doces lembranças da infância, quando o joelho ralado doía bem menos que uma paixão não correspondida. No Conservatório de Música do Juruá, o amor, centelha para uma vida plena de significado, acendeu para as pessoas mais pobres. De "casa das bruxas", o local virou 'casa das tubas', e também dos violinos, dos violoncelos, dos pianos e das bocas pequenas de corações ávidos por proteção e carinho. Na segunda maior cidade do Acre, estimativa de 88,3 mil moradores para dezembro de 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, são muitas as vitórias de jovens que deixaram a depressão ou que escaparam do aliciamento de criminosos, entre as mais de 400 crianças e adolescentes que participam do projeto. A seguir conheça algumas dessas histórias:
Professor de violino e lavador de carros com orgulho, sim senhor No Cruzeirão, o lavador de carros Francisco Castro de Araújo, 50 anos, tem pressa de entregar o Chevrolet Prisma recém-higienizado. Com a flanela em punho, ele alisa o veículo como se o próprio dono fosse. Na quebrada de um dos bairros mais populosos de Cruzeiro do Sul, lar de mais de quinze mil pessoas de baixa renda, ele toca o seu lava-jato. Neste dia, Francisco foi homenageado pelo violinista Rodrigo Paixão de Araújo, 24, também lavador de carros e seu filho. Hallelujah, reverberou aos ouvidos do homem turrão, mas de um coração imenso. Esboçou lágrimas ao ver o filho tocando o instrumento com a mesma espontaneidade com que sempre o ajudou a lavar os carros. Rodrigo nasceu em Manaus e até os 17 anos conciliou os estudos na escola pública com as aulas de violino no Conservatório Claudio Santoro, na capital amazonense, um dos mais renomados do país. Lá recebia uma bolsa de R$ 260 para estudar música. Nos finais de semana, quando não estava estudando, auxiliava o pai no posto de lavagem. A família retornou a Cruzeiro, quase uma década depois. "E foi aqui, em Cruzeiro, que me falaram do projeto do Ministério Público. Eu topei na hora quando me disseram que eu podia lecionar violino pra meninos e meninas carentes. E a coisa ficou melhor ainda quando me informaram que iriam me dar um emprego no Ministério Público. Nessa hora, choveu no roçado", relembra. Hoje, o jovem professor já não lava mais carros com frequência por causa do ofício de músico. Participa da banda 'Garotos do Sótão'. Deixou um pouco de lado a profissão de lavador de carro, mas não o orgulho de ser flanelinha. "Eu não preciso ter vergonha do que fui. Pelo contrário, tenho muito orgulho do que fiz e mau pai ainda faz, tanto que até hoje, nas horas vagas, largo o violino pra ajudar o velho. Acredito que todos nós devemos nos esforçar por um mundo melhor. E fico muito feliz de ser o que sou, um professor que ajuda crianças e jovens a ter uma ocupação saudável pela música", orgulha-se. E o pai, o que tem a dizer sobre tudo isso? - foi a pergunta Francisco coça a cabeça, cerra as sobrancelhas, deixa cair uma lágrima do olho direito e com a voz já embargada, diz: "Hoje a gente vê ele fazendo essas apresentações. Aí bate um orgulho danado. É uma gratidão daquelas que a gente fala assim: muito obrigado, meu Deus, porque esse moleque nunca me deu problema. Eu só tenho é muito orgulho dele". No momento do registro em vídeo para esta reportagem, jovens curiosos com a nossa presença circulavam ao redor. A observação velada era para mostrar que eles estavam a serviço de uma facção. Um recado traduzido como: "Estamos de olho em vocês. Cuidado com a gente". Como em toda cidade de fronteira, bairros considerados populosos como o Cruzeirão foram tomados por organizações criminosas. O Grupamento Especializado em Fronteira, o Gefron, recém-criado pelo Governo do Estado do Acre, já prepara uma série de ofensivas contra o narcotráfico na região do Juruá. Por fazer fronteira com o Peru, a região é potencialmente promissora para o tráfico desde regiões remotas do Peru por meio de rios e igarapés que dão acesso ao território nacional.
Amor ao próximo e valorização da vida
Quando se pensa em conservatório, imagina-se logo um monte de jovens preocupados em afinar os instrumentos, tensos para se apresentar melhor a cada ensaio do coral, apressados para folhear as partituras. E no Conservatório, tudo é importante, mas não imprescindível. A prioridade mesmo é o bem-estar físico, emocional e espiritual. "Apenas 10% do nosso tempo é dedicado à música. Os 90% restantes é cidadania, amor ao próximo e valorização da vida", explica o promotor de Justiça Iverson Bueno, com o semblante de vencedor. O jovem integrante do Parquet foi precursor do Projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, auxiliado por amigos da Igreja e do Exército Brasileiro, quando este sequer tinha sido incorporado à carteira de projetos do Ministério Público do Estado do Acre. Para além da música, existe um esforço cotidiano dos professores e demais integrantes em favor do auxílio a jovens que passam por problemas pessoais, sejam decorrentes de situações familiares ou inerentes à própria adolescência, a fase considerada pela psicologia como a mais conturbada na existência de uma pessoa. "Vejam vocês que estamos lidando com pessoas que estão na fase mais crítica de suas existências. São crianças e adolescentes muito pobres, com pais passando por problemas de alcoolismo ou que encontram dificuldades até de se alimentar pela falta de condições financeiras. Eles vêm para o Conservatório e aqui, muitas vezes, se sentem muito melhor do que se estivessem no seio familiar", ressalta Bueno. São casos como a de uma jovem que retornou da apresentação de Brasília com o sentimento de tristeza pela família não ter tido a oportunidade de compartilhar o que ela viu: novos lugares e pessoas. "A menina esteve à beira de uma depressão. Criou uma proximidade entre euforia e, ao mesmo tempo, de tristeza por seus familiares não estarem juntos a tudo que ela experimentou lá fora", explica o promotor. "Outros dizem que prefeririam morar aqui no conservatório a estar nas suas casas e tento não me envolver muito. Até agora foi tudo no amor, sempre buscando a profissionalização". Os jovens têm ainda à disposição atendimento com psicólogos do próprio Ministério Público. Iverson Bueno e a equipe preparam um pacote adicional para o projeto, chamado provisoriamente de 'Escola da Vida'. Nele, o promotor lecionará oratória para jovens com receio de falar em público e oferece aulas de palestras com temas como Defesa do Meio Ambiente e Cidadania, que também estão sendo preparadas com vista às escolas públicas. Outros dois projetos em curso são o 'Mestre do Ping-Pong', para desenvolver o raciocínio lógico pelo jogo e o de alfabetização de idosos pela música.
Iverson Bueno Promotor de Justiça
A reflexão que a gente faz é a de que, quando começamos, o projeto era de cunho social: tirar jovens da ociosidade por meio da música. E hoje, muitos pais têm o Conservatório como o divisor de águas entre o que seus filhos eram antes e o que são hoje. Os pais perceberam o carinho como suas crianças e adolescentes são tratados. E já observam que seus filhos mudaram para melhor. "
O 'matador de onça' e a netinha soprano Autovalorização e respeito ao próximo são algumas das lições aprendidas no Conservatório de Música do Juruá, e virtudes como altruísmo, resiliência e amor à família são o que forjam meninos e meninas como Evelin Vitória Brito da Silva. Aos 14 anos, ela é a soprano, voz que ajuda a todas as demais a evoluírem na cadência dos ritmos. A garota foi descoberta na própria escola, quando os organizadores do projeto procuravam, no ensino público, talentos que pudessem fazer parte do coral. Evelin vive com a mãe e a irmã, numa casa simples, mista de madeira e alvenaria no bairro Cruzeirão, tendo como chefes da família os avós, Maria Rodrigues de Brito, de 85 anos, e João Manoel Rodrigues de Brito, de 95, o 'maior matador de onça' da década de 1940 nas matas do Juruá, título que ele mesmo se confere sem nenhuma modéstia. E a sua obsessão pelo felino reverbera no trato com que dispensa a neta. Ao nos receber na residência deles, enquanto Evelin estava na escola, fez questão de pegar um retrato da netinha na estante para posar com dona Maria para a foto que ilustraria a reportagem. "Olha. Vou lhe dizer uma coisa: a voz da minha neta é igualzinha ao esturro da onça. Não tem do que tirar. A onça faz medo só de abrir a boca. Ela faz rú-rú-rú-rú. Já a goela da Evelin não assusta que nem a do bicho, mas as duas são parecidas". Por quase toda a vida foi morador do Seringal Porto Said, uma faixa de terra no interior da floresta, a 120 quilômetros, subindo o Rio Juruá, no município de Porto Walter, muito explorado no período áureo da borracha, nos anos 1940, quando o látex era retirado para fabricar pneus de carros e tanques de guerra dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Para a jovenzinha, tudo o que está acontecendo ao seu redor é uma avalanche de felicidades. "Está sendo inexplicável pra mim, porque imagine você que um soprano é difícil de encontrar. Aí, no meio de várias pessoas, Deus me dá esse dom e a oportunidade de me descobrirem. Vocês entendem como Deus me ama e como também devo amar as pessoas que me ajudaram?" Evelin da Silva nunca tinha viajado para outra cidade que não estivesse distante mais que 60 quilômetros da sua casa: as cidades de Rodrigues Alves, Mâncio Lima e Guajará, no Amazonas. Num certo dia, embarcou num ônibus com os colegas do coral e da orquestra. Foi parar em Brasília. Se apresentou no Palácio do Planalto e aos ministros do Supremo Tribunal Federal, em viagem patrocinada pelo Ministério Público do Trabalho. A paisagem ao longo do caminho, plena de grandes plantios de soja, os prédios enormes das cidades do Centro Oeste brasileiro e as vias largas cheias de carros por todos os lados a deixaram impressionadas. Mas nada comparado ao momento mais singular da sua vida, desde que foi descoberto o seu talento para a música erudita. No retorno a Cruzeiro, Evelin conheceu o pai, morador de Porto Velho. "Eu amo meu avô, e todo esse esforço de me tornar uma menina bem-educada é também dele. Mas eu precisava muito conhecer meu pai biológico. Foi pouquinho tempo abraçado com ele. Fiquei pensando, mas não disse nada pra ele sobre como teria sido diferente se não tivéssemos nos separados. Dei-lhe um beijo, ele me deu outro na testa, me abençoou e voltei para o ônibus. Disso nunca mais vou esquecer". Nesse instantes, seus olhos se enchem de lágrimas.
CONHEÇA MAIS SOBRE O CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO JURUÁ
Na terra do Povo do Sapo, a trilha de Game of Thrones ecoa pela selva Alguns meses se passaram desde que Eriton Marques Bastos Puyanawa, 14 anos, esteve na sua aldeia-natal pela última vez, em Mâncio Lima, município distante 50 quilômetros de Cruzeiro do Sul. A vida corriqueira de estudar e aprender no Conservatório não o fez esquecer suas raízes. Tanto que ele guarda com carinho o cocar e os adereços de cintura e de pernas feitos com pena de papagaio e gavião presenteados pela família. A mãe, Eronildes da Silva Bastos Puyanawa, partiu para uma condição melhor fora das terras indígenas, a exemplo do que fez o mesmo outras centenas de famílias puyanawa. Hoje, ela mantém um quiosque com lanches, às margens do Igarapé Preto, na Estrada do Aeroporto, em Cruzeiro do Sul, enquanto o esposo trabalha no cultivo de hortas no quintal da casa deles, no bairro Boca da Alemanha. Eriton foi apresentado para a música numa palestra na escola sobre o projeto, proferida pelos membros do Ministério Público do Estado do Acre. Tomou gosto, a princípio, pelo piano. Mudou no caminho e abraçou o violino. Levou junto a prima Evelyn, garota quase homônima à da 'voz de oncinha' dos olhos do avô que abre a reportagem. De volta ao cupicháu, como é chamada a grande casa de palha construída no centro da aldeia especialmente para as celebrações, os primos experienciam um momento único: como se os sons ancestrais do Povo do Sapo [significado de Puyanawa] se encontrassem, na dimensão da música, com os acordes atuais das rabecas dos jovens descendentes indígenas. A canção 'Winter Has Come', do álbum da superprodução do cinema Games of Thrones, reverbera mata a dentro, deixando o ambiente com um ar ainda mais mágico do que já é a fascinante região. "Me sinto muito bem, tocando violino. Sinto que a música me completa, e mesmo estando longe da aldeia, acredito que ainda serei muito útil ao meu povo, quando me tornar profissional e poder divulgar os nossos costumes para mais pessoas no mundo", pontua Eriton, cujo exemplo de dedicação serviu para a prima, tímida, porém cheia do amor pela música. "Posso dizer que a música também mudou a minha vida", diz, com um leve sorriso no rosto, apressando-se em segurar o violino contra os ombros para fazer o que mais gosta. Os puyanawa estão há muitos séculos na região do Juruá e hoje manifestam a sua preocupação com o anúncio de que a BR-364, que chega a Mâncio Lima, poderá ser prolongada até a fronteira com o Peru, ligando o Juruá à cidade peruana de Pucallpa. Esse trecho, a exemplo da estrada do Pacífico, pela BR-317, até o município de Assis Brasil, no Vale do Alto Acre, é visto como potencialmente promissor pela maioria dos prefeitos locais, para que os municípios da região possam atingir mercados da costa do Pacífico – e da Ásia –, pelos portos peruanos. O clima de apreensão tem uma razão: eles temem que a abertura da estrada possa impactar, negativamente, na vida de milhares de famílias indígenas de várias etnias, sobretudo, do povo Puyanawa, hoje detentor de 24 mil hectares de reserva, cuja uma parcela considerável dos 750 indivíduos que vivem nestas terras, reside relativamente próxima às margens da rodovia. OUÇA: AMENO EXECUTADA PELA ORQUESTRA E CORAL DO JURUÁ
O dinheiro do crime revertido para o bem O Conservatório de Música do Juruá vive de doações. Recebe ajudas financeiras esporádicas de pessoas físicas, e da Prefeitura de Cruzeiro do Sul tem a garantia de parte do pagamento da energia elétrica. Promotores de Justiça, de Cruzeiro e de Rio Branco, também auxiliam depositando regularmente alguma quantia na conta da instituição. Outra parcela considerável vem de recursos do Tribunal de Justiça do Estado do Acre, por meio do Fórum de Cruzeiro do Sul. Dinheiro arrecadado por punições a criminosos e infratores em práticas como porte ilegal de armas, tráfico de drogas e multas de trânsito e de crimes ambientais, entre outros delitos que permitem auxiliar nas despesas com a manutenção e a limpeza do Conservatório, construído em um terreno de uma casarão abandonado pertencente à Sociedade Simone Weaver. A instituição é ligada à Diocese de Cruzeiro do Sul e responsável pela fundação do Educandário em 1952, à época, uma necessidade para dar assistência aos filhos de hansenianos submetidos ao isolamento. O primeiro instrumento musical foi um piano M. Schwartzmann, de propriedade de Bueno, e trazido do interior do Paraná, sua terra-natal, com transporte custeado pelo próprio promotor. Um mutirão encabeçado por ele, por amigos voluntários e músicos do Exército Brasileiro ergueram, quase de forma heroica, o galpão do Conservatório, onde hoje as aulas acontecem. Por meio de emendas de bancada de parlamentares, foi possível a compra de mais instrumentos musicais e de uma van para transportar a orquestra e o coral aos locais de apresentação. A 'menina dos olhos' do Conservatório, no entanto, é a Banda Garotos do Sótão, que uma vez por mês promove apresentações de pop-rock no espaço adaptado no sótão da casa, verdadeiramente. O local, que tem como um dos coordenadores o professor Agnaldo Rodrigues da Silva, é frequentado pela sociedade cruzeirense por conta do seu requinte. "As pessoas pagam R$ 40 para virem aqui se divertir e todas que vêm adoram o espaço", ressalta o professor de música. O convite pode ser obtido também via depósito, direto na conta-corrente do educandário da Sociedade Simone Weaver e o espaço comporta de 80 a 90 pessoas. Em encontro recente com o governador do Estado do Acre, Gladson Cameli, e a equipe do Conservatório de Música do Juruá, o governador anunciou a entrega do Teatro do Náuas para que os próprios músicos possam administrá-lo, assim como a contratação de músicos formados pela Faculdade de Música da Universidade Federal do Acre, campus de Cruzeiro do Sul, para lecionar na instituição. As metas estão na fase de construção. OUÇA: ERA UMA VEZ EXECUTADA PELA ORQUESTRA E CORAL DO JURUÁ
Pela internet, garotada vota e ganha R$ 100 mil do Movimento Bem Maior O Movimento Bem Maior, uma rede de financiamento de projetos que tem como colaboradores o apresentador de TV Luciano Huck e Eugenio Mattar, CEO da empresa de aluguéis de carros Localiza, vai doar R$ 100 mil ao projeto. Os recursos, com previsão de serem liberados até o próximo mês, já têm destino certo: serão utilizados para o pagamento de professores e para a compra de novos instrumentos, segundo o coordenador Iverson Bueno. O esforço da garotada em votar pela internet foi fundamental para que o dinheiro entrasse na conta do Educandário de Cruzeiro do Sul, entidade parceira do Conservatório. Dos 100 projetos que conseguiram ter acesso ao edital da organização, apenas 50 vão receber até R$ 100 mil cada um, incluindo o Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, que ficou na décima primeira posição, com 1973 votos obtidos pela web. Pelo menos 2.076 projetos, de todo o país, concorreram ao edital, o que faz dos integrantes do Conservatório se sentirem ainda mais vitoriosos. "O esforço de cada um deles, chamando o pai, o tio e o vizinho para votar, nos garantiu essa vitória", destaca Bueno. O Movimento Bem Maior foi criado por uma rede de colaboradores que acreditam, como está no próprio site da instituição, que "a transformação só é possível juntando forças e diferentes ativos – afeto, conhecimento, tempo, dinheiro". "A gente pensa grande e leva a sério a ideia de um mundo melhor para todos: eu, você, eles, nós. Para isso acontecer, unimos contatos, redes e afetos ao criar o Movimento Bem Maior, que nasce com a determinação de transformar realidades e construir um país melhor", relata o site, que pode ser acessado no endereço https://movimentobemmaior.org/ Por meio de uma curadoria especial, eles identificam, apoiam e dão visibilidade a causas sociais e instituições sérias, dos mais variados setores e tipos, espalhadas por todo o Brasil. A ideia é encurtar caminhos e, principalmente, facilitar a busca pela instituição com que mais os internautas se identificam.
Onde organizações criminosas buscam aliciar jovens a todo o tempo, o som das tubas, dos trompetes e dos violinos chegam como armas de pacificação e de proteção das vidas de centenas de crianças e adolescentes de Cruzeiro do Sul (a segunda maior cidade do Acre, distante 640 quilômetros de Rio Branco). Passados dois anos e seis meses da fundação do Projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, do Ministério Público do Estado do Acre, até agora, pouco se tinha falado sobre as histórias de superação desses jovens, muitos na iminência da depressão ou do aliciamento do tráfico de drogas e das organizações criminosas. Nesta reportagem, saiba como uma orquestra e um coral formados só de crianças e adolescentes de famílias pobres estão permitindo o crescimento saudável destes jovens, longe da criminalidade e mais próximos da arte da música. Reportagem: Resley Saab | Fotografia: Marcos Vicentti | Vídeo: Pedro Devani | Arte: Brunno Damasceno | Edição: Marcio Ferreira Histórias de dignidade num conservatório de música da Amazônia PARTITURAS PARA A VIDA
Rio Branco, segunda-feira, 18 de novembro de 2019
Da 'casa das bruxas' para 'a casa das tubas' Dois anos e meio se passaram desde que músicos apoiados por um promotor de Justiça, por comerciantes, políticos e instituições públicas se imanaram para tocar um projeto cujo objetivo é ensinar música e canto erudito para a maior quantidade possível de crianças e adolescentes, a maioria filhos de pessoas abaixo da linha de pobreza, parte mais ocidental do Brasil, em meio à selva amazônica e aos pés da Serra do Divisor, a região mais rica em biodiversidade da Amazônia, no município de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá. Num dos maiores corredores do tráfico de drogas do país, dezenas de famílias ainda se afastam da curva da qualidade de vida em um fenômeno parecido ao observado nos grandes centros do Brasil. Foi neste ambiente que surgiu a maior oportunidade já oferecida a famílias carentes da região, o projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, do Ministério Público do Estado do Acre de Cruzeiro do Sul. Acrônimo para MPAC. No galpão antes abandonado, conhecido por 'casa das bruxas' dado ao enorme número de usuários de drogas que frequentava o local, hoje se ouve e se fala muito de Tchaikovsky, Beethoven, Mozart e Chopin. Mas também entram Pavarotti, Ana Vilela e o ‘Trem Bala’ e até Kell Smith e as doces lembranças da infância, quando o joelho ralado doía bem menos que uma paixão não correspondida. No Conservatório de Música do Juruá, o amor, centelha para uma vida plena de significado, acendeu para as pessoas mais pobres. De "casa das bruxas", o local virou 'casa das tubas', e também dos violinos, dos violoncelos, dos pianos e das bocas pequenas de corações ávidos por proteção e carinho. Na segunda maior cidade do Acre, estimativa de 88,3 mil moradores para dezembro de 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, são muitas as vitórias de jovens que deixaram a depressão ou que escaparam do aliciamento de criminosos, entre as mais de 400 crianças e adolescentes que participam do projeto. A seguir conheça algumas dessas histórias:
Professor de violino e lavador de carros com orgulho, sim senhor No Cruzeirão, o lavador de carros Francisco Castro de Araújo, 50 anos, tem pressa de entregar o Chevrolet Prisma recém-higienizado. Com a flanela em punho, ele alisa o veículo como se o próprio dono fosse. Na quebrada de um dos bairros mais populosos de Cruzeiro do Sul, lar de mais de quinze mil pessoas de baixa renda, ele toca o seu lava-jato. Neste dia, Francisco foi homenageado pelo violinista Rodrigo Paixão de Araújo, 24, também lavador de carros e seu filho. Hallelujah, reverberou aos ouvidos do homem turrão, mas de um coração imenso. Esboçou lágrimas ao ver o filho tocando o instrumento com a mesma espontaneidade com que sempre o ajudou a lavar os carros. Rodrigo nasceu em Manaus e até os 17 anos conciliou os estudos na escola pública com as aulas de violino no Conservatório Claudio Santoro, na capital amazonense, um dos mais renomados do país. Lá recebia uma bolsa de R$ 260 para estudar música. Nos finais de semana, quando não estava estudando, auxiliava o pai no posto de lavagem. A família retornou a Cruzeiro, quase uma década depois. "E foi aqui, em Cruzeiro, que me falaram do projeto do Ministério Público. Eu topei na hora quando me disseram que eu podia lecionar violino pra meninos e meninas carentes. E a coisa ficou melhor ainda quando me informaram que iriam me dar um emprego no Ministério Público. Nessa hora, choveu no roçado", relembra. Hoje, o jovem professor já não lava mais carros com frequência por causa do ofício de músico. Participa da banda 'Garotos do Sótão'. Deixou um pouco de lado a profissão de lavador de carro, mas não o orgulho de ser flanelinha. "Eu não preciso ter vergonha do que fui. Pelo contrário, tenho muito orgulho do que fiz e mau pai ainda faz, tanto que até hoje, nas horas vagas, largo o violino pra ajudar o velho. Acredito que todos nós devemos nos esforçar por um mundo melhor. E fico muito feliz de ser o que sou, um professor que ajuda crianças e jovens a ter uma ocupação saudável pela música", orgulha-se. E o pai, o que tem a dizer sobre tudo isso? - foi a pergunta Francisco coça a cabeça, cerra as sobrancelhas, deixa cair uma lágrima do olho direito e com a voz já embargada, diz: "Hoje a gente vê ele fazendo essas apresentações. Aí bate um orgulho danado. É uma gratidão daquelas que a gente fala assim: muito obrigado, meu Deus, porque esse moleque nunca me deu problema. Eu só tenho é muito orgulho dele". No momento do registro em vídeo para esta reportagem, jovens curiosos com a nossa presença circulavam ao redor. A observação velada era para mostrar que eles estavam a serviço de uma facção. Um recado traduzido como: "Estamos de olho em vocês. Cuidado com a gente". Como em toda cidade de fronteira, bairros considerados populosos como o Cruzeirão foram tomados por organizações criminosas. O Grupamento Especializado em Fronteira, o Gefron, recém-criado pelo Governo do Estado do Acre, já prepara uma série de ofensivas contra o narcotráfico na região do Juruá. Por fazer fronteira com o Peru, a região é potencialmente promissora para o tráfico desde regiões remotas do Peru por meio de rios e igarapés que dão acesso ao território nacional.
Amor ao próximo e valorização da vida Quando se pensa em conservatório, imagina-se logo um monte de jovens preocupados em afinar os instrumentos, tensos para se apresentar melhor a cada ensaio do coral, apressados para folhear as partituras. E no Conservatório, tudo é importante, mas não imprescindível. A prioridade mesmo é o bem-estar físico, emocional e espiritual. "Apenas 10% do nosso tempo é dedicado à música. Os 90% restantes é cidadania, amor ao próximo e valorização da vida", explica o promotor de Justiça Iverson Bueno, com o semblante de vencedor. O jovem integrante do Parquet foi precursor do Projeto Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, auxiliado por amigos da Igreja e do Exército Brasileiro, quando este sequer tinha sido incorporado à carteira de projetos do Ministério Público do Estado do Acre. Para além da música, existe um esforço cotidiano dos professores e demais integrantes em favor do auxílio a jovens que passam por problemas pessoais, sejam decorrentes de situações familiares ou inerentes à própria adolescência, a fase considerada pela psicologia como a mais conturbada na existência de uma pessoa. "Vejam vocês que estamos lidando com pessoas que estão na fase mais crítica de suas existências. São crianças e adolescentes muito pobres, com pais passando por problemas de alcoolismo ou que encontram dificuldades até de se alimentar pela falta de condições financeiras. Eles vêm para o Conservatório e aqui, muitas vezes, se sentem muito melhor do que se estivessem no seio familiar", ressalta Bueno. São casos como a de uma jovem que retornou da apresentação de Brasília com o sentimento de tristeza pela família não ter tido a oportunidade de compartilhar o que ela viu: novos lugares e pessoas. "A menina esteve à beira de uma depressão. Criou uma proximidade entre euforia e, ao mesmo tempo, de tristeza por seus familiares não estarem juntos a tudo que ela experimentou lá fora", explica o promotor. "Outros dizem que prefeririam morar aqui no conservatório a estar nas suas casas e tento não me envolver muito. Até agora foi tudo no amor, sempre buscando a profissionalização". Os jovens têm ainda à disposição atendimento com psicólogos do próprio Ministério Público. Iverson Bueno e a equipe preparam um pacote adicional para o projeto, chamado provisoriamente de 'Escola da Vida'. Nele, o promotor lecionará oratória para jovens com receio de falar em público e oferece aulas de palestras com temas como Defesa do Meio Ambiente e Cidadania, que também estão sendo preparadas com vista às escolas públicas. Outros dois projetos em curso são o 'Mestre do Ping-Pong', para desenvolver o raciocínio lógico pelo jogo e o de alfabetização de idosos pela música.
" A reflexão que a gente faz é a de que, quando começamos, o projeto era de cunho social: tirar jovens da ociosidade por meio da música. E hoje, muitos pais têm o Conservatório como o divisor de águas entre o que seus filhos eram antes e o que são hoje. Os pais perceberam o carinho como suas crianças e adolescentes são tratados. E já observam que seus filhos mudaram para melhor. Iverson Bueno Promotor de Justiça
O 'matador de onça' e a netinha soprano
Autovalorização e respeito ao próximo são algumas das lições aprendidas no Conservatório de Música do Juruá, e virtudes como altruísmo, resiliência e amor à família são o que forjam meninos e meninas como Evelin Vitória Brito da Silva. Aos 14 anos, ela é a soprano, voz que ajuda a todas as demais a evoluírem na cadência dos ritmos. A garota foi descoberta na própria escola, quando os organizadores do projeto procuravam, no ensino público, talentos que pudessem fazer parte do coral. Evelin vive com a mãe e a irmã, numa casa simples, mista de madeira e alvenaria no bairro Cruzeirão, tendo como chefes da família os avós, Maria Rodrigues de Brito, de 85 anos, e João Manoel Rodrigues de Brito, de 95, o 'maior matador de onça' da década de 1940 nas matas do Juruá, título que ele mesmo se confere sem nenhuma modéstia. E a sua obsessão pelo felino reverbera no trato com que dispensa a neta. Ao nos receber na residência deles, enquanto Evelin estava na escola, fez questão de pegar um retrato da netinha na estante para posar com dona Maria para a foto que ilustraria a reportagem. "Olha. Vou lhe dizer uma coisa: a voz da minha neta é igualzinha ao esturro da onça. Não tem do que tirar. A onça faz medo só de abrir a boca. Ela faz rú-rú-rú-rú. Já a goela da Evelin não assusta que nem a do bicho, mas as duas são parecidas". Por quase toda a vida foi morador do Seringal Porto Said, uma faixa de terra no interior da floresta, a 120 quilômetros, subindo o Rio Juruá, no município de Porto Walter, muito explorado no período áureo da borracha, nos anos 1940, quando o látex era retirado para fabricar pneus de carros e tanques de guerra dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Para a jovenzinha, tudo o que está acontecendo ao seu redor é uma avalanche de felicidades. "Está sendo inexplicável pra mim, porque imagine você que um soprano é difícil de encontrar. Aí, no meio de várias pessoas, Deus me dá esse dom e a oportunidade de me descobrirem. Vocês entendem como Deus me ama e como também devo amar as pessoas que me ajudaram?" Evelin da Silva nunca tinha viajado para outra cidade que não estivesse distante mais que 60 quilômetros da sua casa: as cidades de Rodrigues Alves, Mâncio Lima e Guajará, no Amazonas. Num certo dia, embarcou num ônibus com os colegas do coral e da orquestra. Foi parar em Brasília. Se apresentou no Palácio do Planalto e aos ministros do Supremo Tribunal Federal, em viagem patrocinada pelo Ministério Público do Trabalho. A paisagem ao longo do caminho, plena de grandes plantios de soja, os prédios enormes das cidades do Centro Oeste brasileiro e as vias largas cheias de carros por todos os lados a deixaram impressionadas. Mas nada comparado ao momento mais singular da sua vida, desde que foi descoberto o seu talento para a música erudita. No retorno a Cruzeiro, Evelin conheceu o pai, morador de Porto Velho. "Eu amo meu avô, e todo esse esforço de me tornar uma menina bem-educada é também dele. Mas eu precisava muito conhecer meu pai biológico. Foi pouquinho tempo abraçado com ele. Fiquei pensando, mas não disse nada pra ele sobre como teria sido diferente se não tivéssemos nos separados. Dei-lhe um beijo, ele me deu outro na testa, me abençoou e voltei para o ônibus. Disso nunca mais vou esquecer". Nesse instantes, seus olhos se enchem de lágrimas.
CONHEÇA MAIS SOBRE O CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO JURUÁ
Na terra do Povo do Sapo, a trilha de Game of Thrones ecoa pela selva Alguns meses se passaram desde que Eriton Marques Bastos Puyanawa, 14 anos, esteve na sua aldeia-natal pela última vez, em Mâncio Lima, município distante 50 quilômetros de Cruzeiro do Sul. A vida corriqueira de estudar e aprender no Conservatório não o fez esquecer suas raízes. Tanto que ele guarda com carinho o cocar e os adereços de cintura e de pernas feitos com pena de papagaio e gavião presenteados pela família. A mãe, Eronildes da Silva Bastos Puyanawa, partiu para uma condição melhor fora das terras indígenas, a exemplo do que fez o mesmo outras centenas de famílias puyanawa. Hoje, ela mantém um quiosque com lanches, às margens do Igarapé Preto, na Estrada do Aeroporto, em Cruzeiro do Sul, enquanto o esposo trabalha no cultivo de hortas no quintal da casa deles, no bairro Boca da Alemanha. Eriton foi apresentado para a música numa palestra na escola sobre o projeto, proferida pelos membros do Ministério Público do Estado do Acre. Tomou gosto, a princípio, pelo piano. Mudou no caminho e abraçou o violino. Levou junto a prima Evelyn, garota quase homônima à da 'voz de oncinha' dos olhos do avô que abre a reportagem. De volta ao cupicháu, como é chamada a grande casa de palha construída no centro da aldeia especialmente para as celebrações, os primos experienciam um momento único: como se os sons ancestrais do Povo do Sapo [significado de Puyanawa] se encontrassem, na dimensão da música, com os acordes atuais das rabecas dos jovens descendentes indígenas. A canção 'Winter Has Come', do álbum da superprodução do cinema Games of Thrones, reverbera mata a dentro, deixando o ambiente com um ar ainda mais mágico do que já é a fascinante região. "Me sinto muito bem, tocando violino. Sinto que a música me completa, e mesmo estando longe da aldeia, acredito que ainda serei muito útil ao meu povo, quando me tornar profissional e poder divulgar os nossos costumes para mais pessoas no mundo", pontua Eriton, cujo exemplo de dedicação serviu para a prima, tímida, porém cheia do amor pela música. "Posso dizer que a música também mudou a minha vida", diz, com um leve sorriso no rosto, apressando-se em segurar o violino contra os ombros para fazer o que mais gosta. Os puyanawa estão há muitos séculos na região do Juruá e hoje manifestam a sua preocupação com o anúncio de que a BR-364, que chega a Mâncio Lima, poderá ser prolongada até a fronteira com o Peru, ligando o Juruá à cidade peruana de Pucallpa. Esse trecho, a exemplo da estrada do Pacífico, pela BR-317, até o município de Assis Brasil, no Vale do Alto Acre, é visto como potencialmente promissor pela maioria dos prefeitos locais, para que os municípios da região possam atingir mercados da costa do Pacífico – e da Ásia –, pelos portos peruanos. O clima de apreensão tem uma razão: eles temem que a abertura da estrada possa impactar, negativamente, na vida de milhares de famílias indígenas de várias etnias, sobretudo, do povo Puyanawa, hoje detentor de 24 mil hectares de reserva, cuja uma parcela considerável dos 750 indivíduos que vivem nestas terras, reside relativamente próxima às margens da rodovia. OUÇA: AMENO EXECUTADA PELA ORQUESTRA E CORAL DO JURUÁ
O dinheiro do crime revertido para o bem O Conservatório de Música do Juruá vive de doações. Recebe ajudas financeiras esporádicas de pessoas físicas, e da Prefeitura de Cruzeiro do Sul tem a garantia de parte do pagamento da energia elétrica. Promotores de Justiça, de Cruzeiro e de Rio Branco, também auxiliam depositando regularmente alguma quantia na conta da instituição. Outra parcela considerável vem de recursos do Tribunal de Justiça do Estado do Acre, por meio do Fórum de Cruzeiro do Sul. Dinheiro arrecadado por punições a criminosos e infratores em práticas como porte ilegal de armas, tráfico de drogas e multas de trânsito e de crimes ambientais, entre outros delitos que permitem auxiliar nas despesas com a manutenção e a limpeza do Conservatório, construído em um terreno de uma casarão abandonado pertencente à Sociedade Simone Weaver. A instituição é ligada à Diocese de Cruzeiro do Sul e responsável pela fundação do Educandário em 1952, à época, uma necessidade para dar assistência aos filhos de hansenianos submetidos ao isolamento. O primeiro instrumento musical foi um piano M. Schwartzmann, de propriedade de Bueno, e trazido do interior do Paraná, sua terra-natal, com transporte custeado pelo próprio promotor. Um mutirão encabeçado por ele, por amigos voluntários e músicos do Exército Brasileiro ergueram, quase de forma heroica, o galpão do Conservatório, onde hoje as aulas acontecem. Por meio de emendas de bancada de parlamentares, foi possível a compra de mais instrumentos musicais e de uma van para transportar a orquestra e o coral aos locais de apresentação. A 'menina dos olhos' do Conservatório, no entanto, é a Banda Garotos do Sótão, que uma vez por mês promove apresentações de pop-rock no espaço adaptado no sótão da casa, verdadeiramente. O local, que tem como um dos coordenadores o professor Agnaldo Rodrigues da Silva, é frequentado pela sociedade cruzeirense por conta do seu requinte. "As pessoas pagam R$ 40 para virem aqui se divertir e todas que vêm adoram o espaço", ressalta o professor de música. O convite pode ser obtido também via depósito, direto na conta-corrente do educandário da Sociedade Simone Weaver e o espaço comporta de 80 a 90 pessoas. Em encontro recente com o governador do Estado do Acre, Gladson Cameli, e a equipe do Conservatório de Música do Juruá, o governador anunciou a entrega do Teatro do Náuas para que os próprios músicos possam administrá-lo, assim como a contratação de músicos formados pela Faculdade de Música da Universidade Federal do Acre, campus de Cruzeiro do Sul, para lecionar na instituição. As metas estão na fase de construção. OUÇA: ERA UMA VEZ EXECUTADA PELA ORQUESTRA E CORAL DO JURUÁ
Pela internet, garotada vota e ganha R$ 100 mil do Movimento Bem Maior O Movimento Bem Maior, uma rede de financiamento de projetos que tem como colaboradores o apresentador de TV Luciano Huck e Eugenio Mattar, CEO da empresa de aluguéis de carros Localiza, vai doar R$ 100 mil ao projeto. Os recursos, com previsão de serem liberados até o próximo mês, já têm destino certo: serão utilizados para o pagamento de professores e para a compra de novos instrumentos, segundo o coordenador Iverson Bueno. O esforço da garotada em votar pela internet foi fundamental para que o dinheiro entrasse na conta do Educandário de Cruzeiro do Sul, entidade parceira do Conservatório. Dos 100 projetos que conseguiram ter acesso ao edital da organização, apenas 50 vão receber até R$ 100 mil cada um, incluindo o Musicalizando Pessoas com Amor e Carinho, que ficou na décima primeira posição, com 1973 votos obtidos pela web. Pelo menos 2.076 projetos, de todo o país, concorreram ao edital, o que faz dos integrantes do Conservatório se sentirem ainda mais vitoriosos. "O esforço de cada um deles, chamando o pai, o tio e o vizinho para votar, nos garantiu essa vitória", destaca Bueno. O Movimento Bem Maior foi criado por uma rede de colaboradores que acreditam, como está no próprio site da instituição, que "a transformação só é possível juntando forças e diferentes ativos – afeto, conhecimento, tempo, dinheiro". "A gente pensa grande e leva a sério a ideia de um mundo melhor para todos: eu, você, eles, nós. Para isso acontecer, unimos contatos, redes e afetos ao criar o Movimento Bem Maior, que nasce com a determinação de transformar realidades e construir um país melhor", relata o site, que pode ser acessado no endereço https://movimentobemmaior.org/ Por meio de uma curadoria especial, eles identificam, apoiam e dão visibilidade a causas sociais e instituições sérias, dos mais variados setores e tipos, espalhadas por todo o Brasil. A ideia é encurtar caminhos e, principalmente, facilitar a busca pela instituição com que mais os internautas se identificam.