Marianas

“Seu perfume tá impregnado nesse quarto escuro, que saudade desse cheiro de cigarro e desse álcool puro…”

A música “Rita”, do cantor Tierry, hit nas rádios e plataformas digitais de streaming, explicita os pormenores de uma relação amorosa, em que o homem acaba se posicionando em uma situação que, geralmente, é ocupada por uma mulher. A possível “inversão dos papeis” no trecho acima pode nos fazer refletir sobre dois pontos de vista: o primeiro, de mostrar que a mulher pode, sim, assumir personalidades as quais na maioria das vezes não está inserida; o segundo, antagônico ao anterior, de que o homem é a vítima da história e que a mulher é a vilã, a maldosa, a perigosa, a subversiva, a “desgramada”. Nesse dilema, quem escolhe o que pensa é o ouvinte, mas uma coisa há de ser refletida: por que as mulheres são figuradas, na maioria das músicas sertanejas/arrocha, como as culpadas?

Antes de você adentrar na leitura, vale ressaltar que esse artigo foi escrito a seis mãos. Entre uma pauta e outra, surge sempre aquele momento de descontração em que é possível refletir e comentar com os colegas sobre o que acontece mundo a fora. Assim surgiu a temática da música Oh, Rita, do cantor e compositor Tierry, e a forma que este apresenta a mulher como uma traidora e que toma para si características comumente apresentadas por homens diante dos relacionamentos.

É muito comum, na vida real, vermos as mulheres sendo responsabilizadas por inúmeras atitudes. Obviamente, ninguém está passível de erros, mas quando, por exemplo, analisamos os motivos pelos quais o presídio feminino está tão cheio, vemos que 59,98% das presas no Brasil respondem por tráfico de drogas ou associação ao tráfico, segundo dados do Infopen Mulheres 2017, divulgado no final de 2019. A maioria das “mulas do tráfico”, como são chamadas, entram nestas emboscadas justamente por influência dos companheiros ou de outros homens que sugerem um valor X para o transporte da droga e, acompanhado da quantia em dinheiro, dão de “brinde” a responsabilidade de responderem por um crime, atrás das grades, de 5 a 15 anos.

É notório que quando essas responsabilidades são assumidas, as mulheres envolvidas têm ciência de que estão cometendo delitos que podem privá-las de liberdade. No entanto, a sociedade já se apegou ao pressuposto de que tudo é somente culpa delas e que não tem ninguém mais envolvido na história além delas próprias. Isso pôde ser notado a partir do polêmico caso Mariana Ferrer, uma digital influencer e promotora de eventos estuprada em dezembro de 2018 enquanto estava desmaiada, pois, de acordo com ela, fora drogada antes do ato. As provas e investigações levantaram o envolvimento do empresário André de Camargo Aranha no caso. Porém, durante o julgamento ocorrido no dia 3 de novembro, Ferrer foi duramente criticada e violentada psicologicamente a partir das acusações feitas pelo advogado do réu, Cláudio Gastão da Rosa Filho, que pôs em prova a virgindade da influencer e expôs fotos as quais, segundo ele, Ferrer se encontra em posições “ginecológicas” e sensuais.

Nessa situação, é possível observar que quem estava sendo julgada na verdade não era o réu, mas a vítima. Essa cultura de presumir que a culpa é única e exclusivamente da mulher pôde ser observada e exemplificada no trecho do julgamento que ganhou visibilidade, momento no qual Mariana exige respeito. “Excelentíssimo, estou implorando por respeito, nem os acusados de assassinato são tratados do jeito que estou sendo tratada, pelo amor de Deus, gente. O que é isso?”.

“Tá, mas aonde vocês querem chegar com isso?” Bom, o que queremos dizer é que a cultura de sempre querer culpar a mulher está desde os casos mais polêmicos (como o de Mariana Ferrer) até entre os detalhes mais sutis. E como a música também contribui para o desenvolvimento interpessoal, ela pode atuar como uma grande aliada à manutenção do machismo enraizado quando olhamos as letras e o que elas querem  dizer com isso.

Podemos até fazer uma comparação com o caso fictício da “Rita” e a obra Dom Casmurro, em que o autor Machado de Assis escreve o livro trazendo apenas a visão de Bentinho, que acredita que foi traído por Capitu. No eu-lírico da canção, o que se observa é que, apesar de ela o ter feito “de gato e sapato”, ele a perdoa, pois, o amor fala mais alto. Usualmente, esse “perdão” e, consequentemente, o de “retirar a queixa” são práticas oriundas das mulheres que sofrem violência doméstica. Segundo dados coletados pelo Instituto Datafolha, divulgados em fevereiro de 2019, 52% das mulheres que sofreram agressões ficaram caladas. Dentre os motivos, elas destacam que a retirada se deveu à reconciliação.

Outra canção famosa do gênero arrocha, “Porque homem não chora”, do cantor Pablo, também joga a culpa para a mulher pelo fracasso do relacionamento. Basta observar o trecho a seguir: “Você foi a culpada desse amor se acabar, você quem destruiu a minha vida, você que machucou meu coração, me fez chorar e me deixou num beco sem saída”. O que fica subentendido [e, por vezes, até explícito mesmo] nas letras de muitas canções hit, a exemplo destas, é que o homem é sempre o que sofre e nunca o que comete os atos de violência e descaso nos relacionamentos.

Obviamente, existem casos e casos. Contudo, o que não devemos deixar passar em branco é que as tentativas de desmoralizar e culpar as mulheres não vêm de agora e não vão acabar de uma hora para outra, infelizmente. As canções, enquanto agentes de influência social e cultural, acabam levando a sociedade rumo à manutenção de tais ideais que continuarão a inviabilizar e perseguir muitas “Marianas” que clamam por respeito e socorro.

Elenilson Oliveira é servidor público da Assessoria de Comunicação do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen), jornalista e estudante de publicidade e propaganda

Ingrid Guedes é estudante de jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac) e estagiária de comunicação na Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp)

Renato Menezes é estudante de jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac) e estagiário de comunicação na Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp)