Liberdade

Por Milton Chamarelli Filho*

Sempre discordei do pensamento de que a liberdade é uma questão de escolhas, porque escolher é optar por uma das alternativas assentes das quais resultará a sua decisão. Na nossa vida comezinha: quando você não casa, te perguntam: “Por que você não casa?”, quando você casa, te indagam: “Por que você não tem filhos?”, e assim por diante. Mas o processo de escolher parece mais incômodo do que de fato é. Porque quanto mais escolhas você faz, mais imerso em uma cultura você está. Também mais sujeito ao que essa cultura já estipula para você: o que é bom ou mau, o que é feio ou belo, o que é ser são ou louco etc. 

Em uma escala, eu posso ser “bom” e “mau”, mas não necessariamente mau ou bom, 24 horas por dia. Cabe nessa nuance a indiscutível frase de Lulu Santos: “Não desejamos mal a quase ninguém”. Entre belo e feio, endosso a frase do Padre Antônio Vieira, que escreveu: “Se os olhos veem com o amor, o corvo é branco”. Entre a sanidade e a loucura, é melhor pensarmos com Caetano quando afirma que “de perto ninguém é normal”. Todas elas nos ensinam que estamos entre áreas limítrofes, que estamos entre fronteiras movediças que separam a mesma terra, entre Tijuana e San Diego. 

Somos do mesmo território da criação e da imaginação, que não distingue a arte da matemática, a língua de seu uso, a mente do corpo e os seres; todos os seres em uma grande pangeia. Por outro lado, há muitos contornos, parâmetros e disciplinas que nos cercam em falsas cidadelas, e acreditamos neles. E nos deixamos conduzir por eles porque toda arte da ideologia é transformar o que é cultural em natural.   

Primordialmente somos amorais e por isso mesmo inventamos a cultura para frear nossa imoralidade idílica, nosso ser plural, nuançado, erotizado na pele porque é por ela que o todo tesão se espraia, sem comedimento.

Há muitos recortes e muitas escolhas. A vida lhe propõe um puzzle e você pode não se encaixar ali ou pode se incluir entre os outros retalhos de cultura, e daí você pode ser algo classificável, numérico, que pode ser achado em qualquer tempo e lugar. Toda tecnologia contribuiu para que sejamos “vigiados por máquinas”. Entra-se na rede social, mas você concede todos os seus quereres ao guru que vai lhe oferecer a pílula vermelha ou azul, de Matrix. O algoritmo ou, quem sabe, o “novo oráculo” vão determinar as suas escolhas.  

Pense em todas seleções que já fez e quanto isso tudo não é cultural e social, ou não diz respeito ao modo como são representados cada comportamento, cada ato, cada gesto, por menor que sejam. Cada um deles com o seu pequeno ou grande valor, mas você está ali, entre eles. 

Escolher é atribuir um valor, sempre antes avaliado pelos significados que as escolhas têm. Um significado pode estar em uma palavra ou no raio das suas ações ao longo da vida. O significado de “liberdade” nunca nos chega só. Quase sempre se nos apresenta com o seu oposto: a prisão, a não liberdade de expressão, a proibição etc. Como outros conceitos tão caros à nossa sociedade, ele precisa trazer em sua memória a sua negação. Porque só assim ela é lembrada, e a sua condição dupla, conflituosa é de novo trazida à baila. Eu busco um conceito de liberdade como uma pura qualidade positiva do existir, sem referência a qualquer outra coisa. Não há ética ou moral na liberdade porque ser liberto é estar liberto sem saber que se o é.

Mas a sociedade não lhe permite não escolher. Não escolher é dizer para a sociedade que você não quer fazer parte da torcida dos bandeiras azuis ou dos bandeiras vermelhas. Não significa também estar em cima do muro. Significa que o muro não é o parâmetro pendular que lhe delegaram para o qual são mandados os proscritos.  

De fato, a nossa sociedade está enredada de tal maneira que você não pode não escolher. Você só pode escolher até sem saber que o está fazendo, e o tempo todo. A sociedade sempre delega um lugar para os maus, os feios e os loucos, mas não para os que não escolhem ou para aqueles poucos que simplesmente resolveram se abster do que nos impõe; talvez porque ela precisa classificar, rotular, ou porque não consegue prender a angustiante “mosca na sopa”, de Raul Seixas.

Isso tudo me faz lembrar o texto Jorge Luis de Borges que diz: Em uma certa enciclopédia chinesa que se intitula Empório Celestial de Conhecimento Benevolente, está escrito, em suas remotas páginas, que os animais se dividem em a) pertencentes ao imperador b) embalsamados c) domesticados d) leitões e) sereias f) fabulosos g) cães em liberdade h) incluídos na presente classificação i) que se agitam como loucos j) inumeráveis k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo l) et cetera m) que acabam de quebrar a bilha n) que de longe parecem moscas.” 

O escritor argentino lida com duas impossibilidades: 1. a de existência desses seres; 2. a de formarem um conjunto. Dentro de seu realismo mágico, o autor dá vida a seres que só podem existir na imaginação, porém, com um peso de realidade na medida em que ele escolhe uma lista para enumerá-los. Daí o atrito e o estranhamento que se pode perceber à medida que se tenta combiná-los, em vão. É preciso engripar a máquina do automatismo e das convenções para voltarmos ao ser primordial, sem classificação.  

O estranhamento que o escritor de Ficções nos provoca é o limiar da linguagem e da arte, tão próximos da vida in continuum, lugar onde as cores são apenas frequências de luz e onde as sensações se misturam, sem saber que são “sensações”, lugar do inclassificável, como se pode deduzir desse trecho do poema de Manoel de Barros que eu vos deixo para reflexão: No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo. O delírio do verbo estava lá no começo, onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos. A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som. Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira. 

No delírio do verbo e das convenções, a palavra liberta, e a inocência se faz liberdade. 

 

*Milton Chamarelli Filho é professor titular da Universidade Federal do Acre (Ufac) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo