Depressão: É possível ficar de pé sobre o oceano?

Reportagem: Disney Oliveira | Fotografia: Daniel Cruz/Sara Braga |Diagramação: Talles Macedo

“Tua voz me chama sobre as águas, onde os meus pés podem falhar, e ali te encontro no mistério, em meio ao mar, confiarei. Ao Teu nome clamarei, e além das ondas olharei.
Se o mar crescer, somente em ti descansarei, pois eu sou teu e tu és meu.”

É difícil imaginar que seja possível ficar de pé sobre o oceano. O digital influencer Pablo Charife também não imaginava, até o dia em que precisou. E a canção da Ana Nóbrega fez parte da trilha sonora dessa história que, felizmente, acabou bem.

Digital Influencer e repórter Pablo Charife Foto: Daniel Cruz

O influenciador digital acreano é conhecido pelos usuários do Instagram por suas dicas indispensáveis sobre gastronomia e lazer. Charife tem mais de 28 mil seguidores e administra isso com muita leveza. Além disso, ele também é repórter em um programa local de entretenimento. O que alguns não sabem é que há 11 anos ele faz tratamento para a depressão. 

“Em 2008 eu fui diagnosticado com depressão. Eu não sabia muito como era isso, então o médico teve que me explicar o que era. Ele também teve que chamar os meus pais para conversar com eles e orientá-los. Eu lembro que foi muito difícil. Após isso, eu comecei o tratamento. Essa parte foi um pouco complicada, porque alguns remédios têm efeitos colaterais”.

 

Pablo também falou que como sua família é cristã foi preciso certo tempo para que compreendessem a situação e que o apoio dos familiares e amigos foi crucial para que ele seguisse em frente. Charife contou que já passou por momentos de extrema tensão, os quais culminaram em quatro tentativas de suicídio. Sendo a última destas a mais grave, sendo necessária a internação dele.

“Eu tentei me suicidar por quatro vezes. Eu sempre falo para as pessoas que são cinco segundos que você esquece tudo. Segundos que você se desliga. E no meu caso eu só queria descansar, eu não queria morrer. Eu queria ter paz! Porque a minha cabeça estava com tantos conflitos e vários pensamentos sobre as coisas que estavam acontecendo comigo”.

Charife destacou a importância do apoio da família e dos amigos Foto: Daniel Cruz

Charife disse que sua última tentativa foi um divisor de águas. Foi o momento em que ele decidiu que não queria mais passar por aquilo de novo. Hoje, com a continuidade do tratamento e o acompanhamento dos profissionais, o influencer está bem e segue alegrando os seus seguidores com os seus stories. Além disso, outro motivo o faz lutar para estar bem: sua mãe. Pablo também ressaltou a importância das ações do Setembro Amarelo: “É um momento que existe para trazer mais atenção para esse tema. É importante falar sobre a depressão! Não apenas falar, mas desenvolver ações desse tipo. Desenvolver não apenas em setembro, mas durante todo o ano. E hoje as pessoas já estão se identificando mais com a campanha, e isso é bom”.


Ministério Público avalia os resultados da campanha setembro amarelo 

O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) realizou durante o mês de setembro, uma campanha de combate e prevenção ao suicídio. Durante esse período foram promovidas mesas redondas e palestras em diversos lugares estratégicos. Além disso, o órgão atuou efetivamente por meio das redes sociais, principalmente com a divulgação de dados importantes sobre o tema e a publicação de posts com mensagens positivas.

Palestra sobre depressão e suicídio realizada pelo MPAC no mês de setembro Foto: cedida

Os resultados da campanha Setembro Amarelo foram além do esperado. A chefe do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Saúde, Pessoa Idosa e Pessoas com Deficiência (CAOP), Gisele Jabra, comentou: “tivemos uma grande procura, as pessoas ligavam ou faziam contato via redes sociais para participarem das nossas ações. Além disso, se faziam presentes nas palestras e mesas redondas em grande número.”

A importância das ações do MPAC

Jabra destacou a importância das ações desenvolvidas pelo MPAC e os planos para o futuro. Gisele falou sobre a importância das ações desenvolvidas pelo MPAC e dos planos para o futuro. Segundo ela, no começo eram ações simples e hoje, por causa da demanda, aumentaram as atividades. Ela também disse que o sofrimento das pessoas com a depressão é mais visível. Seja no trabalho, na faculdade ou escola, e que algumas delas passam por isso em silêncio.

“Infelizmente é uma doença que vem crescendo. Mas fizemos um relatório e temos dados que nos auxiliarão para a execução de um novo projeto. A meta é estender essas ações também aos municípios do Estado do Acre, e assim chegar até as escolas, faculdades e outros lugares estratégicos, concluiu.”

Dados sobre a depressão

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 2014, o Brasil está em oitavo dentre os países com maior número de suicídios, atrás de China, Estados Unidos, Rússia, Japão, Coréia do Sul e Paquistão. Por isso, no país é tratado como um problema de saúde pública. Além disso, é importante ressaltar que a maior ocorrência de casos é entre os jovens de 15 a 29 anos. 

De acordo com dados oficiais, uma média de 32 brasileiros comete suicídio por dia. Dessa forma, vai ultrapassando as taxas de mortes por aids e da maioria dos tipos de câncer. No estado do Acre, dados de 2018 informam que o Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb) registrou 1.132 atendimentos no plantão psicológico. Deste número, 394 pessoas deram entrada por tentativa de suicídio.

Conforme informa a Organização Mundial da Saúde, a depressão é resultado de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Segundo a instituição, pessoas que passam por eventos adversos durante a vida como o desemprego, luto e trauma psicológico são mais propensas a desenvolver depressão.

É importante ressaltar que são altos os índices entre populações rurais e entre grupos que sofrem discriminação como refugiados, migrantes, indígenas, pessoas LGBTQ+ e presidiários. E como já citado acima, dentre os que mais cometem o suicídio estão os jovens. Entretanto, sabe-se que há também incidências com os idosos.


Especialista

A psicóloga Priscila Lima falou a respeito da depressão. Além de explicar como a doença age, a profissional comentou sobre a forma de tratamento e prevenção.

“A depressão é uma alteração química no cérebro que distorce a forma de pensar e também de sentir as emoções. Por isso, é importante esclarecer que não se trata de frescura, preguiça, muito menos falta de força de vontade. É um problema sério e precisa de muita atenção e cuidado”.

Segundo a psicóloga, vários fatores podem desencadear a depressão, como a genética, a personalidade e também o ambiente. Priscila também informou que a doença deve ser tratada por meio de medicação, acompanhamento psicoterápico e apoio familiar. Ressaltou a importância deste último, visto que tanto o apoio da família quanto o apoio dos amigos é crucial para tratamento.

“Para se prevenir contra a depressão é importante manter uma alimentação saudável, praticar atividades físicas, diminuir os níveis de estresse, ter uma rotina com sono regular e, principalmente, caso já esteja diagnosticado com a doença, não interromper o tratamento. Infelizmente muitas vezes os pacientes acabam tendo resistência à medicação”, ressaltou Priscila. 

A psicóloga também destacou a importância do Setembro Amarelo. Para ela, as ações da campanha deveriam ser refletidas não apenas no mês de setembro, mas em todo o ano. Ela também explicou que como no dia 10/09 é o Dia Mundial da Prevenção, houve essa junção. Lima também falou sobre os altos índices de morte por suicídio, tanto no Brasil quanto no mundo.

A psicóloga Priscila Lima atende na Clínica Humanamente Foto: cedida

Mais sobre o amarelo

Com o objetivo de promover debates, palestras e atividades para a discussão sobre o suicídio, O Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) se uniram em 2015 e desenvolveram a campanha Setembro Amarelo. A escolha do mês não foi aleatória. O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Outro fator interessante é a escolha da cor amarela. Analisando conforme a semiótica (estudo dos signos e suas linguagens), constata-se que essa cor significa alegria ou felicidade. Um exemplo visível disso é o filme Divertidamente. No longa metragem, os sentimentos alegria, tristeza, nojo, medo e raiva são representados por personagens coloridos. De forma que a Alegria é representada pela cor amarela. 


Abordagem correta pela imprensa

O jornalismo deve ser responsável, de forma que o interesse público não pode ser confundido com o interesse do público. Os meios de comunicação devem ser prudentes não apenas com o que eles publicam, mas também com a forma como publicam. Mas para ajudar com isso, eles contam com o apoio do Código de Ética dos Jornalistas. E para apoiar os profissionais nas publicações referentes ao suicídio, a OMS disponibiliza um manual.

Assim, conforme instrui o manual, ao publicar sobre suicídio o jornalista deve interpretar corretamente as estatísticas e usar fontes confiáveis. Além disso, deve evitar o uso de expressões como “epidemia de suicídio” e abandonar teses que explicam o comportamento suicida como resposta às mudanças culturais ou à degradação da sociedade.

Os comunicadores também devem informar listas de serviços de saúde mental disponíveis, telefones e endereços de lugares onde se possa obter ajuda. Também deve ser feita a inserção de uma lista com os sinais de alerta de comportamento suicida. Além disso, é importante esclarecer que apesar da depressão está associada ao suicídio, ela está sujeita ao tratamento.


 Ajuda psicológica 

A Universidade Federal do Acre (Ufac) por meio do curso de Psicologia oferece atendimento psicológico gratuito tanto para alunos quanto para a comunidade externa. O Serviço-Escola de Psicologia funciona de segunda a sexta-feira, no bloco Francisco Bacurau, das 8h às 12h e das 14h às 18h. As inscrições devem ser feitas de forma presencial. Entre os serviços oferecidos estão psicoterapia individual, psicoterapia infantil, psicoterapia de grupo, plantão psicológico e avaliação psicológica.

Após fazer a inscrição é feito um processo de triagem grupal. Assim, os inscritos são organizados conforme a avaliação da equipe psicológica define. Há também o “plantão psicológico”, serviço oferecido fora da psicoterapia individual e dos grupos terapêuticos.  O plantão acontece às sextas-feiras e é normalmente indicado a pessoas em situação de crise e que precisam de atendimento emergencial. 

A Faculdade da Amazônia Ocidental (FAAO) também oferece atendimento psicológico gratuito para a comunidade. Assim como na Ufac, os interessados pelos serviços convencionais devem se dirigir até o local e realizar um cadastro.  Mas para aqueles que necessitarem dos serviços com urgência, basta solicitar o atendimento nos plantões psicológicos.