As cheias do Rio Acre e o luto sem morte: preponderando as perdas materiais – a dor que precisa ser respeitada

Por João Auricélio Sousa da Silva*

com colaboração de Rafael Lopes Pimpão* e Fábia Montenegro*

Quando se fala em luto, quase sempre a primeira imagem que vem à mente é a do sofrimento diante da perda de um ente querido, da morte de alguém, até mesmo de um animal de estimação. É um processo difícil e penoso para qualquer pessoa, porém, na prática, mesmo perdas que não envolvam a morte propriamente dita podem causar grande dor emocional e aflição, levando a quadros muito similares ao de um luto, com grande tristeza, episódios agudos de ansiedade e dor psíquica.

Eles podem ocorrer após qualquer perda importante: diante do término de um relacionamento, da perda de um emprego, da constatação de uma doença grave, quando se perde a perspectiva da vida, uma esperança, um sonho, a rotina; podem vir diante da aposentadoria, da perda de um papel social, da perda financeira, entre outros.

É muito comum, em catástrofes climáticas como as recorrentes alagações no estado do Acre, que frequentemente resultam em perdas materiais significativas, que essas situações causem um sofrimento devastador nas pessoas afetadas. Esses eventos extremos podem ter impactos de longo prazo nas comunidades afetadas, deixando sequelas emocionais, econômicas e sociais.

O isolamento causado por queda de rodovias, pontes, impedindo o abastecimento de produtos básicos, como alimentos, produtos de higiene pessoal, medicamentos, assim como os danos provocados na estrutura de edifícios e bens comuns que trazem benefícios à população, ou na produção agrícola, comprometendo inclusive o abastecimento de água potável e alimentação adequada, prejudicam a capacidade das comunidades de funcionar normalmente.

Muitas residências, mobílias, roupas e bens pessoais se perdem nessas alagações, e, independente do valor financeiro agregado, a sensação de impotência diante dessas perdas é semelhante à sensação diante da morte.

É comum, nessas situações, as pessoas precisarem abandonar seus pertences, sua moradia, para se instalarem temporariamente em abrigos públicos, ou com familiares e amigos, o que impacta diretamente na saúde mental dessas pessoas, pois o estresse pós-traumático, a ansiedade, a depressão e outras questões de saúde mental são comuns e recorrentes entre pessoas atingidas e sobreviventes de catástrofes climáticas, especialmente aqueles que perderam suas propriedades e bens.

Esses “lutos sem morte” são processos naturais, que precisam ser acolhidos e respeitados – pelos outros e pela própria pessoa. O impacto é absolutamente individual: não conseguimos mensurar sua intensidade e não devemos compará-lo ao sofrimento de outras pessoas que vivem situações parecidas. A dor emocional não é um processo linear, nem padronizado.

Além disso, fica exposta claramente a vulnerabilidade social das pessoas atingidas, uma vez que as pessoas de baixa renda são frequentemente as mais afetadas e não dispõem de recursos suficientes e adequados para se preparar para a enchente, ou mesmo se recuperar ou reconstruir seu patrimônio.

Acolher e olhar com atenção para esse sofrimento é muito importante – e a psicoterapia costuma ajudar muito nesse caminho. Encarar e reconhecer a própria tristeza faz parte do processo de superá-la. É um desafio emocional que não deve ser ignorado, nem minimizado.

Após esses acontecimentos, é crucial a agilidade e eficácia da disponibilização de ajuda humanitária, que inclui abrigo, alimentos, água potável, assistência médica, tanto para pessoas como para animais resgatados das áreas atingidas.

A assistência psicossocial é essencial para ajudar as pessoas a lidarem com o trauma, a superar as perdas, reconstruir suas vidas e fortalecer o espírito comunitário.

A psicoterapia oferece meios para que a pessoa, no seu tempo, aprenda a dimensionar a dor de uma perda e colocá-la no devido lugar, sem negá-la, mas também sem permitir que ela afete a vida por mais tempo do que o necessário.

Todo ser humano, em algum momento, precisará lidar com perdas. Elas fazem parte da vida de todos nós. Aprender a lidar com elas permite que se retome a caminhada com mais tranquilidade, abrindo-se à possibilidade de novos vínculos e focando-se nos ganhos que a vida tem a oferecer, mais do que nas perdas do caminho.

As perdas materiais em catástrofes, como a última alagação do estado do Acre, vão além dos danos físicos e estruturais, afetando profundamente a vida das pessoas e suas comunidades.  É importante que o poder público disponibilize, principalmente nos abrigos, a assistência psicológica a pessoas afetadas. Diversas estratégias e abordagens podem ser adotadas para oferecer suporte psicológico nessas situações, tais como:

  1.  Escuta ativa: ouvir as histórias e experiências das pessoas com empatia e compreensão, validando suas emoções e sentimentos, reconhecendo o impacto emocional da perda.
  2.  Aconselhamento psicológico: oferecer serviços de aconselhamento por profissionais da psicologia, por  meio de sessões individuais ou em grupos, para permitir que as pessoas expressem seus sentimentos e emoções frente à perda.
  3.  Grupos de apoio: criar grupos de apoio onde os afetados possam compartilhar experiências e desenvolver estratégias de enfrentamento proporciona um senso de comunidade e compreensão mútua.
  4. Educação sobre resiliência: fornecer informações sobre resiliência psicológica e estratégias para enfrentar o estresse pós-traumático, ensinando habilidades de enfrentamento e suporte para lidar com o estresse, a ansiedade e a superação do trauma.
  5. Atividades terapêuticas: introduzir atividades terapêuticas, como arte, música ou terapia corporal, para ajudar na expressão emocional, pode oferecer uma saída criativa para processar a dor e o sofrimento.
  6.  Orientação sobre autocuidado: promover falas sobre práticas de autocuidado, incentivando o sono adequado, alimentação saudável e exercícios físicos moderados, hábitos fundamentais que contribuem para a estabilidade emocional.
  7.  Assistência a grupos específicos: reconhecer as necessidades específicas de grupos vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais, adaptando as intervenções para atender às demandas particulares de cada grupo.
  8.  Encaminhamento profissional: encaminhar pessoas que necessitam de apoio mais especializado a profissionais de saúde mental, como psicólogos, psiquiatras e terapeutas, que podem oferecer acolhimento adequado e tratamento mais intensivo, quando necessário.
  9.  Integração com outras formas de ajuda: coordenar a assistência psicológica com outras formas de ajuda prática, por meio de profissionais de diversas áreas – educadores físicos, fisioterapeutas, médicos, enfermeiros – e com ações de grupos voluntários para fornecer habitação temporária, alimentos e recursos financeiros, proporcionando uma abordagem integrada, tanto às necessidades emocionais quanto às práticas, incentivando a participação comunitária em atividades para fortalecer os laços sociais e criar um ambiente de apoio mútuo.

Ao oferecer suporte psicológico após enchentes e perdas materiais, é crucial reconhecer a resiliência inerente das pessoas e capacitar a comunidade a se recuperar e reconstruir. A abordagem sensível, solidária e centrada na pessoa é essencial para promover a cura emocional.

*João Auricélio Sousa da Silva é doutor em Psicologia Social pela Universidade Kennedy, de Buenos Aires, e mestre em Administração pela Univali/U:verse. É licenciado em Filosofia pelo Instituto de Estudos Pesquisas e Projetos da Uece (1999), psicólogo graduado pela Faculdade da Amazônia Ocidental (Faao, 2010), professor universitário e especialista em Ativação de Processos de Mudança na Formação Superior de Profissionais de Saúde pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Fiocruz). É especialista em Terapia Familiar e de Casal. Psicólogo do Departamento de Humanização da Sesacre. Também empresário, proprietário da Clínica Fortalecer e membro do I Grupo de Estudos em Gestalt-terapia do Acre

*Rafael Lopes Pimpão é especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Aplicada (Faculeste, 2024), psicólogo clínico graduado pelo Centro Universitário U:Verse (2023), graduado em Administração pela PUCRS (2010) com especialização em Logística Empresarial (Esab, 2015) e Docência do Ensino Superior (Faao, 2018), psicólogo voluntário na criação e implementação do Programa Acovida: cuidando de quem cuida, do Departamento de Humanização da Sesacre (2020. 2021. 2022 e 2024)

*Fábia Montenegro é psicóloga, especialista em Psicopedagogia, neuropsicóloga em formação, assessora de projetos acadêmicos e profissionais e orientadora técnica de atividades e documentos psicológicos. Atualmente, trabalha em parceria com a Clínica Acolher, compondo o corpo clínico e equipe técnica, com oferta dos serviços psicológicos: avaliação, orientação profissional, treinamentos, palestras, cursos, supervisão em Psicologia e Psicopedagogia